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terça-feira, fevereiro 23, 2010

Carnaval: o outro lado da folia

I.
No meio da amoralidade, o coração negro do Pierrot batia forte. Eram tantas presas fáceis! Difícil escolher apenas uma.

II.
Sua mãe dizia que ela nascera para ser rainha. E a profecia se realizava, por um dia, a cada ano, ao longo da avenida.

III.
O fracassado lutador de sumô fugira do Japão em desonra. No Brasil, encontrou a felicidade: todo fevereiro, virava Rei!

IV.
Adorava o Carnaval. Nessa época, sempre conseguia uns três ou quatro rins a mais para vender no mercado negro.

V.
Quando o Pierrot levou a Colombina para a cama, descobriu que, na verdade, ela era o Arlequim.

VI.
Vinte facadas foi pouco para aquela atriz nojenta que roubara sua realeza. A avenida era toda sua, outra vez. Avante, bateria!

VII.
Morria de medo da Quarta-Feira de cinzas. Acordava com a realidade a beliscar suas pernas, apenas mais um na multidão.

VIII.
Acordou chorando. Tirou a tinta do corpo, vestiu o uniforme. E lá foi ela enfiar a rotina goela abaixo outra vez...

IX.
Mastigou sem pressa o último pedaço de carne. Delicioso! Fígado de foilão, agora, só no ano que vem...

sábado, janeiro 09, 2010

Os Crimes do Zodíaco



"O destino não se satisfaz em infligir apenas uma calamidade."
Publilius Syrus

Áries
Descontrolada, berrava sem parar com ele. Onde já se viu usar a jarra de cristal para aguar as plantas? A peça quebrada, que estivera brilhando na mão dele, atingiu-a com força no rosto. Uma, duas, três vezes. Silêncio, afinal.

Touro
– Tem certeza que sabe usar o câmbio automático?
– Claro que sei! É óbvio! Tudo mundo sabe! Você não?
– Você não acha melhor pedir aj...
– Não precisa! Eu sei como faz! Quer ver?

Ela engatou a ré por engano e acelerou. Matou três pessoas.

Gêmeos
A textura da pele do pescoço dele sob seus dedos lembrava a seda, que lembrava o presente ousado que ganhara do aluno, que lembrava a sensação de fazer o que era proibido, que lembrava banho de sol nua, que lembrava liberdade, que lembrava que acabara de conquistar a sua. Largou o corpo flácido do marido no chão e foi viver.

Câncer
Quando ele a deixou, ela pensou em matá-lo. Mas não suportaria viver sem ele. Então, passou a matar todas as mulheres que se aproximavam demais.

Leão
O resultado do exame: câncer no estômago. Era tão orgulhoso, que não se deixaria matar por uma doença tão cruel. Pegou uma faca, amolou, e fez ele mesmo o serviço.

Virgem
Com movimentos seguros, removeu as duas pálpebras da mulher. Ajeitou os lábios dela, já rijos, para que arremedassem o sorriso tosco que entalhara em sua garganta. Acomodou os cabelos negros em leque e deixou um lírio sobre os seios nus. Parabenizou-se em silêncio: fizera um trabalho perfeito.

Libra
Era um marido muito dedicado. Antes de deitar, sua mulher confidenciara que o seu maior sonho era ganhar a cabeça de sua chefe em uma bandeja de prata. Quando ela acordou, olhos mortos a encaravam de cima da mesa.

Escorpião
Cento e cinqüenta corpos no salão de culto. Homens, mulheres, crianças e velhos, caídos uns sobre os outros. Do chão, uma gargalhada quebra o silêncio. O Pastor bebera suco ao invés de veneno.

Sagitário
O policial não tinha o direito de fazer isso com ele. Tudo bem que os pneus do carro estavam mesmo carecas, a licença estava mesmo vencida, e ele estava mesmo embriagado. Mas isso lá era motivo para ser tão rigoroso? Por isso, quando recebeu a prancheta para assinar o flagrante, enfiou a caneta no olho do policial e fugiu.

Capricórnio
Cuidou com afinco da tia avarenta durante seis anos. No dia seguinte à assinatura de um novo testamento, que beneficiava o sobrinho, um escorregão no piso molhado a fez rolar escada abaixo. Dessa vez, ele não a socorreu.

Aquário
Ele jurou que não contaria mais mentiras. O bilhete que ela encontrou mostrava que ele não cumprira com sua palavra. Então deu a ele um remédio para dormir e sumiu no mundo. Deixou para trás apenas a língua dele, pregada na porta. Agora, ele cumpriria a sua promessa na marra.

Peixes
Na saída do shopping, só encontrou o carro porque tinha muita gente em volta. Dois bombeiros removiam um pequenino volume pelo parabrisa quebrado: seu filho de um ano, esquecido lá dentro, morrera sufocado.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Microcontos II

I.
Preguei uma peça no meu coração involuntário: um prego enorme. Preso na tua porta, ele parou de doer.

II.
Limpou a navalha no lençol do motel e beijou de novo os cabelos dela: a cada vez, fica mais difícil encontrar loiras de verdade...

III.
Entediada com a folha do caderno, rabiscou as paredes do apartamento. Quando o espaço acabou, pulou da janela e virou infinito.

