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segunda-feira, setembro 07, 2009

Doce, mas não tão doce

“I know that you belong to me every night
You suddenly appear in my eyes
It happens when I sleep, it isn’t right
What I do in my dreams with you”
Steve Vai – “In my dreams with you”

De onde diabos apareceu essa mulher? Era como se ela soubesse exatamente o que dizer, o que pensar, o que fazer. Havia quilômetros entre nós, mas a sincronia era tanta que até irritava.

Tentei racionalizar o fato, e isso fez minha cabeça latejar de maneira violenta. Gemi, tentando não perder de vista as janelas piscando na tela do computador. Uma nova mensagem apareceu:

Beatrix diz: Não consigo parar de pensar em você... de ter certas idéias...

Era cada vez mais difícil resistir à tensão que surgia entre nós, embutida naquelas frases claras e perfeitas, equilibrada de maneira precária entre a espontaneidade e a premeditação. Meus dedos corriam pelo teclado sem precisar de comando, como se fossem uma extensão do meu subconsciente.

Marcos diz: Que tipo de idéias?

Não demorou nem 1 minuto, e outra resposta chegou:

Beatrix diz: Eu, você, seu perfume... e muitas más intenções...

Marcos diz: Você gosta de vinho?

Beatrix diz: Adoro!

Marcos diz: Então você terá sérios problemas com o meu perfume!

Beatrix: Por quê?

Marcos diz: Ele é inspirado em um vinho argentino. É suave, então você precisa chegar BEM perto pra sentir...

Beatrix diz: Não me provoque assim! Você não sabe do que eu sou capaz...

Minha imaginação começou a trabalhar com uma fúria louca, procurando entre as minhas fantasias latentes um arremedo de razão, algo que trouxesse um pouco de realidade para acalmar meu desejo.

Marcos diz: Você é tão perigosa assim? Qual a sua altura?

Belatrix diz: Um metro e sessenta e dois.

Marcos diz: Eu ia me sentir o próprio Gulliver perto de você: tenho um metro e noventa. Já estou até imaginando eu acordando amarrado numa cadeira com milhares de fiozinhos fininhos...

Belatrix diz: Cadeira, cordas, você... acho que estou tendo uma idéia bem melhor que a sua...

Marcos diz: Cadeira, cordas, você, seu perfume.... Poderia até adivinhar, mas prefiro que você me conte!

Belatrix diz: Você nunca ia adivinhar qual é o meu perfume... pouca gente conhece, menos gente ainda usa...

Senti meu coração dar golpes duros em meu peito quando uma imagem azulada formou-se em minha mente. A princípio apenas um borrão, como qualquer outra imagem subconsciente. Aos poucos, a cena foi ganhando

[foco. Uma sala escura sombras pretas alongando-se pelos cantos dos olhos dançando no ritmo pesado e denso da minha respiração uma cadeira no centro da sala ou será cozinha fria reflexo de luz bruxuleando na parede do meu lado esquerdo mas como eu sei que aqui é alto a luz não é da rua mas deixa um reflexo lindo quando passa pelo teu rosto e olhos que não vêem nada a não ser desejo deus não consigo me mexer e nem quero hipnotizado por teu cheiro doce porém não tão doce que se alastra e fixa em meus poros bailado tenso do teu corpo nu contra o meu pulso ardente por causa das cordas que me fixam imóvel admirando o brilho cinético do objeto metálico que cruza o ar nítido junto ao meu rosto cortante...]

Marcos diz: eu estou SENTINDO seu perfume... mas não sei o nome. Ele é doce, mas não tão doce... pelo menos não na sua pele!

Belatrix: Mas como é que você....? Hum, as pessoas realmente dizem que ele fica mais suave na minha pele....

Marcos diz: As paredes do seu apartamento por acaso são azuis?

Belatrix diz: ? Não! Brancas! Pelo menos de dia...

Marcos diz: Como assim?

Belatrix diz: Tenho um tipo de iluminação na sala que deixa tudo meio lilás à noite, por quê?

Marcos diz: ...tem um reflexo estranho na parede, parece reflexo de luz de carro? Mas não pode ser porque seu andar é alto...

