quarta-feira, outubro 14, 2009

Microcontos

I

– Vá embora! Você é um monstro! – ela disse, escondendo o rosto com as mãos.

A crueza das palavras o atingiu com o poder de uma bofetada. E foi a primeira e única vez que seus dez olhos verteram lágrimas.

II

Acordou no meio da noite atordoado e percebeu que estava sendo arrastado dentro de um enorme saco de lixo preto, em direção a um enorme caminhão que acelerava. Foi lançado com um baque surdo em um compartimento estreito e malcheiroso. Gritou e gritou, mas o som metálico implacável do compactador de lixo abafou os seus gritos.

III

– PARE! Você está me comendo com os olhos! – gritou a mulher horrorizada.

– Nossa! Que indelicadeza a minha! – respondeu ele, largando-lhe o braço. Usando uma pequena colher, arrancou-lhe os olhos friamente, e então destroçou-lhe o ventre a dentadas.

IV

Elias ficava horas contemplando a pele de Helena sob a luz da janela, encantado com o seu brilho acetinado. Apreciava sua textura e o seu aroma doce. Quando Helena lhe abordou de malas prontas, dizendo que ia embora para sempre, ele se apressou em trancar a porta à chave. Avançando sobre ela com uma faca de churrasco na mão, disse apenas: “Você pode até ir, mas a sua pele fica!”.

V

Todas as quartas-feiras o marido de Flavia viaja, e ela leva um completo estranho para sua cama. A quilômetros dali, Agenor limpa as mãos sujas de sangue sem tirar os olhos do vídeo. Fixa na memória o rosto do desconhecido que faz sexo com sua mulher. Quarta-feira que vem, irá atrás dele.

5 comentários:

Tânia Tiburzio disse...

Nossa!! Gostei muito! Macabro como sempre!Beijos!!

Mariana disse...

Adoráveis contos de terror ^^,
O que mais gostei foi o do monstro dos dez olhos. Até consigo vê-lo! Hauhauha
Parabéns Paulo, muito bons.

Raquel Koch disse...

Inevitavelmente de qualidade, como tantas outras vezes.
Gosto assim, microcontos. E definitivamente fiquei com dó dos dez olhinhos....

Vanessa disse...

O tom sutilmente melancólico que você deu ao primeiro microconto contrasta com o aparente semblante terrível do tal monstro. Magnífico!

Camilíssima Furtado disse...

I
Já te confessei que subverti a crueza do seu texto e imaginei uma criatura fofa, estilo Monstros S/A... Preciso parar de assistir esses filmes da Disney Pixar, urgentemente!!! Mas, cá pra nós, é um microconto muito lindo!!!

II
Desesperador... Chega a ser claustrofóbico imaginar tal situação. Fico eu com a pulga atrás da orelha... O que terá feito esse sujeito para merecer este fim, triste, malcheiroso, doloroso e silencioso... Credo!

III
A encarnação do mais puro sarcasmo. Desta série de microcontos, sem dúvida, o meu preferido. ADOREI o jogo de palavras, puta quebra de expectativas.

IV
Sabe... a literatura é o retrato da vida. Outro dia li no jornal sobre aquele cara, que ao ser deixado pela namorada (uma linda e jovem apresentadora de tv), jogou ácido em seu rosto, deixando-a completamente desfigurada... Vai entender o que se passa na cabeça dessa... gente (?)

V
Cada um se diverte com o que tem. Que louco isso, não? Tem cara que assiste ao futebol de quarta, outros jogam uma pelada com os amigos, outros vão ao cinema. Esse aí curte outra coisa... Porque não larga a mulher? Tão mais fácil... Ser serial killer deve ser algo muito complexo...

Excelentes, todos! Absolutamente viciantes...

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