terça-feira, dezembro 22, 2009

Dança Sombria

"Eu conduzi as sombras que perambulam de mundo em mundo
para semear morte e loucura..."
H.P. Lovecraft

Acordei assustado. Estou molhado de suor gelado, o pijama grudado no corpo. Tem gente gritando na rua, muita gente. Alguma coisa está errada. Meu abajur está apagado. Deixo ele sempre aceso para afastar as sombras. Quando eu esqueço, as sombras entram com a luz da rua. Passam pelas frestas da janela e dançam e rodopiam. Elas têm braços compridos e chamam o meu nome baixinho enquanto eu durmo. Eu sei o que elas querem. Querem que eu vire uma sombra e dance com elas para sempre. Mas eu não quero. Por isso eu grito. Grito bem alto, e elas vão embora.

Estranho. Não consigo acender o abajur. A luz acabou. Não tem luz em lugar nenhum. Só a lua cheia brilha, grandona, enchendo o mundo de sombras compridas. Elas estão em toda parte. Na rua, nas casas, no meu quarto. Dançando sem parar. Eu gritei e gritei, mas dessa vez elas não foram embora. Ouço meu nome repetido em milhares de cochichos. Sinto dedos finos no meu rosto. Meus olhos estão pesados de um sono esquisito. Estou com medo. Está me dando vontade de dançar.

quinta-feira, novembro 26, 2009

Pássaro

“Por este pecado caíram os anjos.”
William Shakespeare

O apartamento novo é bonito. Bem grande. Gostei muito do meu quarto. É cor-de-rosa. Cabem todos os meus bichinhos de pelúcia. Muito melhor que nossa casa velha. Papai disse que pagou barato. Tinha acontecido um acidente aqui, e ninguém queria comprar.

Ontem, apareceu uma menininha do meu tamanho. Ela usava um vestido branco. Era muito branca, também. Seu nome é Isabella. Ela brincou comigo de boneca. Disse que voltaria hoje, para me ensinar a voar como um pássaro. E não é que ela veio? Ela falou que é muito fácil. É só correr e pular e ser feliz pra sempre. Ela me mostrou como se faz. Correu pelo quarto, pulou em cima da minha cama e saiu voando pela janela. Agora é a minha vez.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Consumação


"E onde houver ofensa, deixai cair o grande machado"
William Shakespeare

Vanessa penteava os longos cabelos negros em frente ao espelho. Seus movimentos delicados contrastavam com a velocidade dos seus pensamentos. Essa seria a noite mais importante da sua vida. Era seu vigésimo primeiro aniversário, e Juliano cumpriria a promessa que fizera a ela. Passara o dia em preparativos para recebê-lo, vedando as janelas da ensolarada cobertura com grossas cortinas negras e iluminando o espaço com velas. O cheiro adocicado do incenso dominava, hipnótico, o ar.

Juliano despertou em arroubos ardentes de ansiedade. O dia havia chegado. O seu dia. Após dezoito anos de espera, Vanessa seria sua para sempre. Não que isso fosse muito. Afinal, viver quinhentos anos fazia o tempo voar. Na verdade, ela quebrara o tédio da imortalidade com a sua existência frágil. Uma exótica distração. Em seu descanso, sonhara com ela, figura etérea, o sangue fluindo vermelho-vivo através da artéria aberta no pescoço lívido, escorrendo por sua língua e boca, alimentando-o com vida, volúpia e sabor. O sabor da vingança.

Quando entrou no apartamento, tarde da noite, Vanessa o esperava vestindo apenas uma insinuante camisola de seda preta, que deixava entrever praias brancas de pele macia. Os olhos dela transbordavam de obsessão castanha. O mesmo olhar com que, aos quinze anos de idade, ela o fizera jurar que a transformaria. Ser como ele. Permitira que ela vivesse apenas para isso. Arrancara-a dos braços mortos dos pais, ainda bebê, e a preparara para que ela fosse a sua Nêmesis, a vingança encarnada, seu flagelo. Agora, faltava pouco. O ritual se estenderia muito além da proteção da noite e, ao final do terceiro dia, ela renasceria sedenta e bela. Ganharia, como presente, uma presa especial para aplacar o seu desejo de sangue. Seu próprio tio Jonas, o rosto que foi gravado a fogo na mente de Juliano, o maldito padre que destruíra seu irmão Samir. Padre Jonas, que acreditava que a sobrinha fora morta junto com os pais, descobriria então o real paradeiro dela, e teria sua última e dolorosa decepção. Vanessa o tirou de seu transe, conduzindo-o pela mão em direção à cama, que havia sido deslocada para o centro do recinto. Saindo de cada um dos pés de sua estrutura de metal, grossas cordas repousavam emboladas sobre o colchão.

– Para que são? – Juliano perguntou, abafando o riso.

– Para que você me amarre – ela respondeu, dando de ombros – Sei que não tem a menor necessidade, mas, nos meus sonhos, é assim que acontece...

– Como quiser – ele aquiesceu, beijando-a com paixão.

O beijo de Juliano fez com que ela lembrasse de cada abraço, beijo e carinho que recebera dele desde a infância. Imagens delirantes assaltaram sua mente, o rosto dele misturando-se ao de seus pais. Deixou que ele explorasse seu corpo com a língua gélida, enquanto a despia devagar. Rolou com ele na cama, lutando para o libertar de suas roupas. Braços, peito, costas e pernas revelaram-se, pouco a pouco em sua palidez doentia. Movia-se, provocante, exibindo o próprio pescoço em uma dança silenciosa. Podia ver o desejo ardente nos olhos dele, agora vermelhos. Seus lábios entreabertos retraíram-se em um esgar sequioso. O momento estava chegando.

Ele a amarrou com firmeza, braços e pernas formando um X na cama. Indefesa, ela fechou os olhos e esperou pela mordida. Assassino! Isso é o que ele era! Ela era pequena demais, mas a imagem nunca saíra de seus sonhos. Ele matara seus pais a sangue frio, apenas para tomá-la para si. A mordida veio cruel, dilacerando seu pescoço. A dor fria espalhou-se, e ela teve que usar toda a repulsa que sentia por ele para não desmaiar. Sentiu-o sugando seu sangue com voracidade, e isso trouxe novo fôlego ao seu ódio. Concentrando-se, utilizou toda a força que restava em seu corpo para puxar as cordas atadas aos seus braços, na esperança de que o tempo transcorrido até então fosse o bastante. Uma a uma, as cortinas soltaram-se do teto e despencaram para o chão, abrindo caminho para que os raios alaranjados do sol nascente invadissem o apartamento. Juliano gritou em agonia, seu corpo incendiando-se como o tecido negro das cortinas ao encontrar as velas.

O calor das chamas que a consumiam era libertador. A dor, reconfortante. Ela sorriu, satisfeita, enquanto contemplava o último amanhecer de sua vida.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Reflexões




"All that you see or seem, is but a dream within a dream"
Edgar Allan Poe


Preciso me livrar desse outro eu que há em mim, sufocado, engasgado. Que me olha meio de lado no espelho, ávido pra sair. Ele apenas espera por uma fração de segundo, um descuido ou distração, para assumir o controle, escurecendo-me os olhos para que possa usá-los, roubando-me o vigor das mãos. Fico prisioneiro em meu corpo, vagamente consciente da minha triste sina de arauto, perdido em meio a pensamentos que não são meus. Mil e uma vidas paralelas construídas de imagens, sons e mais uma força desconhecida que irrompe inquieta, ardente, e só se acalma ante o estrondoso cair do ponto final. Obtuso e imerso em uma sucessão de vazios...


Bruno encarava a linha interrompida, incapaz de continuar a escrever. Como em todas as outras vezes, o que o impedia não era a falta de idéias, mas a fragilidade do próprio texto. Tudo o que conseguia era registrar um arremedo falho e inconclusivo do que passava pela sua cabeça. A essa altura, não sabia mais dizer se o que pensava valia a pena. Largou a caneta.

Levantou-se e caminhou pelo minúsculo apartamento como se pudesse encontrar algum conforto nas paredes nuas e descascadas de umidade. Só conseguiu sentir-se pequeno e sozinho. Não tinha nada além dos poucos pertences que o seu emprego medíocre permitira comprar. Seu único luxo era um espelho de corpo inteiro pendurado em uma das paredes.

Sorriu para o homem opaco refletido nele. Não era nada feio. Na verdade, faltava habilidade para se relacionar com as mulheres. Também não tinha muitos amigos, era tímido demais para isso. As olheiras fundas se destacavam na palidez do seu rosto, fazendo com que parecesse ter trinta e oito anos ao invés de trinta e dois. Tentou imaginar uma vida nova para si, mas seu desânimo o traiu. Tudo parecia impossível demais. Fez uma careta para si mesmo, e observou com ironia a imagem perfeita refletida no espelho. De todos os aspectos da sua vida, esse parecia ser o único sobre o qual ainda tinha domínio. Não importava o que fizesse, seu clone especular deveria imitá-lo.

Divertiu-se por algum tempo obrigando o seu reflexo a fazer poses ridículas, pelo simples prazer de estar no comando. Mas por fim achou tudo aquilo muito triste e tomou uma decisão. Pegou sua navalha e colocou-a contra o pescoço. Mataria a si mesmo e ao seu reflexo miserável. Encostou a outra mão na superfície do espelho, tocando o seu outro eu em um gesto melancólico de despedida.

