segunda-feira, agosto 24, 2009

Prólogo




As sombras... a dor... como eu odeio quando isto acontece! Minha cabeça está a ponto de explodir. Tudo fica tão estranho: as cores...as pessoas...

Meu Deus! O que é isto?

– Não, papai, não me mach.....

...


– Ei! O senhor está bem, moço?
Abri os olhos, tentando responder a pergunta, mas dos meus lábios saíram apenas umas poucas palavras sem sentido. O mundo não passava de um borrão tentando ganhar uma forma tangível.

– Moço? Ah, que bom... o senhor está vivo!

Quis dizer que isso não representava grande coisa, porque minha vida tinha se tornado um inferno de uns tempos pra cá: Stella me deixou, fui chutado do emprego, e ainda por cima começaram essas malditas dores de cabeça... é, a situação não estava nada boa. Contive minha língua quando o borrão na minha frente se transformou numa menininha de uns seis anos com um olhar curioso. Não, a criança não tinha culpa do que estava acontecendo comigo.

– Moço?
– Oi! – disse ainda meio zonzo – O que aconteceu?
– O senhor vinha andando e, de repente, começou a ficar esquisito. Então caiu sentado aqui, não lembra?

Não, não me lembrava. Quando as dores começam, minha visão vai ficando distorcida e eu perco a noção do que estou fazendo.

Olhei ao redor: pessoas passando apressadamente. Olhei o relógio: meio dia e meia. Não era de se admirar que ninguém mais tivesse parado para ver o que havia acontecido. Hoje em dia, as pessoas estão entretidas demais com seus próprios problemas. Por que eu, um Zé-Ninguém no meio da multidão, mereceria atenção?

– Já estou melhor! – esforcei-me para dizer. Embora já sentisse a dor indo embora, sabia que ela voltaria de novo. Talvez à noite. Talvez antes. – Onde está sua mãe?

Ela apenas apontou displicentemente com o polegar por sobre o ombro. Olhei naquela direção e pude sentir o gosto amargo da ironia em minha garganta: eu havia caído junto à porta de uma farmácia!
– Levanta, moço! – disse a menina me puxando pelo braço.

No instante em que a menina me tocou, fui tomado por uma angústia incrível. Levantei-me, tentando esconder as lágrimas que escorriam da minha face.

– Por que o senhor está chorando?
– ... não sei.... – murmurei. E de fato não sabia. Apenas sentia medo.


....não, por favor, papai.... não me machuque...

Era um como um eco em minha mente. Na primeira vez, achei que fosse a dor de cabeça, mas agora era terrivelmente real.

Olhei para a menina e encontrei seus olhos intensamente verdes. Subitamente, eles saltaram para dentro de mim, como uma piscina translúcida, e eu vi. Aquele pequeno anjinho mostrava marcas permanentes de sofrimento, como manchas em um lençol inteiramente branco. Era como se as memórias fossem minhas, mas eu sabia que não eram.

Papai chegou em casa tarde. Ia correndo até ele, mas Mamãe me disse pra ficar quieta. Disse que Papai estava muito cansado e que eu tinha que ir deitar... eu só queria dar um abraço nele! Estava com saudades, mas obedeci Mamãe. Lá do meu quarto ouvi Papai gritar com ela, dizendo que ela não prestava pra nada... Não parecia Papai. Ele estava bravo com ela porque ela havia esquecido de comprar seus cigarros. Resolvi ir espiar. Desci as escadas e vi Mamãe chorando, com as mãos no rosto... ele havia batido nela. Fui em direção a ela, mas Papai me segurou... me disse pra ir deitar. Sua voz estava esquisita, e ele estava cheirando a cerveja. ......por favor, Papai, não me machuque....não ..... NÃO...!”

– Sam!!!

A criança desviou o olhar, assustada. Uma loura de uns trinta anos saiu da farmácia apressadamente e, literalmente, arrancou a criança da minha frente.

– Samantha, – ralhou a mulher, indignada, enquanto acenava para um táxi – quantas vezes já lhe disse para não falar com estranhos?
– Mas eu estava ajud.......
– Nada de “mas”! Vamos pra casa e hoje não vai ter TV depois da janta!

O carro encostou, eu precisava agir rápido. Segurei a mulher pelo braço. Ela voltou-se, confusa.

– Sua filha estava apenas me ajudando. – disse antes que ela pudesse gritar – Eu caí e ela me ajudou a levantar, foi só isso.

A mulher me fitou um instante através de seus óculos escuros. Eu sabia o que havia por detrás deles, embora ela se esforçasse para esconder.

– Isso é verdade, Sam? – perguntou, meio insegura.
– Sim, Mamãe.
– Tudo bem, então. Vamos embora, filha – decretou, abrindo a porta do táxi.
– Espere! – gritei, me aproximando dela – Por que a senhora não foi à polícia?

A mulher empalideceu. Sam não demonstrou ter ouvido o que eu falei. Estava entretida demais observando um papel de bala que flutuava ao sabor da brisa de outono.

– Não sei do que o senhor está falando – disse-me, sem graça.

Sem dizer mais nada, enfiou a menina no carro e entrou, batendo a porta.

– Nós sabemos que você sabe, não é, Sam? – pensei comigo mesmo enquanto observava o veículo se afastando.

5 comentários:

Tânia Tiburzio disse...

Que história legal!Parabéns!

Camila disse...

Situação embaraçosa... Seria esse novo dom uma dádiva? Um martírio? De que vale uma informação se não se sabe o que fazer com ela, ou se não há nada que se possa fazer... Até que ponto o uso que se faz dessa informação é uma forma de invasão, transgressão... Qual o limiar que separa o real do imaginário? Dúvidas e mais dúvidas que só serão sanadas quando se virar a última página deste, que promete ser um excelente livro. Ou as dúvidas se tornarão ainda mais latentes? [suspense]

Raquel Koch disse...

Putaqueospa!
Gosto muito da sua narrativa.
No meio da tensão toda você consegue dar ênfase á imagem de um papel de bala flutuando ao sabor da brisa de outono. E ainda assim não perdemos o "fio da meada".
Gosto de ler o que você escreve, procure dar continuidade, por favor, ou eu ficarei te enchendo de perguntas até você me contar o resto. Rsrsrrsrs

Lohan disse...

Olá Paulo! Primeira vez que venho comentar em seu blog. Grande blog, por sinal!
Este foi o primeiro post que li, mas pelo o que me parece, esta é continiuidade de uma história, não?
Seja como for, fiquei bastante intrigado, essa narrativa dá um livro! Um mistério a la Stephen King! Poderes da mente que podem interferir diretamente na vida das pessoas. Ou não, como bem disse a Camila.
A partir de hj serei fiel seguidor de seu blog! rs Abraços, e parabéns!

Manuel Pintor disse...

Uma narrativa que prende a atenção, a leitura compulsiva, até nos pormenores "poéticos" como o referido pela Raquel.
Depois... está bem construída essa dicotomia entre o grito silenciado por ajuda da Sam e o alheamento das pessoas em redor, "entretidas demais com os seus próprios problemas".
Veremos se pode ser construída uma ponte...

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