Terça-feira, Dezembro 22, 2009
Dança Sombria
H.P. Lovecraft
Acordei assustado. Estou molhado de suor gelado, o pijama grudado no corpo. Tem gente gritando na rua, muita gente. Alguma coisa está errada. Meu abajur está apagado. Deixo ele sempre aceso para afastar as sombras. Quando eu esqueço, as sombras entram com a luz da rua. Passam pelas frestas da janela e dançam e rodopiam. Elas têm braços compridos e chamam o meu nome baixinho enquanto eu durmo. Eu sei o que elas querem. Querem que eu vire uma sombra e dance com elas para sempre. Mas eu não quero. Por isso eu grito. Grito bem alto, e elas vão embora.
Estranho. Não consigo acender o abajur. A luz acabou. Não tem luz em lugar nenhum. Só a lua cheia brilha, grandona, enchendo o mundo de sombras compridas. Elas estão em toda parte. Na rua, nas casas, no meu quarto. Dançando sem parar. Eu gritei e gritei, mas dessa vez elas não foram embora. Ouço meu nome repetido em milhares de cochichos. Sinto dedos finos no meu rosto. Meus olhos estão pesados de um sono esquisito. Estou com medo. Está me dando vontade de dançar.
Quinta-feira, Novembro 26, 2009
Pássaro
William Shakespeare
O apartamento novo é bonito. Bem grande. Gostei muito do meu quarto. É cor-de-rosa. Cabem todos os meus bichinhos de pelúcia. Muito melhor que nossa casa velha. Papai disse que pagou barato. Tinha acontecido um acidente aqui, e ninguém queria comprar.
Ontem, apareceu uma menininha do meu tamanho. Ela usava um vestido branco. Era muito branca, também. Seu nome é Isabella. Ela brincou comigo de boneca. Disse que voltaria hoje, para me ensinar a voar como um pássaro. E não é que ela veio? Ela falou que é muito fácil. É só correr e pular e ser feliz pra sempre. Ela me mostrou como se faz. Correu pelo quarto, pulou em cima da minha cama e saiu voando pela janela. Agora é a minha vez.
Quinta-feira, Novembro 12, 2009
Consumação
William Shakespeare
Vanessa penteava os longos cabelos negros em frente ao espelho. Seus movimentos delicados contrastavam com a velocidade dos seus pensamentos. Essa seria a noite mais importante da sua vida. Era seu vigésimo primeiro aniversário, e Juliano cumpriria a promessa que fizera a ela. Passara o dia em preparativos para recebê-lo, vedando as janelas da ensolarada cobertura com grossas cortinas negras e iluminando o espaço com velas. O cheiro adocicado do incenso dominava, hipnótico, o ar.
Juliano despertou em arroubos ardentes de ansiedade. O dia havia chegado. O seu dia. Após dezoito anos de espera, Vanessa seria sua para sempre. Não que isso fosse muito. Afinal, viver quinhentos anos fazia o tempo voar. Na verdade, ela quebrara o tédio da imortalidade com a sua existência frágil. Uma exótica distração. Em seu descanso, sonhara com ela, figura etérea, o sangue fluindo vermelho-vivo através da artéria aberta no pescoço lívido, escorrendo por sua língua e boca, alimentando-o com vida, volúpia e sabor. O sabor da vingança.
Quando entrou no apartamento, tarde da noite, Vanessa o esperava vestindo apenas uma insinuante camisola de seda preta, que deixava entrever praias brancas de pele macia. Os olhos dela transbordavam de obsessão castanha. O mesmo olhar com que, aos quinze anos de idade, ela o fizera jurar que a transformaria. Ser como ele. Permitira que ela vivesse apenas para isso. Arrancara-a dos braços mortos dos pais, ainda bebê, e a preparara para que ela fosse a sua Nêmesis, a vingança encarnada, seu flagelo. Agora, faltava pouco. O ritual se estenderia muito além da proteção da noite e, ao final do terceiro dia, ela renasceria sedenta e bela. Ganharia, como presente, uma presa especial para aplacar o seu desejo de sangue. Seu próprio tio Jonas, o rosto que foi gravado a fogo na mente de Juliano, o maldito padre que destruíra seu irmão Samir. Padre Jonas, que acreditava que a sobrinha fora morta junto com os pais, descobriria então o real paradeiro dela, e teria sua última e dolorosa decepção. Vanessa o tirou de seu transe, conduzindo-o pela mão em direção à cama, que havia sido deslocada para o centro do recinto. Saindo de cada um dos pés de sua estrutura de metal, grossas cordas repousavam emboladas sobre o colchão.
– Para que são? – Juliano perguntou, abafando o riso.
– Para que você me amarre – ela respondeu, dando de ombros – Sei que não tem a menor necessidade, mas, nos meus sonhos, é assim que acontece...
– Como quiser – ele aquiesceu, beijando-a com paixão.
O beijo de Juliano fez com que ela lembrasse de cada abraço, beijo e carinho que recebera dele desde a infância. Imagens delirantes assaltaram sua mente, o rosto dele misturando-se ao de seus pais. Deixou que ele explorasse seu corpo com a língua gélida, enquanto a despia devagar. Rolou com ele na cama, lutando para o libertar de suas roupas. Braços, peito, costas e pernas revelaram-se, pouco a pouco em sua palidez doentia. Movia-se, provocante, exibindo o próprio pescoço em uma dança silenciosa. Podia ver o desejo ardente nos olhos dele, agora vermelhos. Seus lábios entreabertos retraíram-se em um esgar sequioso. O momento estava chegando.
