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terça-feira, julho 13, 2010

O rosto


“As pessoas veem apenas o que elas estão preparadas para ver.” 
Ralph Waldo Emerson 

Mariana apertou o passo quando ouviu o sinal soar. Seus pequenos pés deslizaram com agilidade sobre o piso de borracha preta, e ela projetou-se para dentro do vagão mais próximo apenas um segundo antes da porta automática se fechar. Equilibrou o corpo em um movimento gracioso, ainda apertando contra o peito a pasta de couro e o avental branco dobrado, como se fossem tesouros. Embora levasse uma grande bolsa sobre o ombro esquerdo, era com esse braço que se defendia dos solavancos do metrô que partia.

Quando a velocidade do trem estabilizou, ela ajeitou a franja ruiva comprida, revelando seu olhar concentrado em busca de um assento vago. Encontrou-o junto à uma das janelas do lado oposto. Acomodou-se e começou a observar as pessoas, todas com a mesma pressa irracional. Gente enlatada – pensou, admirando aquele mar de cabeças oscilantes – abusando do anonimato ilusório das multidões enquanto se esforçavam ao máximo para não enxergar o outro. E tratava de devolver-lhes a identidade, um a um, estudando seus pormenores, lendo nas entrelinhas dos gestos. O que não conseguia captar, inventava. Era uma espécie de jogo que fazia para suportar o tempo que passava ali. Linha Verde, Linha Azul, depois Linha Vermelha. [Seis dias por semana, três vezes por dia, Doutora]. Se fizesse as contas, perceberia que passava mais tempo no metrô do que em sua própria casa.

A composição mergulhou veloz em direção ao subterrâneo e ela voltou-se para a janela. Lá fora, na escuridão pulsante do túnel, as sombras dos pilares e equipamentos passavam tão depressa, que mal podia percebê-las. Era isso que a fascinava. O túnel funcionava como uma janela para dentro do seu eu. Era somente contra aquela tela escura que todas as peças de sua vida pareciam encaixar-se. Gostava tanto de brincar nesse plano subjetivo que, por vezes, se esquecia de onde estava e do que se passava ao redor. E o tempo se perdia com ela, hipnotizado pelas mudanças de cor daqueles olhos intensos.

Sempre que se apanhava assim, tão distraída, um calafrio violento a empurrava de volta à realidade. Uma lembrança sombria. Olhou em volta, nada anormal. O vagão prosseguia imerso em seu microcosmo: nunca igual, nem tão diferente assim. O oposto daquela tarde, dez anos atrás, na qual um intrigante rosto surgiu dentre suas ideias, encarando-a com seus profundos olhos negros. Jamais esqueceria aquele olhar urgente, face contraída. Na verdade, recordava-se daquele dia em cada detalhe.

Deduziu, pelo reflexo, que a dona daquele rosto tão sinistro estava parada junto à porta. Curiosa, voltou-se para observá-la. Não a encontrou. Através da porta que se fechava, vislumbrou expressões aterrorizadas na plataforma. O que estava acontecendo? O trem partiu, e ela percebeu que não havia mais ninguém no vagão além do homem sentado ao seu lado. Sufocou o impulso de sair correndo ao perceber o reflexo metálico que corria sobre o jeans de suas calças. Na mão trêmula, o sujeito tinha uma tesoura. Segurava-a com tanta força, que as juntas dos dedos estavam esbranquiçadas. Ela sentia o hálito podre soprado em seu pescoço, o odor azedo de dias sem banho. Não arriscou olhar direto para ele, pois tinha medo de que o contato visual rompesse o frágil equilíbrio da situação. Pelo canto do olho, descobriu que ele a estudava, abrindo e fechando a tesoura bem devagar. Quem sabe o que estivera pensando? Naquele hiato de gente entre as duas estações, o tempo parou. Os minutos desdobraram-se em horas de pânico e desespero. A próxima estação parecia não chegar nunca. Então ela fez a única coisa sensata a fazer. Fechou os olhos e começou a contar para si – um, dois, três, quatro –, para obrigar o tempo a passar. Onze, doze, treze – fizera isso tantas vezes quando criança – dezessete, dezoito, dezenove – uma pequena fuga que sempre enfurecia sua mãe – vinte-e-três, vinte-e-quatro, vinte-e-cinco. O trem parou. Chegara à estação? Esperava que sim. Ela abriu os olhos e o homem não estava mais lá. Corria alucinado pela plataforma, com vários seguranças em seu encalço. O vagão encheu novamente, e ela se deu conta de que ainda contava – trinta-e-oito, trinta-e-nove... 