Os dedos do seu reflexo fecharam-se com violência por sobre os seus. Os olhares se encontraram e Bruno sentiu a realidade distorcer e rodopiar à sua volta, como se fosse possível piscar sem fechar os olhos. No momento seguinte, a mão que segurava a navalha afastou-se devagar, por vontade própria. Os dedos afrouxaram a pressão sobre o cabo, e a lâmina escapou para o chão. O entrelace desfez-se e os braços abaixaram-se em sincronia. Sentiu sua boca mexer, mas foi o Outro que falou. “Desculpe, tive que agir. Você estava denegrindo a MINHA imagem!”. Seus olhos agora brilhavam com energia.

O Outro ajeitou o cabelo e Bruno, impotente, viu-se imitando o gesto. “Não deve ser difícil me sair melhor do que você!”, disse em tom de provocação, dando uma piscadela marota antes de virar de costas para o espelho. Bruno não pôde sequer olhar enquanto seu outro eu saía para começar uma vida nova.

quarta-feira, outubro 21, 2009

Mistério em Mallorca


“Brace yourselves for the fury of the ocean wants its toll”
Fairyland – “Master of the Waves”


“Impossível!”, pensou o Inspetor Ortiz, caminhando em círculos pelo apartamento enquanto repassava mentalmente todos os detalhes da investigação. Ao entrar para arrumar o quarto, a camareira do hotel havia encontrado Johnny O’Doe morto sobre a cama. Ele estava roxo, com os músculos todos contraídos. As articulações da mão estavam esbranquiçadas de esforço, como se ele tivesse tentado se agarrar, literalmente, à vida.

Johnny tinha trinta e dois anos e era muito conhecido no mundo, tanto pela sua capacidade de lotar estádios com seus shows, quanto pela sua disposição para festas e bebedeiras. Viera à Espanha de passagem, apenas para receber um prêmio em Mallorca. Festejou a noite inteira, voltou ao hotel sozinho, e nunca mais acordou.

O relatório do legista foi tão assustador que o comissário optou por mantê-lo em sigilo. Apesar das especulações da imprensa girarem em torno disso, não foi encontrado nenhum traço de drogas em seu organismo. Seus pulmões estavam cheios de água salgada. Havia vestígios de areia de praia no nariz e sob as unhas, mas uma análise comparativa chegou à conclusão de que não eram de nenhuma praia da Espanha. A equipe forense esquadrinhou o quarto três vezes, mas não encontrou nenhuma pista. Nada. Tudo estava impecável. Nenhum sinal de arrombamento ou luta, nem de que o corpo fora transferido para a cama.

Sentado no chão do quarto, com a cabeça entre as mãos, Ortiz ficou horas tentando rever a cena do crime de diferentes ângulos, em busca do elemento faltante que daria uma explicação para tudo. Ele tinha que estar ali em algum lugar. Lembrou do seu treinamento na Academia de Policia, quando lhe disseram que todo investigador veterano era assombrado por um crime insolúvel. Sentiu um gosto amargo subir pela garganta. Talvez esse fosse o seu.

Sentindo-se derrotado, Ortiz resolveu voltar para a delegacia. Lacrou de novo a porta do quarto e caminhou até o elevador absorto em seus pensamentos. No caminho, cumprimentou com um aceno automático o faxineiro que lavava o chão do corredor.

O faxineiro acompanhou o inspetor com o canto dos olhos, sem interromper seu trabalho. Quando a porta do elevador se fechou, ele suspirou aliviado: ninguém percebera nada. Então ele soltou o primeiro botão da camisa para admirar o objeto que trazia pendurado no pescoço e que, de algum modo, conseguira subtrair do corpo do músico antes da polícia chegar. Ele contemplou fascinado o enorme medalhão de prata cintilante que pendia da corrente de elos grossos. Haviam seis pedras verdes dispostas em círculo engastadas na superfície do disco, emolduradas por relevos parecidos com letras, mas que ele não sabia dizer o que significavam. No dia seguinte, iria procurar um antiquário no centro. Esperava conseguir uma boa quantia por ele.

Naquela noite, em seu apartamento no subúrbio, o faxineiro caiu em um sono profundo. Assim como Johnny O’Doe, esqueceu-se de tirar o medalhão do pescoço. 


Sonhou que estava em uma praia de areias brancas. Atrás dele, uma cidade prateada brilhava sob a lua cheia. Não havia visto nada assim tão bonito em toda a sua vida. A cidade ancestral e misteriosa parecia tremeluzir junto com as estrelas do céu. Um vento forte desgrenhou os seus cabelos, e ele virou-se novamente para olhar o mar. Compreendeu que estava em uma grande ilha. O mar, negro e denso como a noite, envolvia a costa em um abraço frio. Somente os pequenos reflexos da lua na água indicavam movimento. E foi aí que ele percebeu que algo estava errado. O horizonte se aproximava rapidamente, alto demais. Uma imensa muralha negra de água e fúria, que lhe parecia ser cinco, dez, vinte, muitas vezes maior que ele. Tentou acordar, mas não conseguiu. Tudo aconteceu rápido demais. O mar atingiu a ilha e obliterou a cidade, como se o oceano se fechasse sobre ela. Ele tentou agarrar-se como pode no chão, nas árvores, nas construções prateadas, mas a água implacável castigou o seu corpo e o jogou de um lado pro outro, de modo que ele nem sabia mais para que lado ficava o céu. Estava ficando sem ar.

Na manhã seguinte, um novo corpo jazia retorcido sobre a cama em um quarto trancado por dentro. Mas para esse, ninguém deu importância. Quatro dias depois, o senhorio arrombou a porta por causa do mau cheiro. Enojado, ele só se aproximou da cama porque algo muito brilhante chamou sua atenção. “Isso deve bastar para compensar os três meses de aluguéis atrasados!”, disse para si mesmo, pegando o medalhão com o seu lenço e o guardando no bolso do seu casaco. E então ligou para a policia.

quarta-feira, outubro 14, 2009

Microcontos

I

– Vá embora! Você é um monstro! – ela disse, escondendo o rosto com as mãos.

A crueza das palavras o atingiu com o poder de uma bofetada. E foi a primeira e única vez que seus dez olhos verteram lágrimas.

II

Acordou no meio da noite atordoado e percebeu que estava sendo arrastado dentro de um enorme saco de lixo preto, em direção a um enorme caminhão que acelerava. Foi lançado com um baque surdo em um compartimento estreito e malcheiroso. Gritou e gritou, mas o som metálico implacável do compactador de lixo abafou os seus gritos.

III

– PARE! Você está me comendo com os olhos! – gritou a mulher horrorizada.

– Nossa! Que indelicadeza a minha! – respondeu ele, largando-lhe o braço. Usando uma pequena colher, arrancou-lhe os olhos friamente, e então destroçou-lhe o ventre a dentadas.

IV

Elias ficava horas contemplando a pele de Helena sob a luz da janela, encantado com o seu brilho acetinado. Apreciava sua textura e o seu aroma doce. Quando Helena lhe abordou de malas prontas, dizendo que ia embora para sempre, ele se apressou em trancar a porta à chave. Avançando sobre ela com uma faca de churrasco na mão, disse apenas: “Você pode até ir, mas a sua pele fica!”.

V

Todas as quartas-feiras o marido de Flavia viaja, e ela leva um completo estranho para sua cama. A quilômetros dali, Agenor limpa as mãos sujas de sangue sem tirar os olhos do vídeo. Fixa na memória o rosto do desconhecido que faz sexo com sua mulher. Quarta-feira que vem, irá atrás dele.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Ilícito



Tem que ser hoje. – pensou Jaime – Não dá pra esperar mais! 


Suas mãos suadas apertaram ainda mais o volante, tentando conter o tremor que recomeçara. Hesitou por um instante, então arrancou a gravata com um único puxão. Limpou o suor da testa no punho da camisa e, nervoso, tornou a segurar o volante. Tinha que ser agora

Com um movimento brusco, o carro cruzou as três faixas da avenida em direção ao retorno, o que provocou um coro de buzinas em protesto. Jaime sequer percebeu. No estado em que se encontrava, ignorava por completo o caos que dominava a metrópole. Concentrar-se ficava cada vez mais difícil. A cada segundo, aumentava a consciência de que o que desejava estava ali mesmo, em um pequeno pacote oculto sob o banco do passageiro. 

Não posso! – ponderou, os dentes trincando de tensão. – Não com as ruas lotadas de gente e sensores para todo o lado. Quantos Vigilantes estariam misturados à multidão? 

Ele sabia muito bem o que acontecia quando alguém violava a Interdição. Presenciara a cena uma vez. Fora tudo muito rápido, mas ele nunca pôde esquecer os gritos. Não mesmo. Até os que nunca tiveram motivo para temer tinham pesadelos com isso. 

Enrijeceu-se no banco e obrigou-se a pensar em outra coisa, ou não conseguiria chegar até a estrada. Seus pensamentos flutuaram, desconexos, por alguns minutos e, por fim, pousaram nas lembranças da sua vida antes da Interdição. Ele não podia culpar-se por isso, sua geração era a que mais sofria. Tinha cerca de vinte anos quando tudo começou. 

Naquela época a cidade era mais suja e malcheirosa, mas as pessoas ainda tolevaram-se umas às outras. Conseguia-se comprar a droga em qualquer esquina e fazer uso dela na maioria dos lugares, sem qualquer tipo de sanção. Era um ritual pessoal. Mas o costume começou a perder a força e alguns lugares começaram a proibi-lo uso em respeito às pessoas limpas. Foi o bastante para que ele ganhasse novo fôlego. As proibições começaram a ser desrespeitadas, gerando constrangimento e preconceito. Então o governo resolveu interferir. 