Ele a amarrou com firmeza, braços e pernas formando um X na cama. Indefesa, ela fechou os olhos e esperou pela mordida. Assassino! Isso é o que ele era! Ela era pequena demais, mas a imagem nunca saíra de seus sonhos. Ele matara seus pais a sangue frio, apenas para tomá-la para si. A mordida veio cruel, dilacerando seu pescoço. A dor fria espalhou-se, e ela teve que usar toda a repulsa que sentia por ele para não desmaiar. Sentiu-o sugando seu sangue com voracidade, e isso trouxe novo fôlego ao seu ódio. Concentrando-se, utilizou toda a força que restava em seu corpo para puxar as cordas atadas aos seus braços, na esperança de que o tempo transcorrido até então fosse o bastante. Uma a uma, as cortinas soltaram-se do teto e despencaram para o chão, abrindo caminho para que os raios alaranjados do sol nascente invadissem o apartamento. Juliano gritou em agonia, seu corpo incendiando-se como o tecido negro das cortinas ao encontrar as velas.
O calor das chamas que a consumiam era libertador. A dor, reconfortante. Ela sorriu, satisfeita, enquanto contemplava o último amanhecer de sua vida.
Quinta-feira, Outubro 29, 2009
Reflexões
Edgar Allan Poe
Preciso me livrar desse outro eu que há em mim, sufocado, engasgado. Que me olha meio de lado no espelho, ávido pra sair. Ele apenas espera por uma fração de segundo, um descuido ou distração, para assumir o controle, escurecendo-me os olhos para que possa usá-los, roubando-me o vigor das mãos. Fico prisioneiro em meu corpo, vagamente consciente da minha triste sina de arauto, perdido em meio a pensamentos que não são meus. Mil e uma vidas paralelas construídas de imagens, sons e mais uma força desconhecida que irrompe inquieta, ardente, e só se acalma ante o estrondoso cair do ponto final. Obtuso e imerso em uma sucessão de vazios...
Bruno encarava a linha interrompida, incapaz de continuar a escrever. Como em todas as outras vezes, o que o impedia não era a falta de idéias, mas a fragilidade do próprio texto. Tudo o que conseguia era registrar um arremedo falho e inconclusivo do que passava pela sua cabeça. A essa altura, não sabia mais dizer se o que pensava valia a pena. Largou a caneta.
Levantou-se e caminhou pelo minúsculo apartamento como se pudesse encontrar algum conforto nas paredes nuas e descascadas de umidade. Só conseguiu sentir-se pequeno e sozinho. Não tinha nada além dos poucos pertences que o seu emprego medíocre permitira comprar. Seu único luxo era um espelho de corpo inteiro pendurado em uma das paredes.
Sorriu para o homem opaco refletido nele. Não era nada feio. Na verdade, faltava habilidade para se relacionar com as mulheres. Também não tinha muitos amigos, era tímido demais para isso. As olheiras fundas se destacavam na palidez do seu rosto, fazendo com que parecesse ter trinta e oito anos ao invés de trinta e dois. Tentou imaginar uma vida nova para si, mas seu desânimo o traiu. Tudo parecia impossível demais. Fez uma careta para si mesmo, e observou com ironia a imagem perfeita refletida no espelho. De todos os aspectos da sua vida, esse parecia ser o único sobre o qual ainda tinha domínio. Não importava o que fizesse, seu clone especular deveria imitá-lo.
Divertiu-se por algum tempo obrigando o seu reflexo a fazer poses ridículas, pelo simples prazer de estar no comando. Mas por fim achou tudo aquilo muito triste e tomou uma decisão. Pegou sua navalha e colocou-a contra o pescoço. Mataria a si mesmo e ao seu reflexo miserável. Encostou a outra mão na superfície do espelho, tocando o seu outro eu em um gesto melancólico de despedida.
Os dedos do seu reflexo fecharam-se com violência por sobre os seus. Os olhares se encontraram e Bruno sentiu a realidade distorcer e rodopiar à sua volta, como se fosse possível piscar sem fechar os olhos. No momento seguinte, a mão que segurava a navalha afastou-se devagar, por vontade própria. Os dedos afrouxaram a pressão sobre o cabo, e a lâmina escapou para o chão. O entrelace desfez-se e os braços abaixaram-se em sincronia. Sentiu sua boca mexer, mas foi o Outro que falou. “Desculpe, tive que agir. Você estava denegrindo a MINHA imagem!”. Seus olhos agora brilhavam com energia.
O Outro ajeitou o cabelo e Bruno, impotente, viu-se imitando o gesto. “Não deve ser difícil me sair melhor do que você!”, disse em tom de provocação, dando uma piscadela marota antes de virar de costas para o espelho. Bruno não pôde sequer olhar enquanto seu outro eu saía para começar uma vida nova.
Quarta-feira, Outubro 21, 2009
Mistério em Mallorca
Brace yourselves for the fury of the ocean wants its toll”
Fairyland – “Master of the Waves”
“Impossível!”, pensou o Inspetor Ortiz, caminhando em círculos pelo apartamento enquanto repassava mentalmente todos os detalhes da investigação. Ao entrar para arrumar o quarto, a camareira do hotel havia encontrado Johnny O’Doe morto sobre a cama. Ele estava roxo, com os músculos todos contraídos. As articulações da mão estavam esbranquiçadas de esforço, como se ele tivesse tentado se agarrar, literalmente, à vida.
Johnny tinha trinta e dois anos e era muito conhecido no mundo, tanto pela sua capacidade de lotar estádios com seus shows, quanto pela sua disposição para festas e bebedeiras. Viera à Espanha de passagem, apenas para receber um prêmio em Mallorca. Festejou a noite inteira, voltou ao hotel sozinho, e nunca mais acordou.
O relatório do legista foi tão assustador que o comissário optou por mantê-lo em sigilo. Apesar das especulações da imprensa girarem em torno disso, não foi encontrado nenhum traço de drogas em seu organismo. Seus pulmões estavam cheios de água salgada. Havia vestígios de areia de praia no nariz e sob as unhas, mas uma análise comparativa chegou à conclusão de que não eram de nenhuma praia da Espanha. A equipe forense esquadrinhou o quarto três vezes, mas não encontrou nenhuma pista. Nada. Tudo estava impecável. Nenhum sinal de arrombamento ou luta, nem de que o corpo fora transferido para a cama.
