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domingo, julho 25, 2010

Sem asas

Foto: Alejandro Hernandez

Ângelo,

Ao acordar, encontrei o teu recado escrito a sangue em meu espelho. “Eu odeio você!”. Só então percebi o corte recente em meu antebraço. Ardia, é verdade, mas o contraste das letras vermelho-vivo sobre a prata me entorpeceu. A caligrafia era inconfundível, mesmo traçada a dedo. Imaginei teu braço pesado a segurar a lâmina contra a minha pele, meus pelos arrepiando-se de instantâneo. Tua mão a rasgar-me a carne em fenda torta, fina e funda. A ferida latejando a cada bafejar de tua respiração acelerada. Tudo enquanto eu dormia. Ah, como eu queria ter sentido o teu dedo nodoso violar os meus tecidos! Tive você sob a minha pele, encharcando-se em meu sangue, e nem pude saboreá-lo em mim. Ao menos, sei que sentiu tanto tesão quanto eu estou sentindo agora. O travesseiro está manchado, então você esfregou meu sangue no teu rosto. Sei que isso te excita – fluidos, perversão, tudo o que é proibido –, enquanto meu delírio é a tua existência, as tuas marcas em meu corpo. Queria ser capaz de fazê-las eu mesmo, decretar minha independência de você. Mas isso me é impossível, pelo mesmo motivo que me impede de olhar bem no fundo dos teus olhos cinzentos e gritar tudo o que sinto. Não. Tenho que escrever. Sempre faltou-me a tua coragem. Enquanto eu despejava um caminhão de entulho sobre meus desejos, você buscava os teus à luz do dia. Nas profundezas desse aterro, descobri-me a desejar-te. A violência que o teu espírito pedia era o meu combustível, minha válvula de escape. Eu queimava. E a cada piranha que você retalhava, meu amor crescia mais e mais. Tantas vezes te visitei. Era isso que te virava do avesso, e fazia o teu ódio por mim aumentar. Foi por isso que você começou a fugir de mim e da fúria que eu te despertava. Mas saiba, meu amor, que não há mais saída. Vivo muito bem dos sinais da tua presença, e as tuas tentativas de ferir-me é que me fazem feliz de verdade.

Teu, em cada célula do corpo,
Guilherme
...

Ângelo despedaçou a carta e atirou os pedaços para o ar. Apesar do buraco em sua memória, era evidente que Guilherme passara por ali. O espelho fora limpo com afinco. O cinzeiro, sob o qual encontrara a carta, também. O quarto estava arrumado demais, não havia um único objeto fora de lugar. Ângelo bufava em fúria, os músculos do pescoço completamente contraídos. Como era possível que Guilherme vivesse em meio à tanta ordem, enquanto ele não conseguia ao menos organizar seus próprios pensamentos, sua memória? Arremessou o cinzeiro com força contra o espelho, que explodiu enquanto dexiava escapar um urro de desespero e frustração. Migalhas de sonhos prateados choveram por todo o piso. Nu, sua aparência era tudo menos humana. Caminhou até a sacada com os pés crivados de cacos de vidro, deixando um rastro de pegadas sangrentas. Respirou fundo. Estava cansado de viver assim, estilhaçado como o espelho. Não bastassem as lacunas em sua memória, ainda tinha aquele maníaco perseguindo-o. Curioso é que ele nem lembrava mais em qual momento de sua vida deixara que Guilherme se aproximasse. “Não há mais saída”, sentenciava a carta. Não mesmo, Guilherme? Sempre tem! Quer ver? Sem aviso, Ângelo saltou o parapeito, como se fosse voar.

A queda silenciosa durou quinze andares e terminou, com um baque surdo, em uma pilha moribunda de carne e ossos quebrados. Por instantes, tudo fez sentido, e então se desfez. Reunidos, Ângelo e Guilherme encontraram-se um no outro, ainda que apenas para uma estranha despedida.