Baseado numa antiga lei esquecida, o uso foi proibido em todos os lugares públicos fechados e a fiscalização endureceu. Em pouco tempo, as calçadas e ruas foram tomadas pelos usuários e por seu odor característico, formando uma verdadeira barreira humana para quem quisesse entrar ou sair de qualquer lugar. O preconceito intensificou-se, e suas manifestações ficaram cada vez mais violentas. A resposta do governo foi enérgica, proibindo qualquer uso público da substância. As ruas esvaziaram-se e a vida noturna da cidade quase desapareceu. Os Sujos trancavam-se em casa, sozinhos ou em pequenos grupos, e consumiam quantidades absurdas da droga. À essa altura, o preconceito se transformara em ódio mútuo, e os vizinhos Limpos começaram a reagir. 

Para evitar uma guerra civil, o governo baixou a Interdição, uma medida extrema e radical, proibindo totalmente o comércio da droga e banindo qualquer uso detectável por seus sensores em um raio de cem quilômetros em torno da cidade. A pena era a execução sumária e imediata. Muitos Limpos extremistas alistaram-se nas forças da Vigilância, e o que se sucedeu foi uma carnificina legalizada, que impôs a lei pelo medo. 

Passados quase dez anos, os Sujos que sobreviveram permaneciam escondidos. Poucos conseguiram de fato abandonar o vício, pois a droga era potente demais. Os Vigilantes, novamente misturados aos civis, só se revelavam quando ocorria uma violação. A sociedade vivia em tensão constante, pois não era mais possível saber quem era quem. As pessoas afastaram-se umas das outras, e assumiram um comportamento hostil. Mas a cidade estava limpa, uma utopia em verde e cinza. 

Jaime dirigia em alta velocidade pela estrada, os olhos fixos no horizonte. Até que seus olhos captaram ao longe o marco verde que procurava. Ao aproximar-se da grande placa na qual se lia “Limite da Interdição Municipal – Respire por sua própria conta e risco”, saiu para o acostamento, reduzindo a velocidade. Lançou o carro em uma pequena trilha de terra batida que conduzia a uma grande clareira na vegetação. Havia muitos carros estacionados ali. 

Encontrou um lugar entre eles e parou. Enfiou a mão ávida embaixo do banco do passageiro e apanhou o embrulho pardo em seu esconderijo. Desceu do carro aos tropeços e sentou-se sobre o capô. Dentro do pacote havia um maço de cigarros vagabundos, todo amassado, que comprara, por um preço absurdo, de um contrabandista. Segurou um deles entre os dedos e o cheirou, deliciando-se com o aroma. Bateu a mão livre nos bolsos, e percebeu, com horror, que não trouxera isqueiro ou fósforos. 

– Tome, use o meu! – um homem, sentado no capô de um carro próximo, atirou-lhe um isqueiro. O objeto descreveu uma curva perfeita no ar, e Jaime apanhou-o sem dificuldade. Ao fundo, pessoas conversavam animadas, e havia música alta vinda de um dos carros. 

Jaime acendeu o cigarro e jogou o isqueiro de volta, tentando lembrar se já tinha visto aquele homem na cidade. Não importa! – concluiu, soprando a fumaça de sua primeira tragada – Aqui, somos todos amigos!

sexta-feira, setembro 18, 2009

Coisas Simples

“Everytime the rain comes calling
I can't stop myself from falling
Into the darkness - into the madness”
Primal Fear – “Everytime it Rains”

Saltei por sobre a cerca branca baixa que delimitava o jardim dos fundos da casa com um movimento preciso, utilizando apenas uma das mãos como apoio. As poucas coisas que me trazem prazer são, de fato, muito simples.

Pousei de maneira suave, com os dois pés perfeitamente equilibrados sobre o imenso tapete verde que cobria toda a distância até a casa. A grama estava um pouco mais alta do que deveria, mas é assim que gosto dela. Fechei os olhos e respirei fundo, deixando aquele cheiro fresco delicioso invadir meus pensamentos. Todos os pêlos do meu corpo se arrepiaram ao sentir no vento frio que explodiu contra o meu peito o presságio de chuva. Meus lábios se abriram em um sorriso involuntário.

Caminhei pelo gramado até o anjo de pedra que se erguia solitário no centro do terreno. Haviam sombras escuras em seu rosto, que parecia triste hoje, misturado ao cinza chumbo do céu. Percorri com a mão esquerda as suas formas familiares, sentindo a textura da pedra antiga em meus dedos enquanto contemplava a imensa casa branca que se erguia à minha frente. Ela brilhava de um jeito estranho na luz agourenta que vazava por entre as nuvens zangadas, cada uma das muitas janelas era como um espelho perfeito do espetáculo da natureza que se formava. Todas as delicadas sensações condensaram-se em um fraco torpor de felicidade, que partiu do meu estômago e logo se alastrou para o restante do corpo. Meus pensamentos foram dominados pela ânsia violenta de intensificar e prolongar ao máximo esse sentimento, antes que ele pudesse desaparecer por completo.

A chuva fria começou a cair, intensa, desenhando pequenos riachos sobre a minha longa capa de chuva amarela. Mesmo oculto sob as sombras do capuz, meu rosto foi açoitado por milhares de gotas geladas que escorriam até a minha boca, e eu pude sentir na água o gosto amargo da condenação. Permaneci imóvel, paciente, esperando que a chuva pudesse levar embora todos os meus sentidos e me libertar da escravidão dos meus desejos. Mas a chuva passou, e nada aconteceu.

Com uma alegria inocente, quase infantil, me aproximei da entrada dos fundos da casa, que ficava sobre uma elegante plataforma de madeira avarandada. Subi com cuidado pela pequena escada de quatro degraus, evitando com uma agilidade inconsciente o terceiro deles, que rangia alto demais. Do lado esquerdo da porta, havia uma janela alta de vestíbulo, a única ali com uma tela de proteção. Corri a mão pela parte de baixo da tela, até alcançar a chave. Destranquei a porta e entrei, fechando-a com cuidado atrás de mim.

...

Felicidade extrema. Era o que eu sentia ao sair da casa. Tranquei novamente a porta dos fundos, recolocando a chave em seu esconderijo, e desci para o jardim. Fui recebido novamente pelo cheiro doce da grama alta molhada. Meus pés faziam um som agradável ao chapinhar pelo gramado encharcado. O vento gelado assobiava uma canção melancólica em meus ouvidos e, antes que eu pudesse chegar até a cerca, a chuva recomeçou. Como da primeira vez, deixei que ela me atingisse em cheio. Mas os pequenos riachos sobre o tecido amarelo impermeável da minha capa de chuva estavam agora tingidos de vermelho vivo. A chuva lavou todo o sangue, e então parou.

Saltei por sobre a cerca branca sem o menor sinal de cansaço. As poucas coisas que me trazem trazem prazer são, de fato, muito simples.

quinta-feira, setembro 17, 2009

Olha que Blog maneiro!


Recebi mais esse selo da Camilíssima Furtado (do Caixa de Pandora e também do Autores S.A.), uma fantástica escritora carioca que acompanha de perto este blog e tem me ajudado muito com suas observações. A ela meu muito obrigado pelo carinho e atenção!

Este selo, trocado entre os blogueiros, é uma forma de incentivar a divulgação de toda forma de cultura (arte, literatura, informação, etc). As regras para exibir esse selo são:

1. exiba a imagem do selo "Olha que blog maneiro"
2. poste o link de quem te indicou.
3. indique pessoas de sua preferência.
4. avise o indicado.
5. publique as regras.
6. confira se os blogs indicados repassaram os selos e as regras.

Segue a minha lista de indicações maneiras:

segunda-feira, setembro 07, 2009

Doce, mas não tão doce

“I know that you belong to me every night
You suddenly appear in my eyes
It happens when I sleep, it isn’t right
What I do in my dreams with you”
Steve Vai – “In my dreams with you”

De onde diabos apareceu essa mulher? Era como se ela soubesse exatamente o que dizer, o que pensar, o que fazer. Havia quilômetros entre nós, mas a sincronia era tanta que até irritava.

Tentei racionalizar o fato, e isso fez minha cabeça latejar de maneira violenta. Gemi, tentando não perder de vista as janelas piscando na tela do computador. Uma nova mensagem apareceu:

Beatrix diz: Não consigo parar de pensar em você... de ter certas idéias...

Era cada vez mais difícil resistir à tensão que surgia entre nós, embutida naquelas frases claras e perfeitas, equilibrada de maneira precária entre a espontaneidade e a premeditação. Meus dedos corriam pelo teclado sem precisar de comando, como se fossem uma extensão do meu subconsciente.

Marcos diz: Que tipo de idéias?

Não demorou nem 1 minuto, e outra resposta chegou:

Beatrix diz: Eu, você, seu perfume... e muitas más intenções...

Marcos diz: Você gosta de vinho?

Beatrix diz: Adoro!

Marcos diz: Então você terá sérios problemas com o meu perfume!

Beatrix: Por quê?

Marcos diz: Ele é inspirado em um vinho argentino. É suave, então você precisa chegar BEM perto pra sentir...

Beatrix diz: Não me provoque assim! Você não sabe do que eu sou capaz...

Minha imaginação começou a trabalhar com uma fúria louca, procurando entre as minhas fantasias latentes um arremedo de razão, algo que trouxesse um pouco de realidade para acalmar meu desejo.

Marcos diz: Você é tão perigosa assim? Qual a sua altura?

Belatrix diz: Um metro e sessenta e dois.

Marcos diz: Eu ia me sentir o próprio Gulliver perto de você: tenho um metro e noventa. Já estou até imaginando eu acordando amarrado numa cadeira com milhares de fiozinhos fininhos...

Belatrix diz: Cadeira, cordas, você... acho que estou tendo uma idéia bem melhor que a sua...

Marcos diz: Cadeira, cordas, você, seu perfume.... Poderia até adivinhar, mas prefiro que você me conte!

Belatrix diz: Você nunca ia adivinhar qual é o meu perfume... pouca gente conhece, menos gente ainda usa...