Sentado no chão do quarto, com a cabeça entre as mãos, Ortiz ficou horas tentando rever a cena do crime de diferentes ângulos, em busca do elemento faltante que daria uma explicação para tudo. Ele tinha que estar ali em algum lugar. Lembrou do seu treinamento na Academia de Policia, quando lhe disseram que todo investigador veterano era assombrado por um crime insolúvel. Sentiu um gosto amargo subir pela garganta. Talvez esse fosse o seu.
Sentindo-se derrotado, Ortiz resolveu voltar para a delegacia. Lacrou de novo a porta do quarto e caminhou até o elevador absorto em seus pensamentos. No caminho, cumprimentou com um aceno automático o faxineiro que lavava o chão do corredor.
O faxineiro acompanhou o inspetor com o canto dos olhos, sem interromper seu trabalho. Quando a porta do elevador se fechou, ele suspirou aliviado: ninguém percebera nada. Então ele soltou o primeiro botão da camisa para admirar o objeto que trazia pendurado no pescoço e que, de algum modo, conseguira subtrair do corpo do músico antes da polícia chegar. Ele contemplou fascinado o enorme medalhão de prata cintilante que pendia da corrente de elos grossos. Haviam seis pedras verdes dispostas em círculo engastadas na superfície do disco, emolduradas por relevos parecidos com letras, mas que ele não sabia dizer o que significavam. No dia seguinte, iria procurar um antiquário no centro. Esperava conseguir uma boa quantia por ele.
Naquela noite, em seu apartamento no subúrbio, o faxineiro caiu em um sono profundo. Assim como Johnny O’Doe, esqueceu-se de tirar o medalhão do pescoço.
Sonhou que estava em uma praia de areias brancas. Atrás dele, uma cidade prateada brilhava sob a lua cheia. Não havia visto nada assim tão bonito em toda a sua vida. A cidade ancestral e misteriosa parecia tremeluzir junto com as estrelas do céu. Um vento forte desgrenhou os seus cabelos, e ele virou-se novamente para olhar o mar. Compreendeu que estava em uma grande ilha. O mar, negro e denso como a noite, envolvia a costa em um abraço frio. Somente os pequenos reflexos da lua na água indicavam movimento. E foi aí que ele percebeu que algo estava errado. O horizonte se aproximava rapidamente, alto demais. Uma imensa muralha negra de água e fúria, que lhe parecia ser cinco, dez, vinte, muitas vezes maior que ele. Tentou acordar, mas não conseguiu. Tudo aconteceu rápido demais. O mar atingiu a ilha e obliterou a cidade, como se o oceano se fechasse sobre ela. Ele tentou agarrar-se como pode no chão, nas árvores, nas construções prateadas, mas a água implacável castigou o seu corpo e o jogou de um lado pro outro, de modo que ele nem sabia mais para que lado ficava o céu. Estava ficando sem ar.
Na manhã seguinte, um novo corpo jazia retorcido sobre a cama em um quarto trancado por dentro. Mas para esse, ninguém deu importância. Quatro dias depois, o senhorio arrombou a porta por causa do mau cheiro. Enojado, ele só se aproximou da cama porque algo muito brilhante lhe chamou a atenção. “Isso deve bastar para compensar os três meses de aluguéis atrasados!”, disse para si mesmo, pegando o medalhão com o seu lenço e o guardando no bolso do seu casaco. E então ligou para a policia.
Quarta-feira, Outubro 14, 2009
Microcontos
Sexta-feira, Setembro 25, 2009
Ilícito
Sexta-feira, Setembro 18, 2009
Coisas Simples
Quinta-feira, Setembro 17, 2009
Olha que Blog maneiro!

2. poste o link de quem te indicou.
3. indique pessoas de sua preferência.
4. avise o indicado.
5. publique as regras.
6. confira se os blogs indicados repassaram os selos e as regras.
Segunda-feira, Setembro 07, 2009
Doce, mas não tão doce
Sábado, Setembro 05, 2009
Vale a pena ficar de olho nesse blog!

Segunda-feira, Agosto 24, 2009
Prólogo
As sombras... a dor... como eu odeio quando isto acontece! Minha cabeça está a ponto de explodir. Tudo fica tão estranho: as cores...as pessoas...
Meu Deus! O que é isto?
Não, papai, não me mach.....
...
– Ei! O senhor está bem, moço?
Abri os olhos, tentando responder a pergunta, mas dos meus lábios saíram apenas umas poucas palavras sem sentido. O mundo não passava de um borrão tentando ganhar uma forma tangível.
– Moço? Ah, que bom... o senhor está vivo!
Quis dizer que isso não representava grande coisa, porque minha vida tinha se tornado um inferno de uns tempos pra cá: Stella me deixou, fui chutado do emprego, e ainda por cima começaram essas malditas dores de cabeça... é, a situação não estava nada boa. Contive minha língua quando o borrão na minha frente se transformou numa menininha de uns seis anos com um olhar curioso. Não, a criança não tinha culpa do que estava acontecendo comigo.
– Moço?
– Oi! – disse ainda meio zonzo – O que aconteceu?
– O senhor vinha andando e, de repente, começou a ficar esquisito. Então caiu sentado aqui, não lembra?
Não, não me lembrava. Quando as dores começam, minha visão vai ficando distorcida e eu perco a noção do que estou fazendo.
Olhei ao redor: pessoas passando apressadamente. Olhei o relógio: meio dia e meia. Não era de se admirar que ninguém mais tivesse parado para ver o que havia acontecido. Hoje em dia, as pessoas estão entretidas demais com seus próprios problemas. Por que eu, um Zé-Ninguém no meio da multidão, mereceria atenção?
– Já estou melhor! – esforcei-me para dizer. Embora já sentisse a dor indo embora, sabia que ela voltaria de novo. Talvez à noite. Talvez antes. – Onde está sua mãe?
Ela apenas apontou displicentemente com o polegar por sobre o ombro. Olhei naquela direção e pude sentir o gosto amargo da ironia em minha garganta: eu havia caído junto à porta de uma farmácia!
– Levanta, moço! – disse a menina me puxando pelo braço.
No instante em que a menina me tocou, fui tomado por uma angústia incrível. Levantei-me, tentando esconder as lágrimas que escorriam da minha face.