      Ângelo, meu amor, você me fez feliz como ninguém...
      Ah, Guilherme... até que enfim, me livrei de você! 

terça-feira, julho 13, 2010

O rosto


“As pessoas veem apenas o que elas estão preparadas para ver.” 
Ralph Waldo Emerson 

Mariana apertou o passo quando ouviu o sinal soar. Seus pequenos pés deslizaram com agilidade sobre o piso de borracha preta, e ela projetou-se para dentro do vagão mais próximo apenas um segundo antes da porta automática se fechar. Equilibrou o corpo em um movimento gracioso, ainda apertando contra o peito a pasta de couro e o avental branco dobrado, como se fossem tesouros. Embora levasse uma grande bolsa sobre o ombro esquerdo, era com esse braço que se defendia dos solavancos do metrô que partia.

Quando a velocidade do trem estabilizou, ela ajeitou a franja ruiva comprida, revelando seu olhar concentrado em busca de um assento vago. Encontrou-o junto à uma das janelas do lado oposto. Acomodou-se e começou a observar as pessoas, todas com a mesma pressa irracional. Gente enlatada – pensou, admirando aquele mar de cabeças oscilantes – abusando do anonimato ilusório das multidões enquanto se esforçavam ao máximo para não enxergar o outro. E tratava de devolver-lhes a identidade, um a um, estudando seus pormenores, lendo nas entrelinhas dos gestos. O que não conseguia captar, inventava. Era uma espécie de jogo que fazia para suportar o tempo que passava ali. Linha Verde, Linha Azul, depois Linha Vermelha. [Seis dias por semana, três vezes por dia, Doutora]. Se fizesse as contas, perceberia que passava mais tempo no metrô do que em sua própria casa.

A composição mergulhou veloz em direção ao subterrâneo e ela voltou-se para a janela. Lá fora, na escuridão pulsante do túnel, as sombras dos pilares e equipamentos passavam tão depressa, que mal podia percebê-las. Era isso que a fascinava. O túnel funcionava como uma janela para dentro do seu eu. Era somente contra aquela tela escura que todas as peças de sua vida pareciam encaixar-se. Gostava tanto de brincar nesse plano subjetivo que, por vezes, se esquecia de onde estava e do que se passava ao redor. E o tempo se perdia com ela, hipnotizado pelas mudanças de cor daqueles olhos intensos.

Sempre que se apanhava assim, tão distraída, um calafrio violento a empurrava de volta à realidade. Uma lembrança sombria. Olhou em volta, nada anormal. O vagão prosseguia imerso em seu microcosmo: nunca igual, nem tão diferente assim. O oposto daquela tarde, dez anos atrás, na qual um intrigante rosto surgiu dentre suas ideias, encarando-a com seus profundos olhos negros. Jamais esqueceria aquele olhar urgente, face contraída. Na verdade, recordava-se daquele dia em cada detalhe.

Deduziu, pelo reflexo, que a dona daquele rosto tão sinistro estava parada junto à porta. Curiosa, voltou-se para observá-la. Não a encontrou. Através da porta que se fechava, vislumbrou expressões aterrorizadas na plataforma. O que estava acontecendo? O trem partiu, e ela percebeu que não havia mais ninguém no vagão além do homem sentado ao seu lado. Sufocou o impulso de sair correndo ao perceber o reflexo metálico que corria sobre o jeans de suas calças. Na mão trêmula, o sujeito tinha uma tesoura. Segurava-a com tanta força, que as juntas dos dedos estavam esbranquiçadas. Ela sentia o hálito podre soprado em seu pescoço, o odor azedo de dias sem banho. Não arriscou olhar direto para ele, pois tinha medo de que o contato visual rompesse o frágil equilíbrio da situação. Pelo canto do olho, descobriu que ele a estudava, abrindo e fechando a tesoura bem devagar. Quem sabe o que estivera pensando? Naquele hiato de gente entre as duas estações, o tempo parou. Os minutos desdobraram-se em horas de pânico e desespero. A próxima estação parecia não chegar nunca. Então ela fez a única coisa sensata a fazer. Fechou os olhos e começou a contar para si – um, dois, três, quatro –, para obrigar o tempo a passar. Onze, doze, treze – fizera isso tantas vezes quando criança – dezessete, dezoito, dezenove – uma pequena fuga que sempre enfurecia sua mãe – vinte-e-três, vinte-e-quatro, vinte-e-cinco. O trem parou. Chegara à estação? Esperava que sim. Ela abriu os olhos e o homem não estava mais lá. Corria alucinado pela plataforma, com vários seguranças em seu encalço. O vagão encheu novamente, e ela se deu conta de que ainda contava – trinta-e-oito, trinta-e-nove... 