Senti meu coração dar golpes duros em meu peito quando uma imagem azulada formou-se em minha mente. A princípio apenas um borrão, como qualquer outra imagem subconsciente. Aos poucos, a cena foi ganhando

[foco. Uma sala escura sombras pretas alongando-se pelos cantos dos olhos dançando no ritmo pesado e denso da minha respiração uma cadeira no centro da sala ou será cozinha fria reflexo de luz bruxuleando na parede do meu lado esquerdo mas como eu sei que aqui é alto a luz não é da rua mas deixa um reflexo lindo quando passa pelo teu rosto e olhos que não vêem nada a não ser desejo deus não consigo me mexer e nem quero hipnotizado por teu cheiro doce porém não tão doce que se alastra e fixa em meus poros bailado tenso do teu corpo nu contra o meu pulso ardente por causa das cordas que me fixam imóvel admirando o brilho cinético do objeto metálico que cruza o ar nítido junto ao meu rosto cortante...]

Marcos diz: eu estou SENTINDO seu perfume... mas não sei o nome. Ele é doce, mas não tão doce... pelo menos não na sua pele!

Belatrix: Mas como é que você....? Hum, as pessoas realmente dizem que ele fica mais suave na minha pele....

Marcos diz: As paredes do seu apartamento por acaso são azuis?

Belatrix diz: ? Não! Brancas! Pelo menos de dia...

Marcos diz: Como assim?

Belatrix diz: Tenho um tipo de iluminação na sala que deixa tudo meio lilás à noite, por quê?

Marcos diz: ...tem um reflexo estranho na parede, parece reflexo de luz de carro? Mas não pode ser porque seu andar é alto...

Belatrix diz: Céus! ...tenho um cristal pendurado, entre a sala e a cozinha... sabe? É uma cozinha americana, aquela com balcão, integrada na sala. Conforme a luz entra ele...

Marcos diz: Pelo amor de Deus, qual é o nome do seu perfume?

Anotei o nome do perfume em um pedaço de papel, e desliguei de súbito o computador, ainda arfando de desejo e medo. As imagens continuavam a brilhar ácidas em minha mente, o cheiro parecia estar preso em meu rosto. Por que pareciam tão reais?

Corri até uma loja de perfumes e perguntei pelo nome que ela me deu. Claro que era o mesmo. Ele era mais forte no frasco, mais doce, mas era indiscutivelmente aquele. Passei o resto do dia tentando processar o que tinha acontecido, mas não havia lógica nenhuma. Tarde da noite, eu ainda rolava pela cama inquieto, com os neurônios pulsando a mil por hora. Por fim, o sono me alcançou.

...

Acordei com uma dor de cabeça pungente, a musculatura rígida em protesto. O mundo escuro à minha volta parecia lavado em tons de índigo e púrpura. Não consegui me mexer, eu estava amarrado em uma cadeira. E então senti aquele cheiro doce, mas não tão doce...

sábado, setembro 05, 2009

Vale a pena ficar de olho nesse blog!


Recebi esse selo da Camilíssima Furtado (do Caixa de Pandora e também do Autores S.A.). Ela é uma escritora de mão cheia e a indicação desse blog por ela me deixou indescritivelmente feliz!

Este selo, trocado entre os blogueiros, é uma forma de incentivar a divulgação de toda forma de cultura (arte, literatura, informação, etc). As regras para exibir esse selo são:

1. Postar o nome do blog que indicou o selo
2. Indicar 10 blogs e avisá-los
3. Verificar se os blogs indicados estão cumprindo as regras

Segue a minha lista de indicações. Estes valem mesmo a pena!


segunda-feira, agosto 24, 2009

Prólogo




As sombras... a dor... como eu odeio quando isto acontece! Minha cabeça está a ponto de explodir. Tudo fica tão estranho: as cores...as pessoas...

Meu Deus! O que é isto?

– Não, papai, não me mach.....

...


– Ei! O senhor está bem, moço?
Abri os olhos, tentando responder a pergunta, mas dos meus lábios saíram apenas umas poucas palavras sem sentido. O mundo não passava de um borrão tentando ganhar uma forma tangível.

– Moço? Ah, que bom... o senhor está vivo!

Quis dizer que isso não representava grande coisa, porque minha vida tinha se tornado um inferno de uns tempos pra cá: Stella me deixou, fui chutado do emprego, e ainda por cima começaram essas malditas dores de cabeça... é, a situação não estava nada boa. Contive minha língua quando o borrão na minha frente se transformou numa menininha de uns seis anos com um olhar curioso. Não, a criança não tinha culpa do que estava acontecendo comigo.

– Moço?
– Oi! – disse ainda meio zonzo – O que aconteceu?
– O senhor vinha andando e, de repente, começou a ficar esquisito. Então caiu sentado aqui, não lembra?

Não, não me lembrava. Quando as dores começam, minha visão vai ficando distorcida e eu perco a noção do que estou fazendo.

Olhei ao redor: pessoas passando apressadamente. Olhei o relógio: meio dia e meia. Não era de se admirar que ninguém mais tivesse parado para ver o que havia acontecido. Hoje em dia, as pessoas estão entretidas demais com seus próprios problemas. Por que eu, um Zé-Ninguém no meio da multidão, mereceria atenção?

– Já estou melhor! – esforcei-me para dizer. Embora já sentisse a dor indo embora, sabia que ela voltaria de novo. Talvez à noite. Talvez antes. – Onde está sua mãe?

Ela apenas apontou displicentemente com o polegar por sobre o ombro. Olhei naquela direção e pude sentir o gosto amargo da ironia em minha garganta: eu havia caído junto à porta de uma farmácia!
– Levanta, moço! – disse a menina me puxando pelo braço.

No instante em que a menina me tocou, fui tomado por uma angústia incrível. Levantei-me, tentando esconder as lágrimas que escorriam da minha face.

– Por que o senhor está chorando?
– ... não sei.... – murmurei. E de fato não sabia. Apenas sentia medo.


....não, por favor, papai.... não me machuque...

Era um como um eco em minha mente. Na primeira vez, achei que fosse a dor de cabeça, mas agora era terrivelmente real.

Olhei para a menina e encontrei seus olhos intensamente verdes. Subitamente, eles saltaram para dentro de mim, como uma piscina translúcida, e eu vi. Aquele pequeno anjinho mostrava marcas permanentes de sofrimento, como manchas em um lençol inteiramente branco. Era como se as memórias fossem minhas, mas eu sabia que não eram.

Papai chegou em casa tarde. Ia correndo até ele, mas Mamãe me disse pra ficar quieta. Disse que Papai estava muito cansado e que eu tinha que ir deitar... eu só queria dar um abraço nele! Estava com saudades, mas obedeci Mamãe. Lá do meu quarto ouvi Papai gritar com ela, dizendo que ela não prestava pra nada... Não parecia Papai. Ele estava bravo com ela porque ela havia esquecido de comprar seus cigarros. Resolvi ir espiar. Desci as escadas e vi Mamãe chorando, com as mãos no rosto... ele havia batido nela. Fui em direção a ela, mas Papai me segurou... me disse pra ir deitar. Sua voz estava esquisita, e ele estava cheirando a cerveja. ......por favor, Papai, não me machuque....não ..... NÃO...!”

– Sam!!!

A criança desviou o olhar, assustada. Uma loura de uns trinta anos saiu da farmácia apressadamente e, literalmente, arrancou a criança da minha frente.

– Samantha, – ralhou a mulher, indignada, enquanto acenava para um táxi – quantas vezes já lhe disse para não falar com estranhos?
– Mas eu estava ajud.......
– Nada de “mas”! Vamos pra casa e hoje não vai ter TV depois da janta!

O carro encostou, eu precisava agir rápido. Segurei a mulher pelo braço. Ela voltou-se, confusa.

– Sua filha estava apenas me ajudando. – disse antes que ela pudesse gritar – Eu caí e ela me ajudou a levantar, foi só isso.

A mulher me fitou um instante através de seus óculos escuros. Eu sabia o que havia por detrás deles, embora ela se esforçasse para esconder.

– Isso é verdade, Sam? – perguntou, meio insegura.
– Sim, Mamãe.
– Tudo bem, então. Vamos embora, filha – decretou, abrindo a porta do táxi.
– Espere! – gritei, me aproximando dela – Por que a senhora não foi à polícia?

A mulher empalideceu. Sam não demonstrou ter ouvido o que eu falei. Estava entretida demais observando um papel de bala que flutuava ao sabor da brisa de outono.

– Não sei do que o senhor está falando – disse-me, sem graça.

Sem dizer mais nada, enfiou a menina no carro e entrou, batendo a porta.

– Nós sabemos que você sabe, não é, Sam? – pensei comigo mesmo enquanto observava o veículo se afastando.

quinta-feira, julho 23, 2009

Para sempre


“Desejar a imortalidade é desejar a perpetuação eterna de um grande erro.”
Arthur Schopenhauer

Deviam ter me avisado que a vida eterna não incluía saúde eterna. Mas isso não estava escrito naquele maldito livro que encontrei. Disse as palavras certas, fiz o sacrifício adequado, foi tudo muito simples, na verdade. E durante oitocentos anos, funcionou muito bem. Compelido pela minha falsa juventude, eu vivi a vida de maneira intensa e irresponsável, arrumando desafetos e me arriscando como se eu fosse invulnerável. Até que, um dia, um marido traído me deu um tiro pelas costas. A bala se alojou na minha coluna, e eu fiquei tetraplégico. Preso a uma cama para sempre, o médico disse, mas ele não sabia que o meu “para sempre” era muito, muito tempo.