– Por que o senhor está chorando?
– ... não sei.... – murmurei. E de fato não sabia. Apenas sentia medo.
....não, por favor, papai.... não me machuque...
Era um como um eco em minha mente. Na primeira vez, achei que fosse a dor de cabeça, mas agora era terrivelmente real.
Olhei para a menina e encontrei seus olhos intensamente verdes. Subitamente, eles saltaram para dentro de mim, como uma piscina translúcida, e eu vi. Aquele pequeno anjinho mostrava marcas permanentes de sofrimento, como manchas em um lençol inteiramente branco. Era como se as memórias fossem minhas, mas eu sabia que não eram.
Papai chegou em casa tarde. Ia correndo até ele, mas Mamãe me disse pra ficar quieta. Disse que Papai estava muito cansado e que eu tinha que ir deitar... eu só queria dar um abraço nele!
Estava com saudades, mas obedeci Mamãe. Lá do meu quarto ouvi Papai gritar com ela, dizendo que ela não prestava pra nada...
Não parecia Papai. Ele estava bravo com ela porque ela havia esquecido de comprar seus cigarros.
Resolvi ir espiar. Desci as escadas e vi Mamãe chorando, com as mãos no rosto... ele havia batido nela.
Fui em direção a ela, mas Papai me segurou... me disse pra ir deitar. Sua voz estava esquisita, e ele estava cheirando a cerveja. ......por favor, Papai, não me machuque....não ..... NÃO...!”
– Sam!!!
A criança desviou o olhar, assustada. Uma loura de uns trinta anos saiu da farmácia apressadamente e, literalmente, arrancou a criança da minha frente.
– Samantha, – ralhou a mulher, indignada, enquanto acenava para um táxi – quantas vezes já lhe disse para não falar com estranhos?
– Mas eu estava ajud.......
– Nada de “mas”! Vamos pra casa e hoje não vai ter TV depois da janta!
O carro encostou, eu precisava agir rápido. Segurei a mulher pelo braço. Ela voltou-se, confusa.
– Sua filha estava apenas me ajudando. – disse antes que ela pudesse gritar – Eu caí e ela me ajudou a levantar, foi só isso.
A mulher me fitou um instante através de seus óculos escuros. Eu sabia o que havia por detrás deles, embora ela se esforçasse para esconder.
– Isso é verdade, Sam? – perguntou, meio insegura.
– Sim, Mamãe.
– Tudo bem, então. Vamos embora, filha – decretou, abrindo a porta do táxi.
– Espere! – gritei, me aproximando dela – Por que a senhora não foi à polícia?
A mulher empalideceu. Sam não demonstrou ter ouvido o que eu falei. Estava entretida demais observando um papel de bala que flutuava ao sabor da brisa de outono.
– Não sei do que o senhor está falando – disse-me, sem graça.
Sem dizer mais nada, enfiou a menina no carro e entrou, batendo a porta.
– Nós sabemos que você sabe, não é, Sam? – pensei comigo mesmo enquanto observava o veículo se afastando.
Quinta-feira, Julho 23, 2009
Para sempre
Domingo, Julho 12, 2009
A Prisioneira
A silhueta negra do Abade se destacava contra a luz das tochas dos cruzados. Havia centenas delas. O ar estava denso e insuportavelmente quente, o que deixava os cavalos ainda mais agitados. Ele ergueu os braços em direção à cidade e liberou o ataque:
– Neca eos omnes. Deus suos agnoscet!
E os cavaleiros partiram, abrindo uma trilha de sangue e corpos mutilados até os portões da cidade. As tochas vieram logo atrás, tocando tudo que ainda se mexia. Um cheiro acre e pungente tomou o ar. Pessoas em chamas corriam pelo campos aos berros, não dava mais para distinguir se eram homens, mulheres, idosos ou crianças. Os olhos do Abade brilhavam de satisfação: Béziers caíra, mas ele iria até o fim. O sorriso que se abriu em seu rosto não era humano.
Jean-Baptiste acordou gritando. Estava banhando em suor. Eram quase duas da manhã, mas ele sabia que passaria o restante da noite em claro. O problema era o cheiro. Podia lavar o rosto e as mãos, banhar-se em perfume, mas o cheiro de carne queimada não ia embora. As crises de insônia estavam ficando cada vez mais freqüentes, e Deus havia tempos não atendia mais as suas preces para que trouxesse o sono de volta. Testemunhara coisas demais. Apanhou na gaveta um lenço perfumado, cobriu com ele o nariz e a boca, e deixou-se ficar na cama contemplando o teto, tentando ouvir o que se passava lá fora. Aparentemente, ninguém se alarmara com o seu grito. Conseguiu distinguir ao longe a movimentação da patrulha noturna, quebrando com passos regulares a monótona sinfonia das criaturas da noite. Sentiu uma ilusória, porém reconfortante, sensação de segurança.
Por volta das três da manhã, bateram vigorosamente em sua porta, o que fez seu coração disparar em agonia: não ouvira ninguém se aproximar. Cautelosamente, foi até a porta e espiou pela fechadura: era o miúdo noviço que estava em vigília na masmorra. Destrancou a porta e a abriu o suficiente para passar sua cabeça.
– Pois não?
– Sss.....Senhor, temos uma nova prisioneira – o noviço suava frio e gaguejava, visivelmente alterado – Pep...pediram que eu viesse buscá-lo!
– Aguarde um instante, vou me vestir.
Enquanto vestia rapidamente sua batina negra, Jean-Baptiste ponderou que o noviço talvez estivesse desconfortável em acordar um superior no meio da noite. Melhor assim: seu segredo estava protegido. O Inquisidor é um instrumento da vontade de Deus, e as pessoas poderiam interpretar os seus pesadelos e gritos noturnos como um sinal de que Ele o abandonou. Seria o seu fim.
