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terça-feira, julho 13, 2010

O rosto


“As pessoas veem apenas o que elas estão preparadas para ver.” 
Ralph Waldo Emerson 

Mariana apertou o passo quando ouviu o sinal soar. Seus pequenos pés deslizaram com agilidade sobre o piso de borracha preta, e ela projetou-se para dentro do vagão mais próximo apenas um segundo antes da porta automática se fechar. Equilibrou o corpo em um movimento gracioso, ainda apertando contra o peito a pasta de couro e o avental branco dobrado, como se fossem tesouros. Embora levasse uma grande bolsa sobre o ombro esquerdo, era com esse braço que se defendia dos solavancos do metrô que partia.

Quando a velocidade do trem estabilizou, ela ajeitou a franja ruiva comprida, revelando seu olhar concentrado em busca de um assento vago. Encontrou-o junto à uma das janelas do lado oposto. Acomodou-se e começou a observar as pessoas, todas com a mesma pressa irracional. Gente enlatada – pensou, admirando aquele mar de cabeças oscilantes – abusando do anonimato ilusório das multidões enquanto se esforçavam ao máximo para não enxergar o outro. E tratava de devolver-lhes a identidade, um a um, estudando seus pormenores, lendo nas entrelinhas dos gestos. O que não conseguia captar, inventava. Era uma espécie de jogo que fazia para suportar o tempo que passava ali. Linha Verde, Linha Azul, depois Linha Vermelha. [Seis dias por semana, três vezes por dia, Doutora]. Se fizesse as contas, perceberia que passava mais tempo no metrô do que em sua própria casa.

A composição mergulhou veloz em direção ao subterrâneo e ela voltou-se para a janela. Lá fora, na escuridão pulsante do túnel, as sombras dos pilares e equipamentos passavam tão depressa, que mal podia percebê-las. Era isso que a fascinava. O túnel funcionava como uma janela para dentro do seu eu. Era somente contra aquela tela escura que todas as peças de sua vida pareciam encaixar-se. Gostava tanto de brincar nesse plano subjetivo que, por vezes, se esquecia de onde estava e do que se passava ao redor. E o tempo se perdia com ela, hipnotizado pelas mudanças de cor daqueles olhos intensos.

Sempre que se apanhava assim, tão distraída, um calafrio violento a empurrava de volta à realidade. Uma lembrança sombria. Olhou em volta, nada anormal. O vagão prosseguia imerso em seu microcosmo: nunca igual, nem tão diferente assim. O oposto daquela tarde, dez anos atrás, na qual um intrigante rosto surgiu dentre suas ideias, encarando-a com seus profundos olhos negros. Jamais esqueceria aquele olhar urgente, face contraída. Na verdade, recordava-se daquele dia em cada detalhe.

Deduziu, pelo reflexo, que a dona daquele rosto tão sinistro estava parada junto à porta. Curiosa, voltou-se para observá-la. Não a encontrou. Através da porta que se fechava, vislumbrou expressões aterrorizadas na plataforma. O que estava acontecendo? O trem partiu, e ela percebeu que não havia mais ninguém no vagão além do homem sentado ao seu lado. Sufocou o impulso de sair correndo ao perceber o reflexo metálico que corria sobre o jeans de suas calças. Na mão trêmula, o sujeito tinha uma tesoura. Segurava-a com tanta força, que as juntas dos dedos estavam esbranquiçadas. Ela sentia o hálito podre soprado em seu pescoço, o odor azedo de dias sem banho. Não arriscou olhar direto para ele, pois tinha medo de que o contato visual rompesse o frágil equilíbrio da situação. Pelo canto do olho, descobriu que ele a estudava, abrindo e fechando a tesoura bem devagar. Quem sabe o que estivera pensando? Naquele hiato de gente entre as duas estações, o tempo parou. Os minutos desdobraram-se em horas de pânico e desespero. A próxima estação parecia não chegar nunca. Então ela fez a única coisa sensata a fazer. Fechou os olhos e começou a contar para si – um, dois, três, quatro –, para obrigar o tempo a passar. Onze, doze, treze – fizera isso tantas vezes quando criança – dezessete, dezoito, dezenove – uma pequena fuga que sempre enfurecia sua mãe – vinte-e-três, vinte-e-quatro, vinte-e-cinco. O trem parou. Chegara à estação? Esperava que sim. Ela abriu os olhos e o homem não estava mais lá. Corria alucinado pela plataforma, com vários seguranças em seu encalço. O vagão encheu novamente, e ela se deu conta de que ainda contava – trinta-e-oito, trinta-e-nove... 

Escapara por pouco, soube mais tarde. O homem era um maníaco procurado pela polícia e dera muito trabalho naquele dia, antes de ser capturado. Apesar de todo o perigo vivido, o que deixava o seu coração inquieto e, por vezes, roubava seu sono, ainda era o rosto feminino no túnel. Algo nele a atraía na mesma medida em que a apavorava. Quem seria? Odiava charadas sem resposta, por isso essa questão subia à superfície dos seus pensamentos com freqüência. A hipótese mais provável era que o seu subconsciente reconhecera a mulher de alguma de suas memórias passadas, provocando aquela estranha sensação.