IV.
"Bebeu até morrer!", concluiu o perito na cena do crime. "Cachaça?", perguntou o detetive. "Não. Groselha! Era diabético.”

V.
Arrancou, em fuga, com o carro. Um salto, baque surdo. Desceu pra ver. Era o seu passado. Deu marcha ré por cima. E partiu.

VI.
Enfarte do miocárdio, é o que dirão – pensou enquanto tombava. Ninguém saberá que seu coração explodiu mesmo de tristeza.

VII.
"Anjo é uma alma humana cujo primeiro suspiro coincidiu com o último". Ele fechou o livro e sorriu: seu filho fora convocado no céu!

VIII.
Pegou um dos cacos de seu coração partido e degolou a infeliz. Ela deveria saber que amor de psicopata é mortal.

IX.
"Fui!". Era tudo que estava escrito no bilhete do suicida. Ele nunca fora um homem de muitas palavras...

X.
Desfez o aviãozinho de papel que, vindo do outro lado da sala de aula, o acertara em cheio na cabeça. Reconheceu como seu o desenho interno. Um coração. Embaixo de onde escrevera “Toma, é teu!”, ela escreveu em letras miúdas: “Estou devolvendo. Não quero mais!”.

XI.
"Adivinha quem é?", disse, cobrindo os olhos dela. A resposta veio rápida e segura. A dúvida, também: quem diabos é Murilo?

terça-feira, dezembro 22, 2009

Dança Sombria

"Eu conduzi as sombras que perambulam de mundo em mundo
para semear morte e loucura..."
H.P. Lovecraft

Acordei assustado. Estou molhado de suor gelado, o pijama grudado no corpo. Tem gente gritando na rua, muita gente. Alguma coisa está errada. Meu abajur está apagado. Deixo ele sempre aceso para afastar as sombras. Quando eu esqueço, as sombras entram com a luz da rua. Passam pelas frestas da janela e dançam e rodopiam. Elas têm braços compridos e chamam o meu nome baixinho enquanto eu durmo. Eu sei o que elas querem. Querem que eu vire uma sombra e dance com elas para sempre. Mas eu não quero. Por isso eu grito. Grito bem alto, e elas vão embora.

Estranho. Não consigo acender o abajur. A luz acabou. Não tem luz em lugar nenhum. Só a lua cheia brilha, grandona, enchendo o mundo de sombras compridas. Elas estão em toda parte. Na rua, nas casas, no meu quarto. Dançando sem parar. Eu gritei e gritei, mas dessa vez elas não foram embora. Ouço meu nome repetido em milhares de cochichos. Sinto dedos finos no meu rosto. Meus olhos estão pesados de um sono esquisito. Estou com medo. Está me dando vontade de dançar.

quinta-feira, novembro 26, 2009

Pássaro

“Por este pecado caíram os anjos.”
William Shakespeare

O apartamento novo é bonito. Bem grande. Gostei muito do meu quarto. É cor-de-rosa. Cabem todos os meus bichinhos de pelúcia. Muito melhor que nossa casa velha. Papai disse que pagou barato. Tinha acontecido um acidente aqui, e ninguém queria comprar.

Ontem, apareceu uma menininha do meu tamanho. Ela usava um vestido branco. Era muito branca, também. Seu nome é Isabella. Ela brincou comigo de boneca. Disse que voltaria hoje, para me ensinar a voar como um pássaro. E não é que ela veio? Ela falou que é muito fácil. É só correr e pular e ser feliz pra sempre. Ela me mostrou como se faz. Correu pelo quarto, pulou em cima da minha cama e saiu voando pela janela. Agora é a minha vez.

quarta-feira, outubro 14, 2009

Microcontos

I

– Vá embora! Você é um monstro! – ela disse, escondendo o rosto com as mãos.

A crueza das palavras o atingiu com o poder de uma bofetada. E foi a primeira e única vez que seus dez olhos verteram lágrimas.

II

Acordou no meio da noite atordoado e percebeu que estava sendo arrastado dentro de um enorme saco de lixo preto, em direção a um enorme caminhão que acelerava. Foi lançado com um baque surdo em um compartimento estreito e malcheiroso. Gritou e gritou, mas o som metálico implacável do compactador de lixo abafou os seus gritos.

III

– PARE! Você está me comendo com os olhos! – gritou a mulher horrorizada.

– Nossa! Que indelicadeza a minha! – respondeu ele, largando-lhe o braço. Usando uma pequena colher, arrancou-lhe os olhos friamente, e então destroçou-lhe o ventre a dentadas.

IV

Elias ficava horas contemplando a pele de Helena sob a luz da janela, encantado com o seu brilho acetinado. Apreciava sua textura e o seu aroma doce. Quando Helena lhe abordou de malas prontas, dizendo que ia embora para sempre, ele se apressou em trancar a porta à chave. Avançando sobre ela com uma faca de churrasco na mão, disse apenas: “Você pode até ir, mas a sua pele fica!”.

V

Todas as quartas-feiras o marido de Flavia viaja, e ela leva um completo estranho para sua cama. A quilômetros dali, Agenor limpa as mãos sujas de sangue sem tirar os olhos do vídeo. Fixa na memória o rosto do desconhecido que faz sexo com sua mulher. Quarta-feira que vem, irá atrás dele.

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