Por motivos óbvios, eu não podia mais desaparecer antes que as pessoas percebessem que havia algo errado comigo, e foi aí que os problemas começaram. Um antigo empregado, que estivera comigo desde a sua infância, sentindo-se às portas da morte, resolveu colocar a natureza de volta ao seu curso normal. E despejou, naquilo que chamavam de minha comida, uma dose cavalar de um veneno da pior espécie. Eu estrebuchei durante dias, sentindo dores horríveis na pequena porção que ainda me era sensível do corpo. Fui levado para um hospital, mas os médicos não conseguiam compreender o que estava acontecendo comigo. Eu rezei muito pra que a morte viesse e me livrasse desse duplo sofrimento. Mas ela não veio, e antes da dor ir embora, minha visão escureceu por completo e nunca mais voltou.

Os dias arrastavam-se incansáveis. Cada vez mais longos e iguais. No escuro da minha mente, eu conseguia ouvir as pessoas cochichando entre dentes à minha volta. Eu era uma aberração, e o ser humano sempre dá um jeito de sumir com o que não entende. Não sei dizer quanto tempo se passou até que resolvessem de fato fazer alguma coisa. Afinal, a minha percepção do tempo fora, pouco a pouco, desfigurada pela imortalidade. Uma noite entraram no meu quarto e, com um bisturi, rasgaram minha garganta de fora a fora. Um movimento único e firme. Sabiam muito bem o que estavam fazendo, pois cortaram fundo, para que eu não conseguisse gritar. Deveria ser uma morte horrível, porém rápida. Graças a Deus, ninguém mais além de mim sabe o que acontece quando se tira a morte da equação. Houve pânico quando perceberam que eu não ia morrer. Em meio à minha infindável e silenciosa agonia, pude ouvir a discussão. Até que um deles teve uma idéia simples, que gelou os meus ossos: ignorar que eu não morrera.

Fui enfiado em um caixão apertado. Afixaram a tampa e, além da tranca, martelaram pregos em toda a volta. Queriam garantir que eu não saísse mais dali. Senti um baque quando me deixaram cair na cova do cemitério, mas daqui, não dá pra ouvir mais nada. Devem ter me enterrado bem fundo, pois o silêncio é absoluto. Não posso gritar, não posso me mexer. Também não posso morrer.

domingo, julho 12, 2009

A Prisioneira

“Tears of unprecendented beauty
Reveal the truth of existence
We're all sadists”
Epica – "The Phantom Agony"

A silhueta negra do Abade se destacava contra a luz das tochas dos cruzados. Havia centenas delas. O ar estava denso e insuportavelmente quente, o que deixava os cavalos ainda mais agitados. Ele ergueu os braços em direção à cidade e liberou o ataque:

– Neca eos omnes. Deus suos agnoscet!

E os cavaleiros partiram, abrindo uma trilha de sangue e corpos mutilados até os portões da cidade. As tochas vieram logo atrás, tocando tudo que ainda se mexia. Um cheiro acre e pungente tomou o ar. Pessoas em chamas corriam pelo campos aos berros, não dava mais para distinguir se eram homens, mulheres, idosos ou crianças. Os olhos do Abade brilhavam de satisfação: Béziers caíra, mas ele iria até o fim. O sorriso que se abriu em seu rosto não era humano.

Jean-Baptiste acordou gritando. Estava banhando em suor. Eram quase duas da manhã, mas ele sabia que passaria o restante da noite em claro. O problema era o cheiro. Podia lavar o rosto e as mãos, banhar-se em perfume, mas o cheiro de carne queimada não ia embora. As crises de insônia estavam ficando cada vez mais freqüentes, e Deus havia tempos não atendia mais as suas preces para que trouxesse o sono de volta. Testemunhara coisas demais. Apanhou na gaveta um lenço perfumado, cobriu com ele o nariz e a boca, e deixou-se ficar na cama contemplando o teto, tentando ouvir o que se passava lá fora. Aparentemente, ninguém se alarmara com o seu grito. Conseguiu distinguir ao longe a movimentação da patrulha noturna, quebrando com passos regulares a monótona sinfonia das criaturas da noite. Sentiu uma ilusória, porém reconfortante, sensação de segurança.

Por volta das três da manhã, bateram vigorosamente em sua porta, o que fez seu coração disparar em agonia: não ouvira ninguém se aproximar. Cautelosamente, foi até a porta e espiou pela fechadura: era o miúdo noviço que estava em vigília na masmorra. Destrancou a porta e a abriu o suficiente para passar sua cabeça.

– Pois não?

– Sss.....Senhor, temos uma nova prisioneira – o noviço suava frio e gaguejava, visivelmente alterado – Pep...pediram que eu viesse buscá-lo!

– Aguarde um instante, vou me vestir.

Enquanto vestia rapidamente sua batina negra, Jean-Baptiste ponderou que o noviço talvez estivesse desconfortável em acordar um superior no meio da noite. Melhor assim: seu segredo estava protegido. O Inquisidor é um instrumento da vontade de Deus, e as pessoas poderiam interpretar os seus pesadelos e gritos noturnos como um sinal de que Ele o abandonou. Seria o seu fim.

O padre deixou o seu quarto e, juntamente com o noviço, seguiu em direção à entrada da masmorra. Enquanto atravessavam o pátio, o rapaz lhe fez um breve relatório da situação. Em uma pequena aldeia chamada Berriac, nas imediações de Carcassonne, homens que iam caçar na floresta começaram a sumir sem deixar pistas. Quando o número chegou a vinte e cinco, as mulheres da aldeia se armaram de facões e machados e organizaram uma expedição para tentar descobrir o que estava acontecendo. Em um ponto de difícil acesso, onde um córrego caudaloso cortava a floresta, encontraram uma cabana em péssimas condições. Dentro dela, encontraram uma mulher cozinhando um coelho com ervas. O seu aspecto e as condições do lugar não deixaram dúvidas às mulheres de que tinham encontrado a responsável pelo desaparecimento dos seus homens. Ela foi amarrada e trazida até aqui. Algumas mulheres seguiram o córrego à procura dos corpos, mas nada foi encontrado.

Na ante-sala da masmorra, a confusão era generalizada. As mulheres enlouquecidas gritavam pela execução da bruxa na fogueira. Os carcereiros e auxiliares, bem como outros dois padres, tentavam contê-las e conduzí-las para fora dali, mas também discutiam entre si sobre as providências a serem tomadas. A cabeça de Jean-Baptiste ainda latejava por causa do pesadelo e do perfume que usara para tentar esquecer aquele cheiro de carne queimada. Com um longo suspiro, começou a cumprir o seu papel.

– Basta! – ordenou com uma voz límpida e potente.

As mulheres se calaram, assustadas. Antes que elas voltassem a protestar, ele continuou.

– Já fui informado da situação e tenho muito trabalho a fazer! Levem as mulheres para o pátio e dêem-lhes água e comida. Saiam todos!

Discretamente, fez um sinal para que dois dos carrascos montassem guarda na porta pelo lado de fora. Não queria de forma alguma que as mulheres tentassem entrar ali de novo, tudo devia ser feito na mais perfeita calma. E então ele desceu as escadas que levavam à masmorra.

...

Oculto nas sombras da masmorra, Padre Jean-Baptiste observava silenciosamente a criatura na cela. Ela estava encolhida sobre a palha amontoada em um dos cantos, cabeça baixa, abraçando os joelhos. Suas roupas haviam sido completamente removidas, como manda o protocolo, e ela batia os dentes e soluçava baixinho por causa do frio desumano, balançando ritmicamente o seu corpo pra frente e para trás. Sua pele muito branca se destacava contra o cinza sujo daquele lugar e seus longos cabelos cor de fogo, caídos sobre os ombros, escondiam completamente o seu rosto. Não haviam marcas aparentes em seu corpo: graças a Deus, ela ainda não havia sido tocada.

O religioso deixou-se ficar um longo tempo ali, de olhos semicerrados, repassando mentalmente as informações que havia recebido. As florestas haviam se tornado lugares muito perigosos depois que os hereges foram expulsos de Carcassonne. A lembrança do massacre de Béziers deixara os fora-da-lei ariscos, com pavor de serem capturados e, conseqüentemente, muito mais violentos. Havia muitos relatos de desaparecimentos nas florestas do Languedoc, a mulher poderia não ter nada a ver com isso. Mas, pelo mesmo motivo, não conseguia entender como ela havia conseguido sobreviver sozinha na floresta. De qualquer modo, iria obter a verdade. Foi para isso que os monges dominicanos o treinaram secretamente há muito tempo atrás, antes mesmo da Inquisição existir oficialmente. Ele tirou do pescoço uma corrente de prata da qual pendia uma única chave prateada, a chave-mestra das celas, destrancou a porta e entrou, fechando-a atrás de si.

Assustada com o barulho repentino, a mulher ergueu a cabeça, e encarou o padre com seus grandes olhos azuis. Eles brilhavam intensamente sob a luz bruxuleante das tochas do corredor. Jean-Baptiste conseguia ver o sofrimento neles, como uma mistura de agonia e impotência causada pelo frio. Colocando sua vigorosa mão sob aquele delicado queixo feminino, forçou-a a ficar de pé. Foi então que compreendeu, de uma vez só, porque o noviço estava tão alterado e porque as mulheres a tomaram por uma bruxa. A linda moça, alta e esguia, era muito jovem e tinha o corpo mais bonito que já vira na vida. Do seu lado esquerdo, a região entre o ventre e o dorso estava coberta de lindos desenhos tatuados em negro, semelhantes à runas, que se estendiam da linha da cintura até chegar na axila. O jeito gracioso com que os desenhos terminavam embaixo do seio e nas costas demonstravam cuidado e planejamento. Não eram símbolos mágicos conhecidos, nem marcações rituais. Nunca vira nada parecido nos seus vinte anos de guerra ao oculto e isso o intrigava profundamente.