Nesses últimos anos trabalhando no hospital, várias vezes pensou tê-la visto de relance. Como acontece com a maioria dos vultos que nos pegam pelo canto dos olhos, ao virar-se, nada encontrava. Acontecia sempre durante os dias mais tensos e, em meio à correria e à confusão das emergências, ela não conseguia parar para averiguar melhor. Acabara por atribuir essa sensação às descargas emocionais do trabalho. [Adrenalina, Doutora. Uma bomba química que deixa o seu corpo pronto para reagir em condições extremas. Às vezes faz enxergar de menos, às vezes, demais. Só isso.] Porém, nunca se convencera. Enquanto ponderava sobre o assunto, as peças de que dispunha foram surgindo em sua tela mágica. Tirando a tensão da jogada, haveria mais características comuns? Dessa vez, concentrou-se nos mais insignificantes detalhes: cheiros, gostos, sensações. O trem assobiou agudo nos trilhos, e o ruído ecoou, soprando-lhe a direção em que deveria olhar. Sons! Com a ansiedade a revirar-lhe o estômago, Mariana começou a relembrar os sons que cercavam o aparecimento daquela misteriosa figura: o arrastar de macas, gritos de médicos e enfermeiras, a melodia aguda e constante do monitor cardíaco e mais nada. [Parada cardíaca! Rápido, doutora, consiga ajuda!] Ela sabia muito bem o que vinha depois. A visão turva, afunilando-se sobre o paciente. O mundo afastando-se como se visto através da penumbra de um longo túnel. O rubor intenso em seu rosto. O sangue pulsando violento em sua garganta, lembrando a cada instante que o tempo passa, inexorável, sem que o coração do outro reaja. E o monitor a repetir, incessante, em sua nota única e cruel: morreu morreu morreu morreu morreu morreu morreu morreu morreu.

A descoberta fez com que suas pernas amolecessem, mas seu instinto profissional, mais do que depressa, chamou-a à razão. [E como você explica, Doutora – desse seu ponto de vista místico aí – a primeira vez em que esse rosto te assombrou?] Nesse mesmo instante, o aviso do fechamento da porta do metrô fez o coração disparar, trazendo-a de volta à realidade. [O tempo se esgota sempre, em algum lugar.] Pela primeira vez, percebeu-o como um arremedo do monitor cardíaco. Ergueu os olhos para a plataforma e lá estava ela, a mulher misteriosa, parada no meio da multidão. Sem pestanejar, Mariana arremessou-se para fora do vagão. Precisava resolver de vez aquela história, antes que ficasse maluca. A porta fechou-se, tentando impedi-la de sair. Mas ela foi mais rápida. Soltou-se com um puxão decidido, colocando-se em segurança do lado de fora. Frustrada, constatou que a mulher se fora. Um baque surdo atrás de si fez a multidão gritar. Ao virar-se, percebeu que o vagão estava vazio, exceto pelo homem de aparência insana com o rosto grudado na janela. Frenético, batia o punho ensanguentado contra o vidro tentando quebrá-lo. Na outra mão, trazia um grande caco de vidro pontudo.

Mariana arfou, sentindo o sangue gelar em suas veias enquanto o trem partia. Não pela percepção do que se livrara – essa só viria bem depois. Atrás do lunático, sentada no lugar em que ela mesma estivera, vira uma conhecida figura de mulher.

quinta-feira, junho 24, 2010

Capítulo IV – Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada...

Esta é a minha contribuição para o Desafio Literário do blog "Um Ponto e Outra Palavra" do Sandi Bart. Gostou? Então acompanhe a saga!

De repente, vi-me a repetir conhecidos gestos. Dobrar roupas, juntar livros e objetos, despir a casa dos sinais de minha presença. Fechei a mala com o estômago a dar cambalhotas de ansiedade, pois cortava o cordão umbilical e seguia ao encontro da liberdade que meu pai tanto celebrava. Pelo menos assim eu pensava, iludido pela sensação de imortalidade que só a adolescência consegue investir ao homem. Não olhei pra trás uma única vez, seguro que estava, mas era possível antever o olhar preocupado de minha mãe – que perdera o controle sobre um de seus trunfos – e o olhar orgulhoso daquele homem que me aceitara como filho e, agora, via-me seguir os seus passos.

São Paulo, de início, me intimidou – gigante cinza frenética que era, comparada à cidade em que eu crescera. Mas logo me dei conta de que, se minha inteligência e dedicação garantiriam-me o prestígio no mundo acadêmico, a gorda pensão paterna – aliada à malícia materna – me daria a chave da cidade. De cara, fui aceito em um círculo de alunos influentes, porém indolentes, e não se passou muito tempo até que eu os influenciasse mais do que eles à mim. Aprendi rápido o valor de um favor devido e, prestativo que era, nunca estive sozinho. Era convidado – por vezes, arrastado – para as festas perdulárias da elite, bem como para farras estudantis de toda espécie. Experimentei dos prazeres mais intensos da vida mas, endurecido pelo senso prático herdado de minha mãe, não me deixei perder. Pelo contrário. Arquitetava sempre novas maneiras de tirar o máximo proveito da situação, resguardado pela minha educação esmerada que impedia-me de ser visto como mau caráter.