Belatrix diz: Céus! ...tenho um cristal pendurado, entre a sala e a cozinha... sabe? É uma cozinha americana, aquela com balcão, integrada na sala. Conforme a luz entra ele...

Marcos diz: Pelo amor de Deus, qual é o nome do seu perfume?

Anotei o nome do perfume em um pedaço de papel, e desliguei de súbito o computador, ainda arfando de desejo e medo. As imagens continuavam a brilhar ácidas em minha mente, o cheiro parecia estar preso em meu rosto. Por que pareciam tão reais?

Corri até uma loja de perfumes e perguntei pelo nome que ela me deu. Claro que era o mesmo. Ele era mais forte no frasco, mais doce, mas era indiscutivelmente aquele. Passei o resto do dia tentando processar o que tinha acontecido, mas não havia lógica nenhuma. Tarde da noite, eu ainda rolava pela cama inquieto, com os neurônios pulsando a mil por hora. Por fim, o sono me alcançou.

...

Acordei com uma dor de cabeça pungente, a musculatura rígida em protesto. O mundo escuro à minha volta parecia lavado em tons de índigo e púrpura. Não consegui me mexer, eu estava amarrado em uma cadeira. E então senti aquele cheiro doce, mas não tão doce...

quarta-feira, maio 13, 2009

Eau de Toilette

A lata de cerveja escapou da sua mão, rolando para junto das outras. Todas vazias. Era assim que seus olhos pareciam estar também. O vento soprava em seu rosto, tentando acordá-lo. Mas ele já não estava mais sentindo. Seu corpo, que há pouco estava solidamente sentado no parapeito da janela, parecia estar precariamente equilibrado no beiral. Na outra mão, um cigarro aceso lançava suas cinzas no vazio. Espalhadas pelo vento, elas alcançavam o chão, doze andares abaixo, aleatoriamente, deixando pequenas marcas no piso que separa o prédio da piscina. Mas ele não as vê. Embora parecesse catatônico, sua mente estava agindo rapidamente, apenas interpretando de uma forma diferente o que acontecia ao seu redor.

A brisa gelada parecia correr sobre o seu rosto, áspero por causa da barba por fazer, como uma mão a brincar com seus cabelos, ora penteando-os, ora desarrumando-os carinhosamente. O calor de sua jaqueta era envolvente como um abraço. Dois braços enlaçando-o pelas costas e apertando-o firmemente contra o peito, soprando um bafo quente e aconchegante em sua nuca. Podia até mesmo sentir o contato da pele, macia como veludo, quente, familiar. O torpor causado pela combinação de bebida e nicotina descia-lhe pela espinha como a dormência do amor, fazendo-o desejar adormecer ali, ouvindo as batidas do coração de sua amada. Aquele perfume no ar... estava em toda a parte e em lugar nenhum. Dois sentimentos coexistindo tempestuosamente, deixando os rastros do seu perpétuo confronto. Do seu lado esquerdo podia sentir o vazio da liberdade, um mundo estranho e assustadoramente hostil, porém irresistivelmente emocionante. Do seu lado direito, o conforto e a segurança claustrofóbica do lar, com o tédio da rotina e a certeza de saber onde está pisando. As duas sensações eram assustadoras: sentir o perfume e saber que ele não está ali. Tudo o que ele queria era que o tempo passasse depressa, para ele não mais sentisse alegrias ilusórias. Não mais acordasse desejando trocar a realidade pelo sonho...

Aos poucos, os fogos começaram. Por todo o lado as pessoas abraçavam-se e beijavam-se, mas seus olhos apenas perceberam o fulgor das estrelas artificiais que acendiam e apagavam freneticamente. Pensou no brilho daqueles olhos que conhecia bem e há muito aprendera a amar. Ultimamente, vinha aprendendo a odiá-los também, mas apenas o suficiente para manter sua sanidade. Lembrou-se, em seguida, dos lábios bem desenhados que outrora sussurravam palavras doces em seu ouvido. De quem seria o seu beijo de Ano Novo? Atormentado pelo pensamento, ele fechou seus olhos e rezou. Rezou muito, mas o perfume só foi embora quando o sono veio.

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