Ao perceber que o padre olhava espantado para os desenhos em seu corpo, a mulher começou a se debater. Com uma manobra precisa, Jean-Baptiste girou-a de costas travando-lhe ambos os braços atrás do corpo e, jogando seu peso sobre ela, prensou-a de encontro à parede de pedra fria. Ele podia sentir o corpo inteiro dela bater contra o seu, gelado e nervoso. Seu cheiro tinha algo de doce, ainda que selvagem, e lhe trouxe uma sensação que acreditava ter sido apagada a muito tempo: desejo. Não era difícil imaginar o que aconteceria se os caçadores da aldeia realmente a tivessem encontrado sozinha em sua cabana na floresta. Sussurrou diretamente em seu ouvido:

– Pare, ou terei que acorrentá-la!

Indefesa, ela lentamente foi se acalmando. Sua respiração entrecortada desacelerou enquanto o padre lutava para pensar com clareza.

– Fique quieta. Vou soltá-la. – ele pediu.

Afastando-se um passo, percorreu com os dedos as linhas, de alto a baixo, tentando descobrir como haviam sido feitas. Perguntou-lhe:

– O que significam esses desenhos?

Ela começou a chorar baixinho, com medo de fazer barulho. Foi então que ele viu, no seu tornozelo esquerdo, uma marca arroxeada inconfundível, sinal de que alguém a mantivera presa. Daria um belo brinquedo particular para um sádico, pensou consigo mesmo.

– Quem fez isso com você? – também não obteve resposta.

Podia vê-la tremer em desespero. Virou-a e puxou-a para junto de si. Ela parecia engasgada, como se fosse falar alguma coisa.

– Pode confiar em mim. – ele disse, embora soubesse que essa história dificilmente ia acabar bem pra ela.

Ela soltou um gorgolejar meio sinistro e caiu em prantos, sua cabeça contra o peito do religioso. Não conseguia falar. Ela era muda.

Ao compreender isso, Jean-Baptiste sentiu-se subitamente cansado. Poderia até torturá-la, mas não conseguiria nada. Nem respostas, nem uma confissão. Como também não haviam provas concretas de bruxaria, teria que submetê-la à Ordália da Água: ela seria lançada em um lago profundo com uma pesada pedra presa ao seu tornozelo, para que a água fizesse seu julgamento. Se ela fosse inocente, afundaria e se afogaria, caso contrário, flutuaria e seria resgatada apenas para ser queimada na fogueira. Em ambos os casos, isso significaria que o mistério dos desenhos permaneceria sem respostas para sempre. Uma sombra passou pelo seu rosto ao lembrar que em todas as mais de quarenta Ordálias que presidiu, todos os réus se afogaram. Apenas uma vez vira um acusado se erguer da água, mas aquilo fora um erro: antes de ser lançado na lago, todos já haviam percebido que ele não era mais humano. E o que se sucedeu foi uma tragédia que deu muito trabalhou para ser oculta.

Segurou o rosto da garota com as duas mãos, obrigando-a a enfrentar os seus olhos investigadores. Não encontrou maldade naquele azul cristalino, apenas medo. Sentiu novamente aquele misto de curiosidade e desejo assomando contra seu estômago e então tomou uma decisão sombria.

Abrindo a porta da cela, empurrou a ruiva para fora, em direção aos aparelhos de tortura. Situações extremas exigem medidas extremas, era o que seu antigo mestre lhe dizia. Conduziu-a com braço firme por entre os aparelhos até chegar numa Donzela de Ferro enferrujada, instalada contra a parede do fundo da sala. Na altura do umbigo havia um delicado buraco de fechadura. Jean-Baptiste inseriu ali a chave-mestra e a girou. Puxou então a porta, que se abriu sem esforço. O interior era muito escuro, não havia nem sinal dos temidos pregos ali. Sem dizer sequer uma palavra, enfiou a mulher ali dentro e, sem se importar com o terror estampado nos olhos dela, acionou um pequeno mecanismo interno. A porta fechou-se sobre eles com um estrondo, e a escuridão que os espreitava pareceu rodopiar.

...

O religioso empurrou a porta do aparelho novamente, e ele se abriu para a escuridão. Apoiando o braço esquerdo contra a parede para se guiar, puxou a mulher para junto de si. Assim que saíram, a porta bateu com um estrondo atrás deles, trancando-se novamente. Não estavam mais na masmorra. Estavam em um longo corredor escuro que conduzia para fora da fortaleza, um pequeno artifício que possibilitava introduzir secretamente na masmorra determinados prisioneiros.

Jean-Baptiste arrastou-a às cegas ao longo do túnel, que terminava em uma caverna na entrada da floresta. Logo mais dariam pela falta deles, e as buscas começariam. Continuaram avançando floresta adentro, e só pararam pouco antes do amanhecer, quando já estavam bem longe.

Ele havia lhe dado a sua batina para que ela pudesse se proteger minimamente do frio, e tremia recostado a um tronco de árvore. Ela aninhou-se ao lado dele, abraçando-o, e dormiu. Reconfortado pela sensação quente do corpo dela sobre o seu, ele logo adormeceu também.

...

Acordou sobressaltado, com o sol da manhã em seu rosto. Ao abrir os olhos, encontrou um par de olhos azuis que o admiravam. Os cabelos dela ardiam sob a luz da manhã, e ele descobriu que ela era ainda mais bonita longe da escuridão da masmorra. Antes que pudesse compreender o que estava acontecendo, ela beijou-lhe os lábios com doçura e ele foi tomado pelo desejo. Dessa vez, sem chance alguma de controle. Ela se ergueu sobre ele, tirou a batina e o abraçou. E eles rolaram pela relva, entregues um ou outro.

Jean-Baptiste acariciava a pele tatuada dela em veneração, como se tomasse conta de um grande tesouro. Sentiu seu corpo todo entorpecer em êxtase, e ele desejou que esse momento durasse para sempre. Não conseguia mais se mexer, mais isso não importava, estava totalmente enfeitiçado. Ela segurou o seu rosto com as duas mãos e o encarou, sua própria expressão distorcida de prazer, e ele sentiu como se ela o envolvesse completamente. De alguma forma, ele estava dentro dela até a metade, desaparecendo pouco a pouco, mas não havia outro lugar em que quisesse estar.

...

Ela estava deitada na relva nua e sozinha. Seu corpo ainda estremecia de prazer. Ficou um longo tempo ali, contemplando o céu enquanto sentia a energia roubada do padre espalhar-se pelo seu corpo, renovando suas forças. Estava livre novamente. Então ela partiu, desaparecendo no interior da floresta. Encontrar novas vítimas seria apenas questão de tempo.

quarta-feira, julho 01, 2009

hai kai da beleza do choro contido

toda vez que vejo olhos de pedra marejarem
meu coração se aperta
quisera eu ter o poder
de marejar olhos assim

segunda-feira, junho 15, 2009

Aposta


“Ouvir vozes que ninguém mais consegue escutar
não é um bom sinal, mesmo no mundo da magia.”

J. K. Rowling

– Vou aumentar a aposta! – disse o homenzinho amarelado que estava no canto escuro, empurrando todas as suas fichas para o centro da mesa.

Gabriel achou graça no modo como o sujeito tentava esconder o nervosismo, girando com seus dedos alongados o grande anel de aço que usava no indicador da mão esquerda. Visto através da garrafa de whisky vazia, aquele rosto quadrado parecia ainda mais inumano.

“Está blefando”, murmurou para si enquanto os outros jogadores, um a um, desistiam da rodada. Via tudo em câmera lenta por causa da bebida. Passar da conta fora uma constante para ele nos últimos meses. Não lembrava direito como foi parar naquela mesa de jogo clandestina nos fundos do bar, nem de onde surgiram seus parceiros de jogo. Olhou para as cartas em sua mão e resolveu partir para o ataque. Perdera muito dinheiro essa noite. Precisava recuperar. Foi quando percebeu que ficara sem fichas. Frustrado, deu um soco na mesa, resmungando entre dentes:

– Eu apostaria a minha alma agora!

Fez-se um silêncio profundo na mesa. Gabriel ergueu os olhos e viu que todos olhavam pra ele com um profundo respeito.

– Aposta aceita! Mostre suas cartas! – disse o homenzinho, solene, erguendo suas grossas sobrancelhas.

– Era só modo de falar.... – Gabriel empalideceu. Seu mundo começou a girar acelerado, o ar escapando rapidamente dos seus pulmões.

Os outros jogadores protestaram. A aposta fora feita às claras e aceita. Eram testemunhas. Voltar atrás não seria uma atitude louvável.

Com o coração aos pulos, Gabriel teve vontade de sair correndo dali e sumir. Mas um pensamento maldoso logo veio à sua cabeça e o fez ficar onde estava. “Ele está blefando, eu não vou perder! Além do mais, fugir agora significaria perder tudo do mesmo jeito”. Acalmando-se, começou até a achar graça na solenidade dos outros jogadores. Então, confiante, abriu o seu jogo na mesa.

Dois ases, três damas: tinha um full house. Uma boa mão.

Sem mover um músculo do rosto, o homenzinho espalhou suas cartas sobre o tecido verde: 4, 5, 6, 7 e 8, todas de espadas. Straight flush.

Gabriel perdera! Sua vista escureceu, e ele teve a impressão de que todos os jogadores tinham rostos tortuosos, com estranhos olhos amarelos que o observavam desmaiar com a cara na mesa. O mundo desfez-se em preto.

...

Gabriel acordou assustado, com um suor gelado cobrindo seu corpo. Estava em seu próprio quarto, sem roupas. A cabeça doía a ponto de explodir.