Na faculdade, consegui manter-me – com certa facilidade – como primeiro da turma. De início o fazia por orgulho, depois, por necessidade. Eu não era nada feio, posto que herdei os traços angulosos de minha mãe. Poderia ter as mulheres que quisesse. E tive muitas. Mas não me interessavam tanto as moças libertinas da alta roda, fúteis e autoritárias. Tinha apreço mesmo era pelas garotas intelectuais e mais recatadas que me convidavam a participar de grupos de estudo. Amava a dificuldade em seduzí-las e a entrega com que elas finalmente cediam aos meus caprichos. Ademais, apreciava a facilidade em ignorá-las depois que me cansavam, pois estas eram as que mais temiam a má-fama. No segundo ano, principiei a dar aulas particulares para os calouros. E não foi pelo dinheiro. Perdi a conta de quantas inocências deflorei, não raras vezes em seus próprios quartos, com os pais a assitirem televisão despreocupados na sala de estar. Nunca enfrentei qualquer tipo de problema. Eu era jovem, livre e tinha um futuro promissor pela frente. Não poderia estar mais feliz.

Mas o destino, em uma sufocante tarde de abril, colocou à minha espera um voluptuoso par de olhos azuis. Uma caloura chamada Simone.

quarta-feira, março 31, 2010

Caçada



O caçador abriu a porta da cabana, apontando a espingarda para o vazio. O ar lá dentro estava pesado e ele sentiu seu estômago pulsar em um instintivo alerta de perigo iminente. A primeira saleta parecia vazia, mas nada estava no lugar. O chão estava coberto de potes e pratos quebrados. À sua esquerda, havia um armário despedaçado que parecia ser o epicentro da destruição. Pequenas marcas alongadas de sangue fresco no assoalho sugeriam que alguma coisa viva fora arrastada desde o móvel até a parede oposta. Uma peça de tapeçaria simplória, que estivera ali pendurada, amontoava-se displicente sobre um volume junto ao chão. O homem contornou a pequena mesa e ergueu a tapeçaria com a ponta da espingarda. O movimento suave liberou no ar um cheiro denso de vísceras e sangue, que penetrou fundo em suas narinas e encheu os seus pulmões. Fechou os olhos por um breve instante, tentando se controlar. Conseguiu, por fim, olhar e concluiu que aquilo era o que sobrara do frágil corpo de uma senhora idosa, despedaçado por uma força descomunal. Rezou para que a atrocidade tivesse parado ali. Mas havia algo úmido sendo rasgado no segundo cômodo. E aquele som familiar fez com que seu coração acelerasse ainda mais.

Deslocou-se em silêncio até a porta e se esgueirou pela abertura, bloqueada em parte por uma cesta de vime trançado, ainda cheia de comida. Fragmentos do que teria sido uma capa vermelha estavam espalhados pelo chão. Em cima da cama, um grande lobo castanho abocanhava pedaços do corpo nu de uma menina loura, e os mastigava com deleite. O caçador recuou, tentando recuperar o fôlego, mas não havia mais ar ali, apenas o odor pungente de sangue fresco. Um forte tremor desceu do crânio até a base da sua espinha, e ele teve que sufocar o rugido bárbaro que brotava em seu peito. O chão desapareceu sob seus pés e ele desabou, batendo de costas contra a parede. Sentia a pele arder como fogo, enquanto lutava para respirar.

O lobo ergueu o focinho sujo de sangue no ar, ganiu baixinho e começou a contorcer-se, como se estivesse lutando contra uma armadilha invisível. Grunhia a cada espasmo, enquanto seu corpo mudava. A pele clareou e os membros se alongaram, enquanto as articulações estalavam em ângulos impossíveis. A criatura ergueu-se sobre as patas traseiras e encarou o caçador. Tinha peito e ventre tingidos de vermelho brilhante, cabelos desgrenhados e sujos, mas agora não passava de um garoto de cerca de quinze anos, nu e assustado.

– Papai, eu não queria! – ele correu de encontro ao homem, soluçando, e enterrou a cabeça em seu ombro. – Mas eu estava com tanta fome... não consegui me controlar. Foi... tão rápido!

O  homem abraçou-o em silêncio.  Pensava na loucura incondicional que é o amor de um pai. Lembrou da primeira vez em que viu o menino. Ele era tão pequeno, tão dependente, um pequeno milagre que precisava de sua proteção e de seu carinho. O mundo ficou menor, porque passou a girar em torno dele. O garoto ainda soluçava, deixando o seu coração aos pedaços. Ambos tremiam muito, mas não por causa do frio. Era o cheiro da carne fresca. Dedos alongados puxaram o cano da espingarda de encontro à própria cabeça.