Escapara por pouco, soube mais tarde. O homem era um maníaco procurado pela polícia e dera muito trabalho naquele dia, antes de ser capturado. Apesar de todo o perigo vivido, o que deixava o seu coração inquieto e, por vezes, roubava seu sono, ainda era o rosto feminino no túnel. Algo nele a atraía na mesma medida em que a apavorava. Quem seria? Odiava charadas sem resposta, por isso essa questão subia à superfície dos seus pensamentos com freqüência. A hipótese mais provável era que o seu subconsciente reconhecera a mulher de alguma de suas memórias passadas, provocando aquela estranha sensação.

Nesses últimos anos trabalhando no hospital, várias vezes pensou tê-la visto de relance. Como acontece com a maioria dos vultos que nos pegam pelo canto dos olhos, ao virar-se, nada encontrava. Acontecia sempre durante os dias mais tensos e, em meio à correria e à confusão das emergências, ela não conseguia parar para averiguar melhor. Acabara por atribuir essa sensação às descargas emocionais do trabalho. [Adrenalina, Doutora. Uma bomba química que deixa o seu corpo pronto para reagir em condições extremas. Às vezes faz enxergar de menos, às vezes, demais. Só isso.] Porém, nunca se convencera. Enquanto ponderava sobre o assunto, as peças de que dispunha foram surgindo em sua tela mágica. Tirando a tensão da jogada, haveria mais características comuns? Dessa vez, concentrou-se nos mais insignificantes detalhes: cheiros, gostos, sensações. O trem assobiou agudo nos trilhos, e o ruído ecoou, soprando-lhe a direção em que deveria olhar. Sons! Com a ansiedade a revirar-lhe o estômago, Mariana começou a relembrar os sons que cercavam o aparecimento daquela misteriosa figura: o arrastar de macas, gritos de médicos e enfermeiras, a melodia aguda e constante do monitor cardíaco e mais nada. [Parada cardíaca! Rápido, doutora, consiga ajuda!] Ela sabia muito bem o que vinha depois. A visão turva, afunilando-se sobre o paciente. O mundo afastando-se como se visto através da penumbra de um longo túnel. O rubor intenso em seu rosto. O sangue pulsando violento em sua garganta, lembrando a cada instante que o tempo passa, inexorável, sem que o coração do outro reaja. E o monitor a repetir, incessante, em sua nota única e cruel: morreu morreu morreu morreu morreu morreu morreu morreu morreu.

A descoberta fez com que suas pernas amolecessem, mas seu instinto profissional, mais do que depressa, chamou-a à razão. [E como você explica, Doutora – desse seu ponto de vista místico aí – a primeira vez em que esse rosto te assombrou?] Nesse mesmo instante, o aviso do fechamento da porta do metrô fez o coração disparar, trazendo-a de volta à realidade. [O tempo se esgota sempre, em algum lugar.] Pela primeira vez, percebeu-o como um arremedo do monitor cardíaco. Ergueu os olhos para a plataforma e lá estava ela, a mulher misteriosa, parada no meio da multidão. Sem pestanejar, Mariana arremessou-se para fora do vagão. Precisava resolver de vez aquela história, antes que ficasse maluca. A porta fechou-se, tentando impedi-la de sair. Mas ela foi mais rápida. Soltou-se com um puxão decidido, colocando-se em segurança do lado de fora. Frustrada, constatou que a mulher se fora. Um baque surdo atrás de si fez a multidão gritar. Ao virar-se, percebeu que o vagão estava vazio, exceto pelo homem de aparência insana com o rosto grudado na janela. Frenético, batia o punho ensanguentado contra o vidro tentando quebrá-lo. Na outra mão, trazia um grande caco de vidro pontudo.