O padre deixou o seu quarto e, juntamente com o noviço, seguiu em direção à entrada da masmorra. Enquanto atravessavam o pátio, o rapaz lhe fez um breve relatório da situação. Em uma pequena aldeia chamada Berriac, nas imediações de Carcassonne, homens que iam caçar na floresta começaram a sumir sem deixar pistas. Quando o número chegou a vinte e cinco, as mulheres da aldeia se armaram de facões e machados e organizaram uma expedição para tentar descobrir o que estava acontecendo. Em um ponto de difícil acesso, onde um córrego caudaloso cortava a floresta, encontraram uma cabana em péssimas condições. Dentro dela, encontraram uma mulher cozinhando um coelho com ervas. O seu aspecto e as condições do lugar não deixaram dúvidas às mulheres de que tinham encontrado a responsável pelo desaparecimento dos seus homens. Ela foi amarrada e trazida até aqui. Algumas mulheres seguiram o córrego à procura dos corpos, mas nada foi encontrado.
Na ante-sala da masmorra, a confusão era generalizada. As mulheres enlouquecidas gritavam pela execução da bruxa na fogueira. Os carcereiros e auxiliares, bem como outros dois padres, tentavam contê-las e conduzí-las para fora dali, mas também discutiam entre si sobre as providências a serem tomadas. A cabeça de Jean-Baptiste ainda latejava por causa do pesadelo e do perfume que usara para tentar esquecer aquele cheiro de carne queimada. Com um longo suspiro, começou a cumprir o seu papel.
– Basta! – ordenou com uma voz límpida e potente.
As mulheres se calaram, assustadas. Antes que elas voltassem a protestar, ele continuou.
– Já fui informado da situação e tenho muito trabalho a fazer! Levem as mulheres para o pátio e dêem-lhes água e comida. Saiam todos!
Discretamente, fez um sinal para que dois dos carrascos montassem guarda na porta pelo lado de fora. Não queria de forma alguma que as mulheres tentassem entrar ali de novo, tudo devia ser feito na mais perfeita calma. E então ele desceu as escadas que levavam à masmorra.
...
Oculto nas sombras da masmorra, Padre Jean-Baptiste observava silenciosamente a criatura na cela. Ela estava encolhida sobre a palha amontoada em um dos cantos, cabeça baixa, abraçando os joelhos. Suas roupas haviam sido completamente removidas, como manda o protocolo, e ela batia os dentes e soluçava baixinho por causa do frio desumano, balançando ritmicamente o seu corpo pra frente e para trás. Sua pele muito branca se destacava contra o cinza sujo daquele lugar e seus longos cabelos cor de fogo, caídos sobre os ombros, escondiam completamente o seu rosto. Não haviam marcas aparentes em seu corpo: graças a Deus, ela ainda não havia sido tocada.
O religioso deixou-se ficar um longo tempo ali, de olhos semicerrados, repassando mentalmente as informações que havia recebido. As florestas haviam se tornado lugares muito perigosos depois que os hereges foram expulsos de Carcassonne. A lembrança do massacre de Béziers deixara os fora-da-lei ariscos, com pavor de serem capturados e, conseqüentemente, muito mais violentos. Havia muitos relatos de desaparecimentos nas florestas do Languedoc, a mulher poderia não ter nada a ver com isso. Mas, pelo mesmo motivo, não conseguia entender como ela havia conseguido sobreviver sozinha na floresta. De qualquer modo, iria obter a verdade. Foi para isso que os monges dominicanos o treinaram secretamente há muito tempo atrás, antes mesmo da Inquisição existir oficialmente. Ele tirou do pescoço uma corrente de prata da qual pendia uma única chave prateada, a chave-mestra das celas, destrancou a porta e entrou, fechando-a atrás de si.
Assustada com o barulho repentino, a mulher ergueu a cabeça, e encarou o padre com seus grandes olhos azuis. Eles brilhavam intensamente sob a luz bruxuleante das tochas do corredor. Jean-Baptiste conseguia ver o sofrimento neles, como uma mistura de agonia e impotência causada pelo frio. Colocando sua vigorosa mão sob aquele delicado queixo feminino, forçou-a a ficar de pé. Foi então que compreendeu, de uma vez só, porque o noviço estava tão alterado e porque as mulheres a tomaram por uma bruxa. A linda moça, alta e esguia, era muito jovem e tinha o corpo mais bonito que já vira na vida. Do seu lado esquerdo, a região entre o ventre e o dorso estava coberta de lindos desenhos tatuados em negro, semelhantes à runas, que se estendiam da linha da cintura até chegar na axila. O jeito gracioso com que os desenhos terminavam embaixo do seio e nas costas demonstravam cuidado e planejamento. Não eram símbolos mágicos conhecidos, nem marcações rituais. Nunca vira nada parecido nos seus vinte anos de guerra ao oculto e isso o intrigava profundamente.
Ao perceber que o padre olhava espantado para os desenhos em seu corpo, a mulher começou a se debater. Com uma manobra precisa, Jean-Baptiste girou-a de costas travando-lhe ambos os braços atrás do corpo e, jogando seu peso sobre ela, prensou-a de encontro à parede de pedra fria. Ele podia sentir o corpo inteiro dela bater contra o seu, gelado e nervoso. Seu cheiro tinha algo de doce, ainda que selvagem, e lhe trouxe uma sensação que acreditava ter sido apagada a muito tempo: desejo. Não era difícil imaginar o que aconteceria se os caçadores da aldeia realmente a tivessem encontrado sozinha em sua cabana na floresta. Sussurrou diretamente em seu ouvido:
– Pare, ou terei que acorrentá-la!
Indefesa, ela lentamente foi se acalmando. Sua respiração entrecortada desacelerou enquanto o padre lutava para pensar com clareza.
– Fique quieta. Vou soltá-la. – ele pediu.
Afastando-se um passo, percorreu com os dedos as linhas, de alto a baixo, tentando descobrir como haviam sido feitas. Perguntou-lhe:
– O que significam esses desenhos?
Ela começou a chorar baixinho, com medo de fazer barulho. Foi então que ele viu, no seu tornozelo esquerdo, uma marca arroxeada inconfundível, sinal de que alguém a mantivera presa. Daria um belo brinquedo particular para um sádico, pensou consigo mesmo.