– Acaba com isso, pai. Eu não quero viver assim... por favor!

O caçador engoliu em seco. Sua cabeça latejava enquanto seus sentidos se expandiam. Em meio à torrente de pensamentos, viu-se consciente do toque frio do aço do gatilho sob seu indicador, da textura do tecido grosso da camisa sobre sua pele, do balanço suave do assoalho de madeira da cabana. O vento leste vinha das colinas e entrava pelas frestas da parede, trazendo o cheiro inconfundível do filho, misturado ao do orvalho sobre os pinheiros distantes. Trazia também mais um odor, que eriçou os seus pêlos e fez seus caninos trincarem: uma matilha de cães. Caçadores!

Os cães desceram a colina em uma corrida frenética, com os homens em seu encalço. Eram dez e todos levavam armas. Seguiam o rastro do lobo desde a cidade. O mais velho deles, ao avistar a cabana, teve um mau presságio e assoviou, chamando os cachorros de volta. Um tiro ressoou pelo vale, assustando os animais. O ar ficou paralisado em um silêncio denso e, por um instante, foi como se todos os corações parassem de bater, aguardando um sinal. Então, a urgência venceu o medo. Os homens engatilharam as armas e desceram, com os cães, a encosta lamacenta que levava ao casebre. Demoraram mais do que o esperado para vencer o pouco mais de um quilômetro de caminho, pois o solo mole fazia com que escorregassem e tropeçassem com freqüência. Ao atingirem a base do traiçoeiro declive, o cheiro da morte os alcançou, e vários homens amarraram seus lenços sobre nariz e boca, antes de prosseguir. Mantinham o dedo no gatilho e os olhos na porta. Um barulho na parte da frente da construção fez com que todos se abaixassem e firmassem a mira, preparando-se para enfrentar qualquer coisa que saísse dali.

Da escuridão, emergiu um caçador. Levava nos braços um enorme lobo cinzento sem vida, o maior que já haviam visto. O animal tinha a espessa pelagem coberta de manchas viscosas e a cabeça partida balançando disforme. Era muito pesado, mas ele não parecia importar-se. Carregava o seu fardo quase que com reverência. Apesar de ser alto, suas roupas eram largas demais e a espingarda pendia, desajeitada, em suas costas. Ele chorava. Seu rosto era dor, desespero e determinação. Soluçava, convulsivo, enquanto caminhava, atravessando a campina em direção ao bosque. Sequer se deu conta dos cães que latiam. Tampouco percebeu os dez homens atônitos, que apenas observaram enquanto ele desaparecia por entre as árvores. Em seu futuro nebuloso, um único propósito: viver, o melhor que pudesse, a vida que o seu pai lhe deu.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Carnaval: o outro lado da folia

I.
No meio da amoralidade, o coração negro do Pierrot batia forte. Eram tantas presas fáceis! Difícil escolher apenas uma.

II.
Sua mãe dizia que ela nascera para ser rainha. E a profecia se realizava, por um dia, a cada ano, ao longo da avenida.

III.
O fracassado lutador de sumô fugira do Japão em desonra. No Brasil, encontrou a felicidade: todo fevereiro, virava Rei!

IV.
Adorava o Carnaval. Nessa época, sempre conseguia uns três ou quatro rins a mais para vender no mercado negro.

V.
Quando o Pierrot levou a Colombina para a cama, descobriu que, na verdade, ela era o Arlequim.

VI.
Vinte facadas foi pouco para aquela atriz nojenta que roubara sua realeza. A avenida era toda sua, outra vez. Avante, bateria!

VII.
Morria de medo da Quarta-Feira de cinzas. Acordava com a realidade a beliscar suas pernas, apenas mais um na multidão.

VIII.
Acordou chorando. Tirou a tinta do corpo, vestiu o uniforme. E lá foi ela enfiar a rotina goela abaixo outra vez...

IX.
Mastigou sem pressa o último pedaço de carne. Delicioso! Fígado de foilão, agora, só no ano que vem...

terça-feira, janeiro 05, 2010

Microcontos II

I.
Preguei uma peça no meu coração involuntário: um prego enorme. Preso na tua porta, ele parou de doer.

II.
Limpou a navalha no lençol do motel e beijou de novo os cabelos dela: a cada vez, fica mais difícil encontrar loiras de verdade...

III.
Entediada com a folha do caderno, rabiscou as paredes do apartamento. Quando o espaço acabou, pulou da janela e virou infinito.

IV.
"Bebeu até morrer!", concluiu o perito na cena do crime. "Cachaça?", perguntou o detetive. "Não. Groselha! Era diabético.”

V.
Arrancou, em fuga, com o carro. Um salto, baque surdo. Desceu pra ver. Era o seu passado. Deu marcha ré por cima. E partiu.

VI.
Enfarte do miocárdio, é o que dirão – pensou enquanto tombava. Ninguém saberá que seu coração explodiu mesmo de tristeza.