Mariana arfou, sentindo o sangue gelar em suas veias enquanto o trem partia. Não pela percepção do que se livrara – essa só viria bem depois. Atrás do lunático, sentada no lugar em que ela mesma estivera, vira uma conhecida figura de mulher.

quinta-feira, junho 24, 2010

Capítulo IV – Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada...

Esta é a minha contribuição para o Desafio Literário do blog "Um Ponto e Outra Palavra" do Sandi Bart. Gostou? Então acompanhe a saga!

De repente, vi-me a repetir conhecidos gestos. Dobrar roupas, juntar livros e objetos, despir a casa dos sinais de minha presença. Fechei a mala com o estômago a dar cambalhotas de ansiedade, pois cortava o cordão umbilical e seguia ao encontro da liberdade que meu pai tanto celebrava. Pelo menos assim eu pensava, iludido pela sensação de imortalidade que só a adolescência consegue investir ao homem. Não olhei pra trás uma única vez, seguro que estava, mas era possível antever o olhar preocupado de minha mãe – que perdera o controle sobre um de seus trunfos – e o olhar orgulhoso daquele homem que me aceitara como filho e, agora, via-me seguir os seus passos.

São Paulo, de início, me intimidou – gigante cinza frenética que era, comparada à cidade em que eu crescera. Mas logo me dei conta de que, se minha inteligência e dedicação garantiriam-me o prestígio no mundo acadêmico, a gorda pensão paterna – aliada à malícia materna – me daria a chave da cidade. De cara, fui aceito em um círculo de alunos influentes, porém indolentes, e não se passou muito tempo até que eu os influenciasse mais do que eles à mim. Aprendi rápido o valor de um favor devido e, prestativo que era, nunca estive sozinho. Era convidado – por vezes, arrastado – para as festas perdulárias da elite, bem como para farras estudantis de toda espécie. Experimentei dos prazeres mais intensos da vida mas, endurecido pelo senso prático herdado de minha mãe, não me deixei perder. Pelo contrário. Arquitetava sempre novas maneiras de tirar o máximo proveito da situação, resguardado pela minha educação esmerada que impedia-me de ser visto como mau caráter.

Na faculdade, consegui manter-me – com certa facilidade – como primeiro da turma. De início o fazia por orgulho, depois, por necessidade. Eu não era nada feio, posto que herdei os traços angulosos de minha mãe. Poderia ter as mulheres que quisesse. E tive muitas. Mas não me interessavam tanto as moças libertinas da alta roda, fúteis e autoritárias. Tinha apreço mesmo era pelas garotas intelectuais e mais recatadas que me convidavam a participar de grupos de estudo. Amava a dificuldade em seduzí-las e a entrega com que elas finalmente cediam aos meus caprichos. Ademais, apreciava a facilidade em ignorá-las depois que me cansavam, pois estas eram as que mais temiam a má-fama. No segundo ano, principiei a dar aulas particulares para os calouros. E não foi pelo dinheiro. Perdi a conta de quantas inocências deflorei, não raras vezes em seus próprios quartos, com os pais a assitirem televisão despreocupados na sala de estar. Nunca enfrentei qualquer tipo de problema. Eu era jovem, livre e tinha um futuro promissor pela frente. Não poderia estar mais feliz.

Mas o destino, em uma sufocante tarde de abril, colocou à minha espera um voluptuoso par de olhos azuis. Uma caloura chamada Simone.

sábado, janeiro 09, 2010

Os Crimes do Zodíaco



"O destino não se satisfaz em infligir apenas uma calamidade."
Publilius Syrus

Áries
Descontrolada, berrava sem parar com ele. Onde já se viu usar a jarra de cristal para aguar as plantas? A peça quebrada, que estivera brilhando na mão dele, atingiu-a com força no rosto. Uma, duas, três vezes. Silêncio, afinal.

Touro
– Tem certeza que sabe usar o câmbio automático?
– Claro que sei! É óbvio! Tudo mundo sabe! Você não?
– Você não acha melhor pedir aj...
– Não precisa! Eu sei como faz! Quer ver?

Ela engatou a ré por engano e acelerou. Matou três pessoas.