Escapara por pouco, soube mais tarde. O homem era um maníaco procurado pela polícia e dera muito trabalho naquele dia, antes de ser capturado. Apesar de todo o perigo vivido, o que deixava o seu coração inquieto e, por vezes, roubava seu sono, ainda era o rosto feminino no túnel. Algo nele a atraía na mesma medida em que a apavorava. Quem seria? Odiava charadas sem resposta, por isso essa questão subia à superfície dos seus pensamentos com freqüência. A hipótese mais provável era que o seu subconsciente reconhecera a mulher de alguma de suas memórias passadas, provocando aquela estranha sensação.

Nesses últimos anos trabalhando no hospital, várias vezes pensou tê-la visto de relance. Como acontece com a maioria dos vultos que nos pegam pelo canto dos olhos, ao virar-se, nada encontrava. Acontecia sempre durante os dias mais tensos e, em meio à correria e à confusão das emergências, ela não conseguia parar para averiguar melhor. Acabara por atribuir essa sensação às descargas emocionais do trabalho. [Adrenalina, Doutora. Uma bomba química que deixa o seu corpo pronto para reagir em condições extremas. Às vezes faz enxergar de menos, às vezes, demais. Só isso.] Porém, nunca se convencera. Enquanto ponderava sobre o assunto, as peças de que dispunha foram surgindo em sua tela mágica. Tirando a tensão da jogada, haveria mais características comuns? Dessa vez, concentrou-se nos mais insignificantes detalhes: cheiros, gostos, sensações. O trem assobiou agudo nos trilhos, e o ruído ecoou, soprando-lhe a direção em que deveria olhar. Sons! Com a ansiedade a revirar-lhe o estômago, Mariana começou a relembrar os sons que cercavam o aparecimento daquela misteriosa figura: o arrastar de macas, gritos de médicos e enfermeiras, a melodia aguda e constante do monitor cardíaco e mais nada. [Parada cardíaca! Rápido, doutora, consiga ajuda!] Ela sabia muito bem o que vinha depois. A visão turva, afunilando-se sobre o paciente. O mundo afastando-se como se visto através da penumbra de um longo túnel. O rubor intenso em seu rosto. O sangue pulsando violento em sua garganta, lembrando a cada instante que o tempo passa, inexorável, sem que o coração do outro reaja. E o monitor a repetir, incessante, em sua nota única e cruel: morreu morreu morreu morreu morreu morreu morreu morreu morreu.

A descoberta fez com que suas pernas amolecessem, mas seu instinto profissional, mais do que depressa, chamou-a à razão. [E como você explica, Doutora – desse seu ponto de vista místico aí – a primeira vez em que esse rosto te assombrou?] Nesse mesmo instante, o aviso do fechamento da porta do metrô fez o coração disparar, trazendo-a de volta à realidade. [O tempo se esgota sempre, em algum lugar.] Pela primeira vez, percebeu-o como um arremedo do monitor cardíaco. Ergueu os olhos para a plataforma e lá estava ela, a mulher misteriosa, parada no meio da multidão. Sem pestanejar, Mariana arremessou-se para fora do vagão. Precisava resolver de vez aquela história, antes que ficasse maluca. A porta fechou-se, tentando impedi-la de sair. Mas ela foi mais rápida. Soltou-se com um puxão decidido, colocando-se em segurança do lado de fora. Frustrada, constatou que a mulher se fora. Um baque surdo atrás de si fez a multidão gritar. Ao virar-se, percebeu que o vagão estava vazio, exceto pelo homem de aparência insana com o rosto grudado na janela. Frenético, batia o punho ensanguentado contra o vidro tentando quebrá-lo. Na outra mão, trazia um grande caco de vidro pontudo.

Mariana arfou, sentindo o sangue gelar em suas veias enquanto o trem partia. Não pela percepção do que se livrara – essa só viria bem depois. Atrás do lunático, sentada no lugar em que ela mesma estivera, vira uma conhecida figura de mulher.

quarta-feira, outubro 21, 2009

Mistério em Mallorca


“Brace yourselves for the fury of the ocean wants its toll”
Fairyland – “Master of the Waves”


“Impossível!”, pensou o Inspetor Ortiz, caminhando em círculos pelo apartamento enquanto repassava mentalmente todos os detalhes da investigação. Ao entrar para arrumar o quarto, a camareira do hotel havia encontrado Johnny O’Doe morto sobre a cama. Ele estava roxo, com os músculos todos contraídos. As articulações da mão estavam esbranquiçadas de esforço, como se ele tivesse tentado se agarrar, literalmente, à vida.