VII.
"Anjo é uma alma humana cujo primeiro suspiro coincidiu com o último". Ele fechou o livro e sorriu: seu filho fora convocado no céu!

VIII.
Pegou um dos cacos de seu coração partido e degolou a infeliz. Ela deveria saber que amor de psicopata é mortal.

IX.
"Fui!". Era tudo que estava escrito no bilhete do suicida. Ele nunca fora um homem de muitas palavras...

X.
Desfez o aviãozinho de papel que, vindo do outro lado da sala de aula, o acertara em cheio na cabeça. Reconheceu como seu o desenho interno. Um coração. Embaixo de onde escrevera “Toma, é teu!”, ela escreveu em letras miúdas: “Estou devolvendo. Não quero mais!”.

XI.
"Adivinha quem é?", disse, cobrindo os olhos dela. A resposta veio rápida e segura. A dúvida, também: quem diabos é Murilo?

quinta-feira, outubro 29, 2009

Reflexões




"All that you see or seem, is but a dream within a dream"
Edgar Allan Poe


Preciso me livrar desse outro eu que há em mim, sufocado, engasgado. Que me olha meio de lado no espelho, ávido pra sair. Ele apenas espera por uma fração de segundo, um descuido ou distração, para assumir o controle, escurecendo-me os olhos para que possa usá-los, roubando-me o vigor das mãos. Fico prisioneiro em meu corpo, vagamente consciente da minha triste sina de arauto, perdido em meio a pensamentos que não são meus. Mil e uma vidas paralelas construídas de imagens, sons e mais uma força desconhecida que irrompe inquieta, ardente, e só se acalma ante o estrondoso cair do ponto final. Obtuso e imerso em uma sucessão de vazios...


Bruno encarava a linha interrompida, incapaz de continuar a escrever. Como em todas as outras vezes, o que o impedia não era a falta de idéias, mas a fragilidade do próprio texto. Tudo o que conseguia era registrar um arremedo falho e inconclusivo do que passava pela sua cabeça. A essa altura, não sabia mais dizer se o que pensava valia a pena. Largou a caneta.

Levantou-se e caminhou pelo minúsculo apartamento como se pudesse encontrar algum conforto nas paredes nuas e descascadas de umidade. Só conseguiu sentir-se pequeno e sozinho. Não tinha nada além dos poucos pertences que o seu emprego medíocre permitira comprar. Seu único luxo era um espelho de corpo inteiro pendurado em uma das paredes.

Sorriu para o homem opaco refletido nele. Não era nada feio. Na verdade, faltava habilidade para se relacionar com as mulheres. Também não tinha muitos amigos, era tímido demais para isso. As olheiras fundas se destacavam na palidez do seu rosto, fazendo com que parecesse ter trinta e oito anos ao invés de trinta e dois. Tentou imaginar uma vida nova para si, mas seu desânimo o traiu. Tudo parecia impossível demais. Fez uma careta para si mesmo, e observou com ironia a imagem perfeita refletida no espelho. De todos os aspectos da sua vida, esse parecia ser o único sobre o qual ainda tinha domínio. Não importava o que fizesse, seu clone especular deveria imitá-lo.

Divertiu-se por algum tempo obrigando o seu reflexo a fazer poses ridículas, pelo simples prazer de estar no comando. Mas por fim achou tudo aquilo muito triste e tomou uma decisão. Pegou sua navalha e colocou-a contra o pescoço. Mataria a si mesmo e ao seu reflexo miserável. Encostou a outra mão na superfície do espelho, tocando o seu outro eu em um gesto melancólico de despedida.

Os dedos do seu reflexo fecharam-se com violência por sobre os seus. Os olhares se encontraram e Bruno sentiu a realidade distorcer e rodopiar à sua volta, como se fosse possível piscar sem fechar os olhos. No momento seguinte, a mão que segurava a navalha afastou-se devagar, por vontade própria. Os dedos afrouxaram a pressão sobre o cabo, e a lâmina escapou para o chão. O entrelace desfez-se e os braços abaixaram-se em sincronia. Sentiu sua boca mexer, mas foi o Outro que falou. “Desculpe, tive que agir. Você estava denegrindo a MINHA imagem!”. Seus olhos agora brilhavam com energia.

O Outro ajeitou o cabelo e Bruno, impotente, viu-se imitando o gesto. “Não deve ser difícil me sair melhor do que você!”, disse em tom de provocação, dando uma piscadela marota antes de virar de costas para o espelho. Bruno não pôde sequer olhar enquanto seu outro eu saía para começar uma vida nova.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Coisas Simples

“Everytime the rain comes calling
I can't stop myself from falling
Into the darkness - into the madness”
Primal Fear – “Everytime it Rains”

Saltei por sobre a cerca branca baixa que delimitava o jardim dos fundos da casa com um movimento preciso, utilizando apenas uma das mãos como apoio. As poucas coisas que me trazem prazer são, de fato, muito simples.