Gêmeos
A textura da pele do pescoço dele sob seus dedos lembrava a seda, que lembrava o presente ousado que ganhara do aluno, que lembrava a sensação de fazer o que era proibido, que lembrava banho de sol nua, que lembrava liberdade, que lembrava que acabara de conquistar a sua. Largou o corpo flácido do marido no chão e foi viver.

Câncer
Quando ele a deixou, ela pensou em matá-lo. Mas não suportaria viver sem ele. Então, passou a matar todas as mulheres que se aproximavam demais.

Leão
O resultado do exame: câncer no estômago. Era tão orgulhoso, que não se deixaria matar por uma doença tão cruel. Pegou uma faca, amolou, e fez ele mesmo o serviço.

Virgem
Com movimentos seguros, removeu as duas pálpebras da mulher. Ajeitou os lábios dela, já rijos, para que arremedassem o sorriso tosco que entalhara em sua garganta. Acomodou os cabelos negros em leque e deixou um lírio sobre os seios nus. Parabenizou-se em silêncio: fizera um trabalho perfeito.

Libra
Era um marido muito dedicado. Antes de deitar, sua mulher confidenciara que o seu maior sonho era ganhar a cabeça de sua chefe em uma bandeja de prata. Quando ela acordou, olhos mortos a encaravam de cima da mesa.

Escorpião
Cento e cinqüenta corpos no salão de culto. Homens, mulheres, crianças e velhos, caídos uns sobre os outros. Do chão, uma gargalhada quebra o silêncio. O Pastor bebera suco ao invés de veneno.

Sagitário
O policial não tinha o direito de fazer isso com ele. Tudo bem que os pneus do carro estavam mesmo carecas, a licença estava mesmo vencida, e ele estava mesmo embriagado. Mas isso lá era motivo para ser tão rigoroso? Por isso, quando recebeu a prancheta para assinar o flagrante, enfiou a caneta no olho do policial e fugiu.

Capricórnio
Cuidou com afinco da tia avarenta durante seis anos. No dia seguinte à assinatura de um novo testamento, que beneficiava o sobrinho, um escorregão no piso molhado a fez rolar escada abaixo. Dessa vez, ele não a socorreu.

Aquário
Ele jurou que não contaria mais mentiras. O bilhete que ela encontrou mostrava que ele não cumprira com sua palavra. Então deu a ele um remédio para dormir e sumiu no mundo. Deixou para trás apenas a língua dele, pregada na porta. Agora, ele cumpriria a sua promessa na marra.

Peixes
Na saída do shopping, só encontrou o carro porque tinha muita gente em volta. Dois bombeiros removiam um pequenino volume pelo parabrisa quebrado: seu filho de um ano, esquecido lá dentro, morrera sufocado.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Microcontos II

I.
Preguei uma peça no meu coração involuntário: um prego enorme. Preso na tua porta, ele parou de doer.

II.
Limpou a navalha no lençol do motel e beijou de novo os cabelos dela: a cada vez, fica mais difícil encontrar loiras de verdade...

III.
Entediada com a folha do caderno, rabiscou as paredes do apartamento. Quando o espaço acabou, pulou da janela e virou infinito.

IV.
"Bebeu até morrer!", concluiu o perito na cena do crime. "Cachaça?", perguntou o detetive. "Não. Groselha! Era diabético.”

V.
Arrancou, em fuga, com o carro. Um salto, baque surdo. Desceu pra ver. Era o seu passado. Deu marcha ré por cima. E partiu.

VI.
Enfarte do miocárdio, é o que dirão – pensou enquanto tombava. Ninguém saberá que seu coração explodiu mesmo de tristeza.

VII.
"Anjo é uma alma humana cujo primeiro suspiro coincidiu com o último". Ele fechou o livro e sorriu: seu filho fora convocado no céu!

VIII.
Pegou um dos cacos de seu coração partido e degolou a infeliz. Ela deveria saber que amor de psicopata é mortal.

IX.
"Fui!". Era tudo que estava escrito no bilhete do suicida. Ele nunca fora um homem de muitas palavras...

X.
Desfez o aviãozinho de papel que, vindo do outro lado da sala de aula, o acertara em cheio na cabeça. Reconheceu como seu o desenho interno. Um coração. Embaixo de onde escrevera “Toma, é teu!”, ela escreveu em letras miúdas: “Estou devolvendo. Não quero mais!”.