Johnny tinha trinta e dois anos e era muito conhecido no mundo, tanto pela sua capacidade de lotar estádios com seus shows, quanto pela sua disposição para festas e bebedeiras. Viera à Espanha de passagem, apenas para receber um prêmio em Mallorca. Festejou a noite inteira, voltou ao hotel sozinho, e nunca mais acordou.

O relatório do legista foi tão assustador que o comissário optou por mantê-lo em sigilo. Apesar das especulações da imprensa girarem em torno disso, não foi encontrado nenhum traço de drogas em seu organismo. Seus pulmões estavam cheios de água salgada. Havia vestígios de areia de praia no nariz e sob as unhas, mas uma análise comparativa chegou à conclusão de que não eram de nenhuma praia da Espanha. A equipe forense esquadrinhou o quarto três vezes, mas não encontrou nenhuma pista. Nada. Tudo estava impecável. Nenhum sinal de arrombamento ou luta, nem de que o corpo fora transferido para a cama.

Sentado no chão do quarto, com a cabeça entre as mãos, Ortiz ficou horas tentando rever a cena do crime de diferentes ângulos, em busca do elemento faltante que daria uma explicação para tudo. Ele tinha que estar ali em algum lugar. Lembrou do seu treinamento na Academia de Policia, quando lhe disseram que todo investigador veterano era assombrado por um crime insolúvel. Sentiu um gosto amargo subir pela garganta. Talvez esse fosse o seu.

Sentindo-se derrotado, Ortiz resolveu voltar para a delegacia. Lacrou de novo a porta do quarto e caminhou até o elevador absorto em seus pensamentos. No caminho, cumprimentou com um aceno automático o faxineiro que lavava o chão do corredor.

O faxineiro acompanhou o inspetor com o canto dos olhos, sem interromper seu trabalho. Quando a porta do elevador se fechou, ele suspirou aliviado: ninguém percebera nada. Então ele soltou o primeiro botão da camisa para admirar o objeto que trazia pendurado no pescoço e que, de algum modo, conseguira subtrair do corpo do músico antes da polícia chegar. Ele contemplou fascinado o enorme medalhão de prata cintilante que pendia da corrente de elos grossos. Haviam seis pedras verdes dispostas em círculo engastadas na superfície do disco, emolduradas por relevos parecidos com letras, mas que ele não sabia dizer o que significavam. No dia seguinte, iria procurar um antiquário no centro. Esperava conseguir uma boa quantia por ele.

Naquela noite, em seu apartamento no subúrbio, o faxineiro caiu em um sono profundo. Assim como Johnny O’Doe, esqueceu-se de tirar o medalhão do pescoço. 


Sonhou que estava em uma praia de areias brancas. Atrás dele, uma cidade prateada brilhava sob a lua cheia. Não havia visto nada assim tão bonito em toda a sua vida. A cidade ancestral e misteriosa parecia tremeluzir junto com as estrelas do céu. Um vento forte desgrenhou os seus cabelos, e ele virou-se novamente para olhar o mar. Compreendeu que estava em uma grande ilha. O mar, negro e denso como a noite, envolvia a costa em um abraço frio. Somente os pequenos reflexos da lua na água indicavam movimento. E foi aí que ele percebeu que algo estava errado. O horizonte se aproximava rapidamente, alto demais. Uma imensa muralha negra de água e fúria, que lhe parecia ser cinco, dez, vinte, muitas vezes maior que ele. Tentou acordar, mas não conseguiu. Tudo aconteceu rápido demais. O mar atingiu a ilha e obliterou a cidade, como se o oceano se fechasse sobre ela. Ele tentou agarrar-se como pode no chão, nas árvores, nas construções prateadas, mas a água implacável castigou o seu corpo e o jogou de um lado pro outro, de modo que ele nem sabia mais para que lado ficava o céu. Estava ficando sem ar.

Na manhã seguinte, um novo corpo jazia retorcido sobre a cama em um quarto trancado por dentro. Mas para esse, ninguém deu importância. Quatro dias depois, o senhorio arrombou a porta por causa do mau cheiro. Enojado, ele só se aproximou da cama porque algo muito brilhante chamou sua atenção. “Isso deve bastar para compensar os três meses de aluguéis atrasados!”, disse para si mesmo, pegando o medalhão com o seu lenço e o guardando no bolso do seu casaco. E então ligou para a policia.

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