Pousei de maneira suave, com os dois pés perfeitamente equilibrados sobre o imenso tapete verde que cobria toda a distância até a casa. A grama estava um pouco mais alta do que deveria, mas é assim que gosto dela. Fechei os olhos e respirei fundo, deixando aquele cheiro fresco delicioso invadir meus pensamentos. Todos os pêlos do meu corpo se arrepiaram ao sentir no vento frio que explodiu contra o meu peito o presságio de chuva. Meus lábios se abriram em um sorriso involuntário.

Caminhei pelo gramado até o anjo de pedra que se erguia solitário no centro do terreno. Haviam sombras escuras em seu rosto, que parecia triste hoje, misturado ao cinza chumbo do céu. Percorri com a mão esquerda as suas formas familiares, sentindo a textura da pedra antiga em meus dedos enquanto contemplava a imensa casa branca que se erguia à minha frente. Ela brilhava de um jeito estranho na luz agourenta que vazava por entre as nuvens zangadas, cada uma das muitas janelas era como um espelho perfeito do espetáculo da natureza que se formava. Todas as delicadas sensações condensaram-se em um fraco torpor de felicidade, que partiu do meu estômago e logo se alastrou para o restante do corpo. Meus pensamentos foram dominados pela ânsia violenta de intensificar e prolongar ao máximo esse sentimento, antes que ele pudesse desaparecer por completo.

A chuva fria começou a cair, intensa, desenhando pequenos riachos sobre a minha longa capa de chuva amarela. Mesmo oculto sob as sombras do capuz, meu rosto foi açoitado por milhares de gotas geladas que escorriam até a minha boca, e eu pude sentir na água o gosto amargo da condenação. Permaneci imóvel, paciente, esperando que a chuva pudesse levar embora todos os meus sentidos e me libertar da escravidão dos meus desejos. Mas a chuva passou, e nada aconteceu.

Com uma alegria inocente, quase infantil, me aproximei da entrada dos fundos da casa, que ficava sobre uma elegante plataforma de madeira avarandada. Subi com cuidado pela pequena escada de quatro degraus, evitando com uma agilidade inconsciente o terceiro deles, que rangia alto demais. Do lado esquerdo da porta, havia uma janela alta de vestíbulo, a única ali com uma tela de proteção. Corri a mão pela parte de baixo da tela, até alcançar a chave. Destranquei a porta e entrei, fechando-a com cuidado atrás de mim.

...

Felicidade extrema. Era o que eu sentia ao sair da casa. Tranquei novamente a porta dos fundos, recolocando a chave em seu esconderijo, e desci para o jardim. Fui recebido novamente pelo cheiro doce da grama alta molhada. Meus pés faziam um som agradável ao chapinhar pelo gramado encharcado. O vento gelado assobiava uma canção melancólica em meus ouvidos e, antes que eu pudesse chegar até a cerca, a chuva recomeçou. Como da primeira vez, deixei que ela me atingisse em cheio. Mas os pequenos riachos sobre o tecido amarelo impermeável da minha capa de chuva estavam agora tingidos de vermelho vivo. A chuva lavou todo o sangue, e então parou.

Saltei por sobre a cerca branca sem o menor sinal de cansaço. As poucas coisas que me trazem trazem prazer são, de fato, muito simples.

quinta-feira, julho 23, 2009

Para sempre


“Desejar a imortalidade é desejar a perpetuação eterna de um grande erro.”
Arthur Schopenhauer

Deviam ter me avisado que a vida eterna não incluía saúde eterna. Mas isso não estava escrito naquele maldito livro que encontrei. Disse as palavras certas, fiz o sacrifício adequado, foi tudo muito simples, na verdade. E durante oitocentos anos, funcionou muito bem. Compelido pela minha falsa juventude, eu vivi a vida de maneira intensa e irresponsável, arrumando desafetos e me arriscando como se eu fosse invulnerável. Até que, um dia, um marido traído me deu um tiro pelas costas. A bala se alojou na minha coluna, e eu fiquei tetraplégico. Preso a uma cama para sempre, o médico disse, mas ele não sabia que o meu “para sempre” era muito, muito tempo.

Por motivos óbvios, eu não podia mais desaparecer antes que as pessoas percebessem que havia algo errado comigo, e foi aí que os problemas começaram. Um antigo empregado, que estivera comigo desde a sua infância, sentindo-se às portas da morte, resolveu colocar a natureza de volta ao seu curso normal. E despejou, naquilo que chamavam de minha comida, uma dose cavalar de um veneno da pior espécie. Eu estrebuchei durante dias, sentindo dores horríveis na pequena porção que ainda me era sensível do corpo. Fui levado para um hospital, mas os médicos não conseguiam compreender o que estava acontecendo comigo. Eu rezei muito pra que a morte viesse e me livrasse desse duplo sofrimento. Mas ela não veio, e antes da dor ir embora, minha visão escureceu por completo e nunca mais voltou.