– Quem fez isso com você? – também não obteve resposta.
Podia vê-la tremer em desespero. Virou-a e puxou-a para junto de si. Ela parecia engasgada, como se fosse falar alguma coisa.
– Pode confiar em mim. – ele disse, embora soubesse que essa história dificilmente ia acabar bem pra ela.
Ela soltou um gorgolejar meio sinistro e caiu em prantos, sua cabeça contra o peito do religioso. Não conseguia falar. Ela era muda.
Ao compreender isso, Jean-Baptiste sentiu-se subitamente cansado. Poderia até torturá-la, mas não conseguiria nada. Nem respostas, nem uma confissão. Como também não haviam provas concretas de bruxaria, teria que submetê-la à Ordália da Água: ela seria lançada em um lago profundo com uma pesada pedra presa ao seu tornozelo, para que a água fizesse seu julgamento. Se ela fosse inocente, afundaria e se afogaria, caso contrário, flutuaria e seria resgatada apenas para ser queimada na fogueira. Em ambos os casos, isso significaria que o mistério dos desenhos permaneceria sem respostas para sempre. Uma sombra passou pelo seu rosto ao lembrar que em todas as mais de quarenta Ordálias que presidiu, todos os réus se afogaram. Apenas uma vez vira um acusado se erguer da água, mas aquilo fora um erro: antes de ser lançado na lago, todos já haviam percebido que ele não era mais humano. E o que se sucedeu foi uma tragédia que deu muito trabalhou para ser oculta.
Segurou o rosto da garota com as duas mãos, obrigando-a a enfrentar os seus olhos investigadores. Não encontrou maldade naquele azul cristalino, apenas medo. Sentiu novamente aquele misto de curiosidade e desejo assomando contra seu estômago e então tomou uma decisão sombria.
Abrindo a porta da cela, empurrou a ruiva para fora, em direção aos aparelhos de tortura. Situações extremas exigem medidas extremas, era o que seu antigo mestre lhe dizia. Conduziu-a com braço firme por entre os aparelhos até chegar numa Donzela de Ferro enferrujada, instalada contra a parede do fundo da sala. Na altura do umbigo havia um delicado buraco de fechadura. Jean-Baptiste inseriu ali a chave-mestra e a girou. Puxou então a porta, que se abriu sem esforço. O interior era muito escuro, não havia nem sinal dos temidos pregos ali. Sem dizer sequer uma palavra, enfiou a mulher ali dentro e, sem se importar com o terror estampado nos olhos dela, acionou um pequeno mecanismo interno. A porta fechou-se sobre eles com um estrondo, e a escuridão que os espreitava pareceu rodopiar.
...
O religioso empurrou a porta do aparelho novamente, e ele se abriu para a escuridão. Apoiando o braço esquerdo contra a parede para se guiar, puxou a mulher para junto de si. Assim que saíram, a porta bateu com um estrondo atrás deles, trancando-se novamente. Não estavam mais na masmorra. Estavam em um longo corredor escuro que conduzia para fora da fortaleza, um pequeno artifício que possibilitava introduzir secretamente na masmorra determinados prisioneiros.
Jean-Baptiste arrastou-a às cegas ao longo do túnel, que terminava em uma caverna na entrada da floresta. Logo mais dariam pela falta deles, e as buscas começariam. Continuaram avançando floresta adentro, e só pararam pouco antes do amanhecer, quando já estavam bem longe.
Ele havia lhe dado a sua batina para que ela pudesse se proteger minimamente do frio, e tremia recostado a um tronco de árvore. Ela aninhou-se ao lado dele, abraçando-o, e dormiu. Reconfortado pela sensação quente do corpo dela sobre o seu, ele logo adormeceu também.
...
Acordou sobressaltado, com o sol da manhã em seu rosto. Ao abrir os olhos, encontrou um par de olhos azuis que o admiravam. Os cabelos dela ardiam sob a luz da manhã, e ele descobriu que ela era ainda mais bonita longe da escuridão da masmorra. Antes que pudesse compreender o que estava acontecendo, ela beijou-lhe os lábios com doçura e ele foi tomado pelo desejo. Dessa vez, sem chance alguma de controle. Ela se ergueu sobre ele, tirou a batina e o abraçou. E eles rolaram pela relva, entregues um ou outro.
Jean-Baptiste acariciava a pele tatuada dela em veneração, como se tomasse conta de um grande tesouro. Sentiu seu corpo todo entorpecer em êxtase, e ele desejou que esse momento durasse para sempre. Não conseguia mais se mexer, mais isso não importava, estava totalmente enfeitiçado. Ela segurou o seu rosto com as duas mãos e o encarou, sua própria expressão distorcida de prazer, e ele sentiu como se ela o envolvesse completamente. De alguma forma, ele estava dentro dela até a metade, desaparecendo pouco a pouco, mas não havia outro lugar em que quisesse estar.
...
Ela estava deitada na relva nua e sozinha. Seu corpo ainda estremecia de prazer. Ficou um longo tempo ali, contemplando o céu enquanto sentia a energia roubada do padre espalhar-se pelo seu corpo, renovando suas forças. Estava livre novamente. Então ela partiu, desaparecendo no interior da floresta. Encontrar novas vítimas seria apenas questão de tempo.
Quarta-feira, Julho 01, 2009
hai kai da beleza do choro contido
Segunda-feira, Junho 15, 2009
Aposta
Domingo, Junho 07, 2009
Reencontro
"Blank face in the windowpane
Made clear in seconds of light
Disappears and returns again
Counting hours, Searching the night"
Opeth ‘Windowpane’
O apartamento já está quase vazio. Sobraram apenas o pequeno sofá e algumas fotografias emolduradas na parede. Esse excesso de espaço me deixa ainda mais ansioso, mas tudo que eu posso fazer agora é esperar.
Pela janela observo as crianças da vizinhança brincando no parque próximo, até que, com chegada da noite, elas retornam às suas casas como se estivessem sendo puxadas por linhas invisíveis, deixando a rua deserta.
Silêncio.