XI.
"Adivinha quem é?", disse, cobrindo os olhos dela. A resposta veio rápida e segura. A dúvida, também: quem diabos é Murilo?

terça-feira, dezembro 22, 2009

Dança Sombria

"Eu conduzi as sombras que perambulam de mundo em mundo
para semear morte e loucura..."
H.P. Lovecraft

Acordei assustado. Estou molhado de suor gelado, o pijama grudado no corpo. Tem gente gritando na rua, muita gente. Alguma coisa está errada. Meu abajur está apagado. Deixo ele sempre aceso para afastar as sombras. Quando eu esqueço, as sombras entram com a luz da rua. Passam pelas frestas da janela e dançam e rodopiam. Elas têm braços compridos e chamam o meu nome baixinho enquanto eu durmo. Eu sei o que elas querem. Querem que eu vire uma sombra e dance com elas para sempre. Mas eu não quero. Por isso eu grito. Grito bem alto, e elas vão embora.

Estranho. Não consigo acender o abajur. A luz acabou. Não tem luz em lugar nenhum. Só a lua cheia brilha, grandona, enchendo o mundo de sombras compridas. Elas estão em toda parte. Na rua, nas casas, no meu quarto. Dançando sem parar. Eu gritei e gritei, mas dessa vez elas não foram embora. Ouço meu nome repetido em milhares de cochichos. Sinto dedos finos no meu rosto. Meus olhos estão pesados de um sono esquisito. Estou com medo. Está me dando vontade de dançar.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Reflexões




"All that you see or seem, is but a dream within a dream"
Edgar Allan Poe


Preciso me livrar desse outro eu que há em mim, sufocado, engasgado. Que me olha meio de lado no espelho, ávido pra sair. Ele apenas espera por uma fração de segundo, um descuido ou distração, para assumir o controle, escurecendo-me os olhos para que possa usá-los, roubando-me o vigor das mãos. Fico prisioneiro em meu corpo, vagamente consciente da minha triste sina de arauto, perdido em meio a pensamentos que não são meus. Mil e uma vidas paralelas construídas de imagens, sons e mais uma força desconhecida que irrompe inquieta, ardente, e só se acalma ante o estrondoso cair do ponto final. Obtuso e imerso em uma sucessão de vazios...


Bruno encarava a linha interrompida, incapaz de continuar a escrever. Como em todas as outras vezes, o que o impedia não era a falta de idéias, mas a fragilidade do próprio texto. Tudo o que conseguia era registrar um arremedo falho e inconclusivo do que passava pela sua cabeça. A essa altura, não sabia mais dizer se o que pensava valia a pena. Largou a caneta.

Levantou-se e caminhou pelo minúsculo apartamento como se pudesse encontrar algum conforto nas paredes nuas e descascadas de umidade. Só conseguiu sentir-se pequeno e sozinho. Não tinha nada além dos poucos pertences que o seu emprego medíocre permitira comprar. Seu único luxo era um espelho de corpo inteiro pendurado em uma das paredes.

Sorriu para o homem opaco refletido nele. Não era nada feio. Na verdade, faltava habilidade para se relacionar com as mulheres. Também não tinha muitos amigos, era tímido demais para isso. As olheiras fundas se destacavam na palidez do seu rosto, fazendo com que parecesse ter trinta e oito anos ao invés de trinta e dois. Tentou imaginar uma vida nova para si, mas seu desânimo o traiu. Tudo parecia impossível demais. Fez uma careta para si mesmo, e observou com ironia a imagem perfeita refletida no espelho. De todos os aspectos da sua vida, esse parecia ser o único sobre o qual ainda tinha domínio. Não importava o que fizesse, seu clone especular deveria imitá-lo.