Os dias arrastavam-se incansáveis. Cada vez mais longos e iguais. No escuro da minha mente, eu conseguia ouvir as pessoas cochichando entre dentes à minha volta. Eu era uma aberração, e o ser humano sempre dá um jeito de sumir com o que não entende. Não sei dizer quanto tempo se passou até que resolvessem de fato fazer alguma coisa. Afinal, a minha percepção do tempo fora, pouco a pouco, desfigurada pela imortalidade. Uma noite entraram no meu quarto e, com um bisturi, rasgaram minha garganta de fora a fora. Um movimento único e firme. Sabiam muito bem o que estavam fazendo, pois cortaram fundo, para que eu não conseguisse gritar. Deveria ser uma morte horrível, porém rápida. Graças a Deus, ninguém mais além de mim sabe o que acontece quando se tira a morte da equação. Houve pânico quando perceberam que eu não ia morrer. Em meio à minha infindável e silenciosa agonia, pude ouvir a discussão. Até que um deles teve uma idéia simples, que gelou os meus ossos: ignorar que eu não morrera.

Fui enfiado em um caixão apertado. Afixaram a tampa e, além da tranca, martelaram pregos em toda a volta. Queriam garantir que eu não saísse mais dali. Senti um baque quando me deixaram cair na cova do cemitério, mas daqui, não dá pra ouvir mais nada. Devem ter me enterrado bem fundo, pois o silêncio é absoluto. Não posso gritar, não posso me mexer. Também não posso morrer.

domingo, junho 07, 2009

Reencontro

"Blank face in the windowpane
Made clear in seconds of light
Disappears and returns again
Counting hours, Searching the night"

Opeth ‘Windowpane’

O apartamento já está quase vazio. Sobraram apenas o pequeno sofá e algumas fotografias emolduradas na parede. Esse excesso de espaço me deixa ainda mais ansioso, mas tudo que eu posso fazer agora é esperar.

Pela janela observo as crianças da vizinhança brincando no parque próximo, até que, com chegada da noite, elas retornam às suas casas como se estivessem sendo puxadas por linhas invisíveis, deixando a rua deserta.

Silêncio.

Subitamente eu tomo consciência do espaço ao meu redor. O apartamento inteiro parece estar vivo, consigo sentir sua respiração sob meus pés. Como um eco da minha percepção, a brisa noturna entra pela janela e arrepia até o último pêlo do meu corpo. Sinto na pele o farfalhar das folhas das árvores no parque, as batidas do coração de uma ave noturna, o orvalho se condensando nas janelas das construções vizinhas. Fecho os olhos e sinto o mundo convergir pra dentro de mim com violência, minha percepção se estende vertiginosamente por quilômetros como se as fronteiras físicas se desfizessem com a brisa gelada. De repente, bem próximo a mim, uma certeza.

Abro os olhos e viro para o interior da sala. Ela está lá, parada, a cabeça encostada no batente da porta. Morena, alta, pele muito branca. Olhando pra mim muito curiosa, com seus olhos negros profundos e serenos. Um olhar que eu conhecia bem.

– Você me encontrou!

– Você foi sutil como um terremoto.

– Ainda assim não tinha certeza que funcionaria.

– Aqui estou!

Ela se aproxima e me abraça, encostando a cabeça no meu peito. Um toque frio que me deixa completamente à vontade, me transportando no tempo e no espaço.

Vinte anos atrás, uma criança completamente assustada num hospital. Tubos, rostos preocupados e dor, muita dor. Os remédios que me deram fizeram meus cabelos cair, a boca tinha sempre um gosto amargo. Vinte semanas de paredes brancas e comida sem gosto, que quase nunca parava no meu estômago. Minha cabeça doía a ponto de explodir, minha vista turvava e, se eu estivesse em um dia de sorte, desmaiava de dor. Sempre que eu acordava dessas crises, uma garotinha da minha idade estava ao meu lado, me olhando com um par de olhos negros ansiosos, a mão sobre o meu rosto. Ela ficava conversando e brincando comigo até alguém entrar no quarto, quando ela dava um jeito de sumir.

Seus dedos percorrem suavemente meu rosto.

– A vida foi generosa com você.

– Eu nunca achei que eu fosse capaz de sobreviver àquilo.

– Nem eu!

O fato é que melhorei. Os médicos resolveram tentar mexer na minha cabeça pra ver se davam um fim naquilo. Ainda lembro de ter acordado assustado depois da cirurgia, ligado em um monte de aparelhos. Ela segurava minha mão firmemente. Olhou fundo nos meus olhos, me acalmou e me acariciou até o sono me levar novamente. Nunca mais a vi.

– Eu nunca consegui te esquecer!

– Eu nunca me afastei completamente...

– Então todos aqueles sonhos.... era você?

– Sim...

O seu abraço fica mais apertado, meu coração dispara, os profundos cortes em meus pulsos doem. Embora o sangue já comece a faltar em minhas veias, eu não poderia me sentir mais vivo. No meu íntimo apenas desejo que esse momento dure para sempre.