Subitamente eu tomo consciência do espaço ao meu redor. O apartamento inteiro parece estar vivo, consigo sentir sua respiração sob meus pés. Como um eco da minha percepção, a brisa noturna entra pela janela e arrepia até o último pêlo do meu corpo. Sinto na pele o farfalhar das folhas das árvores no parque, as batidas do coração de uma ave noturna, o orvalho se condensando nas janelas das construções vizinhas. Fecho os olhos e sinto o mundo convergir pra dentro de mim com violência, minha percepção se estende vertiginosamente por quilômetros como se as fronteiras físicas se desfizessem com a brisa gelada. De repente, bem próximo a mim, uma certeza.
Abro os olhos e viro para o interior da sala. Ela está lá, parada, a cabeça encostada no batente da porta. Morena, alta, pele muito branca. Olhando pra mim muito curiosa, com seus olhos negros profundos e serenos. Um olhar que eu conhecia bem.
– Você me encontrou!
– Você foi sutil como um terremoto.
– Ainda assim não tinha certeza que funcionaria.
– Aqui estou!
Ela se aproxima e me abraça, encostando a cabeça no meu peito. Um toque frio que me deixa completamente à vontade, me transportando no tempo e no espaço.
Vinte anos atrás, uma criança completamente assustada num hospital. Tubos, rostos preocupados e dor, muita dor. Os remédios que me deram fizeram meus cabelos cair, a boca tinha sempre um gosto amargo. Vinte semanas de paredes brancas e comida sem gosto, que quase nunca parava no meu estômago. Minha cabeça doía a ponto de explodir, minha vista turvava e, se eu estivesse em um dia de sorte, desmaiava de dor. Sempre que eu acordava dessas crises, uma garotinha da minha idade estava ao meu lado, me olhando com um par de olhos negros ansiosos, a mão sobre o meu rosto. Ela ficava conversando e brincando comigo até alguém entrar no quarto, quando ela dava um jeito de sumir.
Seus dedos percorrem suavemente meu rosto.
– A vida foi generosa com você.
– Eu nunca achei que eu fosse capaz de sobreviver àquilo.
– Nem eu!
O fato é que melhorei. Os médicos resolveram tentar mexer na minha cabeça pra ver se davam um fim naquilo. Ainda lembro de ter acordado assustado depois da cirurgia, ligado em um monte de aparelhos. Ela segurava minha mão firmemente. Olhou fundo nos meus olhos, me acalmou e me acariciou até o sono me levar novamente. Nunca mais a vi.
– Eu nunca consegui te esquecer!
– Eu nunca me afastei completamente...
– Então todos aqueles sonhos.... era você?
– Sim...
O seu abraço fica mais apertado, meu coração dispara, os profundos cortes em meus pulsos doem. Embora o sangue já comece a faltar em minhas veias, eu não poderia me sentir mais vivo. No meu íntimo apenas desejo que esse momento dure para sempre.
Mas a brisa voltou a entrar pela janela, enchendo a sala com a vida lá fora. Sinto um carro negro parar em frente ao prédio. Quatro homens descendo apressados. É ridículo como eles tentam não fazer barulho. Um deles está forçando a porta. Descobriram o que eu havia feito, afinal.
– Eu preciso ir – ela diz, enterrando ainda mais a cabeça no meu peito.
– Então isso é um adeus?
– Não! – ela disse olhando bem dentro dos meus olhos – Dessa vez, você vem comigo.
Então ela me beija, e o toque dos seus lábios pára o tempo, como se todo o sentido da vida estivesse aqui, nesse instante. Deixo minha alma seguir o seu destino enquanto ela saboreia cada sensação vivida, cada lembrança, cada segredo em mim. Eu sou completamente dela agora.
As batidas na porta não encontram resposta.
Dentro do apartamento, não vão encontrar nada. Apenas manchas de sangue no carpete.
Terça-feira, Junho 02, 2009
Sala de Embarque
Domingo, Maio 31, 2009
Imperfeitos
Quarta-feira, Maio 20, 2009
O Legado
"Now that you are gone casting shadows from the past /You and all the memories will last"
Se alguém visse aquela figura frágil caminhando pelo corredor levando nas mãos uma caixa de papelão, tomaria-a por uma assombração, sofregamente dirigindo-se para a ala norte da construção. As lembranças estavam por toda parte: nos quadros na parede, na poltrona em frente à lareira e até mesmo no doce aroma de tabaco que já se dissipava no ar.
Trêmula, estancou em frente a uma porta trancada, no final do corredor. Hesitou. Sabia que o que viera buscar estava do outro lado, mas também sabia que não suportaria entrar no estúdio outra vez. Pensou por um momento, respirou fundo e, por fim, girou a maçaneta.
Ali estavam elas. Todas as fotos de Sérgio, cobrindo painéis, paredes, móveis. Para ele, paixão, hobby, compulsão. Para ela, seu último legado, tudo o que ele lhe deixou. Não podia deixá-las ali.
Cláudia aproximou-se lentamente do primeiro painel. Retirou o alfinete que prendia a primeira foto e colocou-a na caixa, sentindo seu coração despedaçar-se. Temia não conseguir terminar.
Colocando as fotos, uma por uma, na caixa, ela foi percebendo o porquê da sua beleza inquietante. Elas transpiravam vida, eram naturais. Sérgio nunca pedira para bater uma foto, tampouco que lhe fizessem pose, por isso elas continham sentimentos, expressões, alegrias, tristezas, decepções. “Uma foto é instante de uma vida inteira eternizado em um pedaço de papel.” – era o que ele dizia. E era o que se sentia ao contemplar sua obra.
Ele fotografara tudo: festas de família, passeios, viagens, visitas. Nunca fora muito impulsivo, mas vivera intensamente todos os momentos da sua vida, sempre com a sua câmera a tiracolo, registrando tudo. Quando lhe perguntaram porque ele fazia isso, ele respondeu apenas: “A vida é fugaz”. Mas que diabos! Por que ele tinha de estar certo? Por quê?