– Bebe, desgraçado! – disse para si mesmo. – Nossa, que pesadelo, hein?

Levantou, ainda zonzo, e cambaleou em direção ao banheiro para lavar o rosto. Foi quando percebeu que em seu indicador direito havia um grande anel de aço liso. Seu coração disparou. Tentou tirar o anel do dedo. Não conseguiu. Encheu o dedo de sabão. Nada. O anel girou livremente no seu dedo, mas não soltou de jeito nenhum. Depois de passar quase uma hora tentando livrar-se do anel, desistiu. Vestiu-se e decidiu sair. Tentaria voltar ao bar da noite anterior.

Não conseguiu encontrá-lo. Poderia ser qualquer um, já que muitas vezes ia a mais de um por noite. Imerso no torpor semi-consciente da bebida, era muito difícil distinguir um do outro. Refez a parte do percurso que lembrava, mas nenhum bar da região tinha mesa de jogo nos fundos.

Desanimado, voltou pra casa. Ao entrar, tropeçou em pacote que havia sido enfiado por baixo da porta. Rasgou o embrulho. Era um caderno em branco, com capa de couro marrom. Não havia nenhum tipo de pista que pudesse dizer de onde aquilo viera, nem o que significava. Resolveu pensar nisso depois. Jogou o caderno na gaveta da escrivaninha e se atirou na cama. Suas pernas doíam por causa da peregrinação e a cabeça ainda latejava seu final de ressaca. Deixou-se levar pelo sono noite adentro, pois não ia ter forças para uma nova bebedeira.

...

Despertou quando o relógio bateu marcando meia-noite. Engoliu em seco ao lembrar que não havia relógios na casa. Imóvel na cama, tentou descobrir de onde vinha o som. Podia ouvir ao fundo os barulhos habituais da noite lá fora – o uivo triste dos cachorros da vizinhança, os passos apressados de um ou outro pedestre – mas as badaladas enchiam a casa, como se viessem das próprias paredes. Assim que o relógio parou, ele ouviu um murmúrio solitário ao longe, uma voz rouca de mulher. Tentou compreender o que ela dizia, mas não conseguiu. O murmúrio ficou um pouco mais intenso, e ele pôde distinguir que na verdade eram duas vozes. O mais estranho é que elas não pareciam conversar. Pela entonação, parecia mais que cada uma falava para si.

Uma brisa gelada fez Gabriel estremecer na cama. Sua respiração condensava em vapor ao sair de sua boca. De onde diabos vinha aquele frio, se a casa estava toda fechada?

As vozes se aproximaram mais, e agora pareciam ser três. Gabriel correu até a janela e a abriu, na esperança de encontrar na rua a origem das vozes. As calçadas estavam vazias. Às suas costas, as vozes continuavam. Identificou algumas palavras soltas no meio da confusão, embora sem sentido algum. Eram quatro vozes, ele tinha certeza agora, cada uma com timbre e entonação próprios. Vasculhou a casa: não havia mais ninguém ali, mas as vozes estavam cada vez mais intensas. No início pensou que recitassem algum tipo de oração, mas à medida em que elas ficaram mais nítidas, começou a entender: eram histórias. Lendas soturnas, sombrias, há muito tempo esquecidas. Falavam sobre deuses perdidos, amores proibidos, cidades arrasadas, buscas eternas. Todas contadas ao mesmo tempo. E elas não paravam de chegar, já passavam de uma dezena. Atordoado pelo falatório dissonante, Gabriel tampou os ouvidos. Não adiantou: as vozes vinham de dentro da sua cabeça, brigando entre si por sua atenção. Apavorado, correu pelo quarto batendo a cabeça contra a parede, em uma tentativa desesperada de livrar-se daquele turbilhão crescente de histórias alheias. Podia senti-las à sua volta, pares de olhos amarelos à espreita.

Ele compreendeu, então, que só havia uma coisa a fazer. Correu até a escrivaninha e vasculhou até tocar o couro macio da capa do caderno. Colocou-o aberto sobre a mesa, pegou uma caneta e, tentando focar ao máximo em uma das vozes, começou a escrever. Preenchendo as páginas em um ritmo frenético, foi silenciando uma história por vez. O anel ardia em sua mão, fazendo com que ele fizesse pequenas pausas para girá-lo no dedo, afim de aliviar a sensação. Já era praticamente dia quando a última história se foi.

E foi assim que as histórias passaram a visitá-lo pelo menos três vezes por semana, arrancando-o do seu sono para que ele as transcrevesse. Ao longo dos anos, Gabriel foi ficando cada vez mais cansado. Seu rosto, agora encovado, ostenta um olhar nervoso, inquieto. Cinco décadas depois, ele apenas espera por elas. E nas noites em que elas não aparecem, ele sai à procura de alguém que possa substituí-lo.

domingo, junho 07, 2009

Reencontro

"Blank face in the windowpane
Made clear in seconds of light
Disappears and returns again
Counting hours, Searching the night"

Opeth ‘Windowpane’

O apartamento já está quase vazio. Sobraram apenas o pequeno sofá e algumas fotografias emolduradas na parede. Esse excesso de espaço me deixa ainda mais ansioso, mas tudo que eu posso fazer agora é esperar.

Pela janela observo as crianças da vizinhança brincando no parque próximo, até que, com chegada da noite, elas retornam às suas casas como se estivessem sendo puxadas por linhas invisíveis, deixando a rua deserta.

Silêncio.

Subitamente eu tomo consciência do espaço ao meu redor. O apartamento inteiro parece estar vivo, consigo sentir sua respiração sob meus pés. Como um eco da minha percepção, a brisa noturna entra pela janela e arrepia até o último pêlo do meu corpo. Sinto na pele o farfalhar das folhas das árvores no parque, as batidas do coração de uma ave noturna, o orvalho se condensando nas janelas das construções vizinhas. Fecho os olhos e sinto o mundo convergir pra dentro de mim com violência, minha percepção se estende vertiginosamente por quilômetros como se as fronteiras físicas se desfizessem com a brisa gelada. De repente, bem próximo a mim, uma certeza.

Abro os olhos e viro para o interior da sala. Ela está lá, parada, a cabeça encostada no batente da porta. Morena, alta, pele muito branca. Olhando pra mim muito curiosa, com seus olhos negros profundos e serenos. Um olhar que eu conhecia bem.

– Você me encontrou!

– Você foi sutil como um terremoto.

– Ainda assim não tinha certeza que funcionaria.

– Aqui estou!

Ela se aproxima e me abraça, encostando a cabeça no meu peito. Um toque frio que me deixa completamente à vontade, me transportando no tempo e no espaço.

Vinte anos atrás, uma criança completamente assustada num hospital. Tubos, rostos preocupados e dor, muita dor. Os remédios que me deram fizeram meus cabelos cair, a boca tinha sempre um gosto amargo. Vinte semanas de paredes brancas e comida sem gosto, que quase nunca parava no meu estômago. Minha cabeça doía a ponto de explodir, minha vista turvava e, se eu estivesse em um dia de sorte, desmaiava de dor. Sempre que eu acordava dessas crises, uma garotinha da minha idade estava ao meu lado, me olhando com um par de olhos negros ansiosos, a mão sobre o meu rosto. Ela ficava conversando e brincando comigo até alguém entrar no quarto, quando ela dava um jeito de sumir.

Seus dedos percorrem suavemente meu rosto.

– A vida foi generosa com você.

– Eu nunca achei que eu fosse capaz de sobreviver àquilo.

– Nem eu!

O fato é que melhorei. Os médicos resolveram tentar mexer na minha cabeça pra ver se davam um fim naquilo. Ainda lembro de ter acordado assustado depois da cirurgia, ligado em um monte de aparelhos. Ela segurava minha mão firmemente. Olhou fundo nos meus olhos, me acalmou e me acariciou até o sono me levar novamente. Nunca mais a vi.

– Eu nunca consegui te esquecer!

– Eu nunca me afastei completamente...

– Então todos aqueles sonhos.... era você?

– Sim...

O seu abraço fica mais apertado, meu coração dispara, os profundos cortes em meus pulsos doem. Embora o sangue já comece a faltar em minhas veias, eu não poderia me sentir mais vivo. No meu íntimo apenas desejo que esse momento dure para sempre.

Mas a brisa voltou a entrar pela janela, enchendo a sala com a vida lá fora. Sinto um carro negro parar em frente ao prédio. Quatro homens descendo apressados. É ridículo como eles tentam não fazer barulho. Um deles está forçando a porta. Descobriram o que eu havia feito, afinal.

– Eu preciso ir – ela diz, enterrando ainda mais a cabeça no meu peito.

– Então isso é um adeus?

– Não! – ela disse olhando bem dentro dos meus olhos – Dessa vez, você vem comigo.

Então ela me beija, e o toque dos seus lábios pára o tempo, como se todo o sentido da vida estivesse aqui, nesse instante. Deixo minha alma seguir o seu destino enquanto ela saboreia cada sensação vivida, cada lembrança, cada segredo em mim. Eu sou completamente dela agora.

As batidas na porta não encontram resposta.

Dentro do apartamento, não vão encontrar nada. Apenas manchas de sangue no carpete.

terça-feira, junho 02, 2009

Sala de Embarque

“Cause it costs to be alive, my friend
And this life that someone merely gave to you
That's the price you pay
Minute by minute
You beg for a minute more
Kamelot “The Human Stain”

Aeroporto Internacional do Galeão, Rio de Janeiro. A sala de embarque estava lotada. Segurei mais forte a mão da minha filha que, do alto dos seus quatro anos, deve ter pensado o mesmo que eu: ela me encarou com seus olhinhos castanhos intensos e, com um longo suspiro, abraçou firmemente junto ao seu corpo miúdo a revista de colorir que havia acabado de ganhar. E lá fomos nós na difícil missão de encontrar, no meio daquele mar de gente, algum lugar pra sentar e aguardar os 30 minutos que nos separavam de nosso vôo para Miami.