Mas a brisa voltou a entrar pela janela, enchendo a sala com a vida lá fora. Sinto um carro negro parar em frente ao prédio. Quatro homens descendo apressados. É ridículo como eles tentam não fazer barulho. Um deles está forçando a porta. Descobriram o que eu havia feito, afinal.

– Eu preciso ir – ela diz, enterrando ainda mais a cabeça no meu peito.

– Então isso é um adeus?

– Não! – ela disse olhando bem dentro dos meus olhos – Dessa vez, você vem comigo.

Então ela me beija, e o toque dos seus lábios pára o tempo, como se todo o sentido da vida estivesse aqui, nesse instante. Deixo minha alma seguir o seu destino enquanto ela saboreia cada sensação vivida, cada lembrança, cada segredo em mim. Eu sou completamente dela agora.

As batidas na porta não encontram resposta.

Dentro do apartamento, não vão encontrar nada. Apenas manchas de sangue no carpete.

quarta-feira, maio 20, 2009

O Legado

"Now that you are gone casting shadows from the past /You and all the memories will last"
Kamelot – "Don't you cry"

Com um movimento leve e doce, Cláudia abriu a porta. As forças lhe faltaram e, por um momento, ela teve que se apoiar no batente para não cair. A casa estava vazia demais sem ele.

Se alguém visse aquela figura frágil caminhando pelo corredor levando nas mãos uma caixa de papelão, tomaria-a por uma assombração, sofregamente dirigindo-se para a ala norte da construção. As lembranças estavam por toda parte: nos quadros na parede, na poltrona em frente à lareira e até mesmo no doce aroma de tabaco que já se dissipava no ar.

Trêmula, estancou em frente a uma porta trancada, no final do corredor. Hesitou. Sabia que o que viera buscar estava do outro lado, mas também sabia que não suportaria entrar no estúdio outra vez. Pensou por um momento, respirou fundo e, por fim, girou a maçaneta.

Ali estavam elas. Todas as fotos de Sérgio, cobrindo painéis, paredes, móveis. Para ele, paixão, hobby, compulsão. Para ela, seu último legado, tudo o que ele lhe deixou. Não podia deixá-las ali.

Cláudia aproximou-se lentamente do primeiro painel. Retirou o alfinete que prendia a primeira foto e colocou-a na caixa, sentindo seu coração despedaçar-se. Temia não conseguir terminar.

Colocando as fotos, uma por uma, na caixa, ela foi percebendo o porquê da sua beleza inquietante. Elas transpiravam vida, eram naturais. Sérgio nunca pedira para bater uma foto, tampouco que lhe fizessem pose, por isso elas continham sentimentos, expressões, alegrias, tristezas, decepções. “Uma foto é instante de uma vida inteira eternizado em um pedaço de papel.” – era o que ele dizia. E era o que se sentia ao contemplar sua obra.

Ele fotografara tudo: festas de família, passeios, viagens, visitas. Nunca fora muito impulsivo, mas vivera intensamente todos os momentos da sua vida, sempre com a sua câmera a tiracolo, registrando tudo. Quando lhe perguntaram porque ele fazia isso, ele respondeu apenas: “A vida é fugaz”. Mas que diabos! Por que ele tinha de estar certo? Por quê?

As lágrimas de Cláudia caíram sobre a caixa, juntando-se ao seu passado, às suas lembranças. Ela nunca se perdoou por tê-lo deixado ir sozinho para a casa da mãe naquela noite. Ela ainda se lembra do telefonema da polícia, do bombeiro entregando-lhe a câmera de Sérgio com a objetiva quebrada, que ela ainda guarda consigo. As fotos vão se somando na caixa. Tantos rostos, tantos lugares, não apenas uma, mas muitas vidas congeladas ali, em breves instantes. Pequenas partes de um todo muito maior.

“Vidas passam, lembranças se perdem, mas são os ideais que constróem o mundo. Estes não morrem jamais!

O estúdio vai ficando vazio, irreconhecível, triste. Ela sabe que não voltará mais lá, assim como sabe que sua vida nunca mais será a mesma.

Cláudia colocou a última foto na caixa e ergueu-a nas mãos. Não havia mais nada a fazer ali. Antes, porém, de fechar a porta atrás de si, ela colocou a caixa no chão, tirou da bolsa a câmera de Sérgio e bateu uma foto do estúdio vazio.

“Ideais não morrem”, pensou, trancando a porta.

sábado, maio 02, 2009

Happy New Year!


"Silently we wander/into this void of consequence/my shade will always haunt her/but she will be my guiding light"
Kamelot – "Wander"

Eu sabia que não ia conseguir dormir tão cedo!
O dia foi praticamente idêntico: o mesmo céu azul com o mesmo vento gelado, a mesma ansiedade, o mesmo suor nervoso.

Eu é que mudei. Corri para tapar o buraco que eu mesmo abri em minha vida. Saí para descobrir do que eu sou feito, encontrar minha Pedra Filosofal.

É claro que eu ainda não encontrei, mas essa escolha tem feito toda a diferença.

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