Divertiu-se por algum tempo obrigando o seu reflexo a fazer poses ridículas, pelo simples prazer de estar no comando. Mas por fim achou tudo aquilo muito triste e tomou uma decisão. Pegou sua navalha e colocou-a contra o pescoço. Mataria a si mesmo e ao seu reflexo miserável. Encostou a outra mão na superfície do espelho, tocando o seu outro eu em um gesto melancólico de despedida.

Os dedos do seu reflexo fecharam-se com violência por sobre os seus. Os olhares se encontraram e Bruno sentiu a realidade distorcer e rodopiar à sua volta, como se fosse possível piscar sem fechar os olhos. No momento seguinte, a mão que segurava a navalha afastou-se devagar, por vontade própria. Os dedos afrouxaram a pressão sobre o cabo, e a lâmina escapou para o chão. O entrelace desfez-se e os braços abaixaram-se em sincronia. Sentiu sua boca mexer, mas foi o Outro que falou. “Desculpe, tive que agir. Você estava denegrindo a MINHA imagem!”. Seus olhos agora brilhavam com energia.

O Outro ajeitou o cabelo e Bruno, impotente, viu-se imitando o gesto. “Não deve ser difícil me sair melhor do que você!”, disse em tom de provocação, dando uma piscadela marota antes de virar de costas para o espelho. Bruno não pôde sequer olhar enquanto seu outro eu saía para começar uma vida nova.

quarta-feira, outubro 21, 2009

Mistério em Mallorca


“Brace yourselves for the fury of the ocean wants its toll”
Fairyland – “Master of the Waves”


“Impossível!”, pensou o Inspetor Ortiz, caminhando em círculos pelo apartamento enquanto repassava mentalmente todos os detalhes da investigação. Ao entrar para arrumar o quarto, a camareira do hotel havia encontrado Johnny O’Doe morto sobre a cama. Ele estava roxo, com os músculos todos contraídos. As articulações da mão estavam esbranquiçadas de esforço, como se ele tivesse tentado se agarrar, literalmente, à vida.

Johnny tinha trinta e dois anos e era muito conhecido no mundo, tanto pela sua capacidade de lotar estádios com seus shows, quanto pela sua disposição para festas e bebedeiras. Viera à Espanha de passagem, apenas para receber um prêmio em Mallorca. Festejou a noite inteira, voltou ao hotel sozinho, e nunca mais acordou.

O relatório do legista foi tão assustador que o comissário optou por mantê-lo em sigilo. Apesar das especulações da imprensa girarem em torno disso, não foi encontrado nenhum traço de drogas em seu organismo. Seus pulmões estavam cheios de água salgada. Havia vestígios de areia de praia no nariz e sob as unhas, mas uma análise comparativa chegou à conclusão de que não eram de nenhuma praia da Espanha. A equipe forense esquadrinhou o quarto três vezes, mas não encontrou nenhuma pista. Nada. Tudo estava impecável. Nenhum sinal de arrombamento ou luta, nem de que o corpo fora transferido para a cama.

Sentado no chão do quarto, com a cabeça entre as mãos, Ortiz ficou horas tentando rever a cena do crime de diferentes ângulos, em busca do elemento faltante que daria uma explicação para tudo. Ele tinha que estar ali em algum lugar. Lembrou do seu treinamento na Academia de Policia, quando lhe disseram que todo investigador veterano era assombrado por um crime insolúvel. Sentiu um gosto amargo subir pela garganta. Talvez esse fosse o seu.

Sentindo-se derrotado, Ortiz resolveu voltar para a delegacia. Lacrou de novo a porta do quarto e caminhou até o elevador absorto em seus pensamentos. No caminho, cumprimentou com um aceno automático o faxineiro que lavava o chão do corredor.

O faxineiro acompanhou o inspetor com o canto dos olhos, sem interromper seu trabalho. Quando a porta do elevador se fechou, ele suspirou aliviado: ninguém percebera nada. Então ele soltou o primeiro botão da camisa para admirar o objeto que trazia pendurado no pescoço e que, de algum modo, conseguira subtrair do corpo do músico antes da polícia chegar. Ele contemplou fascinado o enorme medalhão de prata cintilante que pendia da corrente de elos grossos. Haviam seis pedras verdes dispostas em círculo engastadas na superfície do disco, emolduradas por relevos parecidos com letras, mas que ele não sabia dizer o que significavam. No dia seguinte, iria procurar um antiquário no centro. Esperava conseguir uma boa quantia por ele.