As lágrimas de Cláudia caíram sobre a caixa, juntando-se ao seu passado, às suas lembranças. Ela nunca se perdoou por tê-lo deixado ir sozinho para a casa da mãe naquela noite. Ela ainda se lembra do telefonema da polícia, do bombeiro entregando-lhe a câmera de Sérgio com a objetiva quebrada, que ela ainda guarda consigo. As fotos vão se somando na caixa. Tantos rostos, tantos lugares, não apenas uma, mas muitas vidas congeladas ali, em breves instantes. Pequenas partes de um todo muito maior.
“Vidas passam, lembranças se perdem, mas são os ideais que constróem o mundo. Estes não morrem jamais!”
O estúdio vai ficando vazio, irreconhecível, triste. Ela sabe que não voltará mais lá, assim como sabe que sua vida nunca mais será a mesma.
Cláudia colocou a última foto na caixa e ergueu-a nas mãos. Não havia mais nada a fazer ali. Antes, porém, de fechar a porta atrás de si, ela colocou a caixa no chão, tirou da bolsa a câmera de Sérgio e bateu uma foto do estúdio vazio.
“Ideais não morrem”, pensou, trancando a porta.
Quarta-feira, Maio 13, 2009
Eau de Toilette
A lata de cerveja escapou da sua mão, rolando para junto das outras. Todas vazias. Era assim que seus olhos pareciam estar também. O vento soprava em seu rosto, tentando acordá-lo. Mas ele já não estava mais sentindo. Seu corpo, que há pouco estava solidamente sentado no parapeito da janela, parecia estar precariamente equilibrado no beiral. Na outra mão, um cigarro aceso lançava suas cinzas no vazio. Espalhadas pelo vento, elas alcançavam o chão, doze andares abaixo, aleatoriamente, deixando pequenas marcas no piso que separa o prédio da piscina. Mas ele não as vê. Embora parecesse catatônico, sua mente estava agindo rapidamente, apenas interpretando de uma forma diferente o que acontecia ao seu redor.
A brisa gelada parecia correr sobre o seu rosto, áspero por causa da barba por fazer, como uma mão a brincar com seus cabelos, ora penteando-os, ora desarrumando-os carinhosamente. O calor de sua jaqueta era envolvente como um abraço. Dois braços enlaçando-o pelas costas e apertando-o firmemente contra o peito, soprando um bafo quente e aconchegante em sua nuca. Podia até mesmo sentir o contato da pele, macia como veludo, quente, familiar. O torpor causado pela combinação de bebida e nicotina descia-lhe pela espinha como a dormência do amor, fazendo-o desejar adormecer ali, ouvindo as batidas do coração de sua amada. Aquele perfume no ar... estava em toda a parte e em lugar nenhum. Dois sentimentos coexistindo tempestuosamente, deixando os rastros do seu perpétuo confronto. Do seu lado esquerdo podia sentir o vazio da liberdade, um mundo estranho e assustadoramente hostil, porém irresistivelmente emocionante. Do seu lado direito, o conforto e a segurança claustrofóbica do lar, com o tédio da rotina e a certeza de saber onde está pisando. As duas sensações eram assustadoras: sentir o perfume e saber que ele não está ali. Tudo o que ele queria era que o tempo passasse depressa, para ele não mais sentisse alegrias ilusórias. Não mais acordasse desejando trocar a realidade pelo sonho...
Aos poucos, os fogos começaram. Por todo o lado as pessoas abraçavam-se e beijavam-se, mas seus olhos apenas perceberam o fulgor das estrelas artificiais que acendiam e apagavam freneticamente. Pensou no brilho daqueles olhos que conhecia bem e há muito aprendera a amar. Ultimamente, vinha aprendendo a odiá-los também, mas apenas o suficiente para manter sua sanidade. Lembrou-se, em seguida, dos lábios bem desenhados que outrora sussurravam palavras doces em seu ouvido. De quem seria o seu beijo de Ano Novo? Atormentado pelo pensamento, ele fechou seus olhos e rezou. Rezou muito, mas o perfume só foi embora quando o sono veio.
Sábado, Maio 02, 2009
Happy New Year!
Terça-feira, Abril 28, 2009
A Dançarina de Flamenco
"She dances while his father plays guitar
She’s suddenly beautiful"
Counting Crows – "Mr. Jones"
Flamenco. Sensualidade. Força. Desejo. Um dia eu ainda vou fazer uma cagada por uma dançarina de flamenco. A música é inexplicavelmente complexa e bela. O ritmo é febril, pois é o ritmo do próprio corpo. Olhares, alma. Eu ainda vou ter uma dançarina só pra mim! Cabelos e olhos negros, pele morena. Isso, como aquela.
Meu Deus! Vou pegar mais conhaque... Pronto!
Eu fico louco com o espírito fogoso dessa dança. Paixão rude. O salto de sua bota parece estar pisoteando minhas vísceras, ela olha pra mim, e eu não consigo mais tirar os olhos dela. Quem quer princesinhas inocentes??? Essa mulher é um caldeirão fervente! Ela não tem dono, faz o que quer.
Outra dose de conhaque.
Ela não pára mais de me olhar... e se aproxima. Vem dançar na minha frente. Brinca com seu corpo, suas curvas, usa suas armas. O ritmo acelera, o sapateado rasga angustiado minha cabeça. Cada vez mais perto. Posso agora sentir seu perfume selvagem, silvestre. Ela está suada e linda! Em um de seus volteios, ela pára a centímetros de minha boca. Eu perco o controle e a tomo em braços.
Súbito a música estanca.
O violonista larga o violão e puxa uma faca. Brilhante, fria.
Um grito.
Minha boca está amortecida, mas não é o conhaque.
Ainda vejo o cigano pegar a mulher pelo braço e ir embora.
Estranho... a mulher parece ter a pele e o cabelo claros agora.
Há pessoas em volta de mim. Seus rostos estão aflitos, mas o meu sono está vindo tranqüilo. Do meio dos rostos turvos, uma figura nítida me puxa pela mão. É a dançarina morena. Ela sorri para mim e me abraça... ela é fria como a morte.