Atravessamos o espaço com dificuldade, sem o menor sinal de cadeiras disponíveis. Já estava pensando em alternativas pra entreter a pequena se tivéssemos que esperar em pé, quando um casal começou a brigar. Uma moça bonita e muito arrumada, transtornada porque o seu vôo estava atrasado, insistia para que o seu marido, um sujeito atarracado de cara fechada, fosse atrás de informações. Eu conhecia bem o final dessa história pois tenho minha própria esposa geniosa me aguardando em casa. Não ia demorar. Dito e feito: o homem levantou de rompante, bufando, e saiu em direção ao balcão de informações. Sua esposa, assustada e envergonhada com os olhares que se dirigiam pra ela, saiu atrás dele. E nós corremos para ocupar suas cadeiras.

Confortavelmente instalados, entreguei àquelas mãozinhas ansiosas que agarravam o meu casaco o que elas queriam: seus lápis coloridos. Observei a alegria estampada naquele rostinho claro quando ela abriu o seu livro e começou a pintar, e então puxei do bolso meu BlackBerry para tentar adiantar algum assunto que pudesse aliviar a tortura do dia seguinte: uma segunda-feira cheia de compromissos após uma longa viagem noturna. No auto-falante, uma voz feminina disse que o embarque para o vôo 447 da Air France, com destino a Paris, estava liberado.

Nem bem tinha começado a responder as mensagens, minha filha subiu em sua cadeira e ficou em pé, apoiando seu peso no meu ombro esquerdo. Virei para chamar-lhe a atenção e encontrei o seu rostinho vidrado olhando por cima de mim. Sua expressão era de um êxtase meio incrédulo, mas o que deixou minhas pernas moles foram seus olhos: muito mais claros do que o normal, eles cintilavam em lampejos de amarelo e laranja, como se o sol incidisse diretamente sobre eles. Anjos, Papai! Olhando hipnotizado para os seus olhos, não consegui reagir ao que ela tinha dito. Olha! Quantos! Vendo que eu ainda não reagia, ela teve uma daquelas reações que a faziam tão parecida com sua mãe: ela colocou as pequeninas mãos sobre o meu rosto e o virou com firmeza para o lado oposto, para que eu visse. E a cena que eu vi foi a mais incrível de toda a minha vida. Uma fila enorme de anjos banhados em uma aura dourada, que os fazia tremeluzir de dentro pra fora e não deixava a vista se firmar por completo. Deviam ser uns duzentos. Tinham halos de luz sobre a cabeça e asas muito brancas, mas era possível distinguir, ainda que transfigurados, seus trajes humanos: executivos, turistas, estudantes, idosos, mães com seus filhos. Uns conversavam alegremente, outros falavam de problemas de trabalho, muitos brincavam em grupo enquanto outros apenas observavam a movimentação. Pouco a pouco, a fila foi saindo pelo portão em direção ao avião.

Permaneci incapaz de me mexer durante quase dez minutos, evitando até mesmo respirar até que o último anjo desaparecesse dentro do túnel. Senti apenas os braços de minha filha ao redor do meu pescoço e meus dedos deslizando involuntariamente sobre o teclado do telefone.

Quando eles se foram, foi como se eu acordasse de um sonho. As cores voltaram ao normal à medida que meus olhos foram se acostumando com as luzes artificiais do ambiente. Ninguém mais na sala dava sinais de ter visto o que nós havíamos visto. Todos pareciam completamente imersos em seus mundinhos particulares: revistas, livros, jornais, TV. Foi aí que eu tomei coragem e baixei os olhos para o telefone. Na tela, apenas cinco letras: A-D-I-E-U.

E o avião subiu, desaparecendo no céu.

domingo, maio 31, 2009

Imperfeitos


"Love, love is the only truth
Pure as the well of youth
Until it breaks your heart"
Kamelot “Nothing Ever Dies”

Houve uma vez um anjo de nome Sunahiel, que se revoltou contra a imperfeição do ser humano. Para ele, os homens haviam se desviado tanto da imagem de Deus, que não mereciam mais serem considerados a Plenitude da Criação. Questionando os desígnios de seu criador, ele então recusou-se a servir à humanidade.

Como anjos não precisam de fé, pois conhecem todos os mistérios celestes, a eles não é concedido o benefício da dúvida. Por isso, a punição para rebeldia ou desobediência é severa: Sunahiel foi condenado ao exílio na Terra.

Tão logo a sentença foi proferida, ele foi entregue ao querubim Uriel, “A Justiça de Deus”, que o aguardava com sua espada flamejante. Enquanto dois anjos o seguravam, suas asas foram arrancadas, deixando duas enormes cicatrizes. Seus gritos estremeceram todos os anjos que presenciavam a cena.

O seu espírito elevado, concebido para ser livre, foi então aprisionado em um corpo humano, mortal e muito mais limitado. E ele foi lançado na Terra, para viver entre os que havia negado.

A dor da mutilação e o trauma da encarnação, inconcebíveis para nós, varreram da sua alma as lembranças do Paraíso. Ao despertar na Terra, confuso e sem memória, não poderia jamais imaginar que não estivera ali desde o princípio. Mas seu espírito inquieto sentiria pra sempre que, incompleto, nunca mais encontraria a paz.

Mas nem tudo foi perdido. Como parte de seu castigo, Sunahiel conservou o dom de ver além da aparência humana. Podia ver as pessoas como realmente eram e enxergar claramente o que elas tinham potencial para ser.

Atraídas pelos resquícios de sua luz divina, muitas pessoas cruzaram o seu caminho. Enxergando nelas o que ninguém via, mais de uma vez ele se apaixonou profundamente, e o seu amor tinha o poder de trazer à tona o que estava escondido. Mas Deus, em sua sentença, o privou de ser verdadeiramente amado. Ele estava eternamente condenado a ver cada pessoa que amou, agora intensamente transformada, partir e entregar-se a outra pessoa.

Alheio a esses fatos, Sunahiel continua a vagar entre nós, os Imperfeitos, em busca de um novo amor que, ele acredita, dessa vez será para sempre.

quarta-feira, maio 20, 2009

O Legado

"Now that you are gone casting shadows from the past /You and all the memories will last"
Kamelot – "Don't you cry"

Com um movimento leve e doce, Cláudia abriu a porta. As forças lhe faltaram e, por um momento, ela teve que se apoiar no batente para não cair. A casa estava vazia demais sem ele.

Se alguém visse aquela figura frágil caminhando pelo corredor levando nas mãos uma caixa de papelão, tomaria-a por uma assombração, sofregamente dirigindo-se para a ala norte da construção. As lembranças estavam por toda parte: nos quadros na parede, na poltrona em frente à lareira e até mesmo no doce aroma de tabaco que já se dissipava no ar.

Trêmula, estancou em frente a uma porta trancada, no final do corredor. Hesitou. Sabia que o que viera buscar estava do outro lado, mas também sabia que não suportaria entrar no estúdio outra vez. Pensou por um momento, respirou fundo e, por fim, girou a maçaneta.

Ali estavam elas. Todas as fotos de Sérgio, cobrindo painéis, paredes, móveis. Para ele, paixão, hobby, compulsão. Para ela, seu último legado, tudo o que ele lhe deixou. Não podia deixá-las ali.

Cláudia aproximou-se lentamente do primeiro painel. Retirou o alfinete que prendia a primeira foto e colocou-a na caixa, sentindo seu coração despedaçar-se. Temia não conseguir terminar.

Colocando as fotos, uma por uma, na caixa, ela foi percebendo o porquê da sua beleza inquietante. Elas transpiravam vida, eram naturais. Sérgio nunca pedira para bater uma foto, tampouco que lhe fizessem pose, por isso elas continham sentimentos, expressões, alegrias, tristezas, decepções. “Uma foto é instante de uma vida inteira eternizado em um pedaço de papel.” – era o que ele dizia. E era o que se sentia ao contemplar sua obra.

Ele fotografara tudo: festas de família, passeios, viagens, visitas. Nunca fora muito impulsivo, mas vivera intensamente todos os momentos da sua vida, sempre com a sua câmera a tiracolo, registrando tudo. Quando lhe perguntaram porque ele fazia isso, ele respondeu apenas: “A vida é fugaz”. Mas que diabos! Por que ele tinha de estar certo? Por quê?

As lágrimas de Cláudia caíram sobre a caixa, juntando-se ao seu passado, às suas lembranças. Ela nunca se perdoou por tê-lo deixado ir sozinho para a casa da mãe naquela noite. Ela ainda se lembra do telefonema da polícia, do bombeiro entregando-lhe a câmera de Sérgio com a objetiva quebrada, que ela ainda guarda consigo. As fotos vão se somando na caixa. Tantos rostos, tantos lugares, não apenas uma, mas muitas vidas congeladas ali, em breves instantes. Pequenas partes de um todo muito maior.

“Vidas passam, lembranças se perdem, mas são os ideais que constróem o mundo. Estes não morrem jamais!

O estúdio vai ficando vazio, irreconhecível, triste. Ela sabe que não voltará mais lá, assim como sabe que sua vida nunca mais será a mesma.

Cláudia colocou a última foto na caixa e ergueu-a nas mãos. Não havia mais nada a fazer ali. Antes, porém, de fechar a porta atrás de si, ela colocou a caixa no chão, tirou da bolsa a câmera de Sérgio e bateu uma foto do estúdio vazio.

“Ideais não morrem”, pensou, trancando a porta.

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