Naquela noite, em seu apartamento no subúrbio, o faxineiro caiu em um sono profundo. Assim como Johnny O’Doe, esqueceu-se de tirar o medalhão do pescoço. 


Sonhou que estava em uma praia de areias brancas. Atrás dele, uma cidade prateada brilhava sob a lua cheia. Não havia visto nada assim tão bonito em toda a sua vida. A cidade ancestral e misteriosa parecia tremeluzir junto com as estrelas do céu. Um vento forte desgrenhou os seus cabelos, e ele virou-se novamente para olhar o mar. Compreendeu que estava em uma grande ilha. O mar, negro e denso como a noite, envolvia a costa em um abraço frio. Somente os pequenos reflexos da lua na água indicavam movimento. E foi aí que ele percebeu que algo estava errado. O horizonte se aproximava rapidamente, alto demais. Uma imensa muralha negra de água e fúria, que lhe parecia ser cinco, dez, vinte, muitas vezes maior que ele. Tentou acordar, mas não conseguiu. Tudo aconteceu rápido demais. O mar atingiu a ilha e obliterou a cidade, como se o oceano se fechasse sobre ela. Ele tentou agarrar-se como pode no chão, nas árvores, nas construções prateadas, mas a água implacável castigou o seu corpo e o jogou de um lado pro outro, de modo que ele nem sabia mais para que lado ficava o céu. Estava ficando sem ar.

Na manhã seguinte, um novo corpo jazia retorcido sobre a cama em um quarto trancado por dentro. Mas para esse, ninguém deu importância. Quatro dias depois, o senhorio arrombou a porta por causa do mau cheiro. Enojado, ele só se aproximou da cama porque algo muito brilhante chamou sua atenção. “Isso deve bastar para compensar os três meses de aluguéis atrasados!”, disse para si mesmo, pegando o medalhão com o seu lenço e o guardando no bolso do seu casaco. E então ligou para a policia.

quarta-feira, outubro 14, 2009

Microcontos

I

– Vá embora! Você é um monstro! – ela disse, escondendo o rosto com as mãos.

A crueza das palavras o atingiu com o poder de uma bofetada. E foi a primeira e única vez que seus dez olhos verteram lágrimas.

II

Acordou no meio da noite atordoado e percebeu que estava sendo arrastado dentro de um enorme saco de lixo preto, em direção a um enorme caminhão que acelerava. Foi lançado com um baque surdo em um compartimento estreito e malcheiroso. Gritou e gritou, mas o som metálico implacável do compactador de lixo abafou os seus gritos.

III

– PARE! Você está me comendo com os olhos! – gritou a mulher horrorizada.

– Nossa! Que indelicadeza a minha! – respondeu ele, largando-lhe o braço. Usando uma pequena colher, arrancou-lhe os olhos friamente, e então destroçou-lhe o ventre a dentadas.

IV

Elias ficava horas contemplando a pele de Helena sob a luz da janela, encantado com o seu brilho acetinado. Apreciava sua textura e o seu aroma doce. Quando Helena lhe abordou de malas prontas, dizendo que ia embora para sempre, ele se apressou em trancar a porta à chave. Avançando sobre ela com uma faca de churrasco na mão, disse apenas: “Você pode até ir, mas a sua pele fica!”.

V

Todas as quartas-feiras o marido de Flavia viaja, e ela leva um completo estranho para sua cama. A quilômetros dali, Agenor limpa as mãos sujas de sangue sem tirar os olhos do vídeo. Fixa na memória o rosto do desconhecido que faz sexo com sua mulher. Quarta-feira que vem, irá atrás dele.

sexta-feira, setembro 25, 2009

Ilícito



Tem que ser hoje. – pensou Jaime – Não dá pra esperar mais! 


Suas mãos suadas apertaram ainda mais o volante, tentando conter o tremor que recomeçara. Hesitou por um instante, então arrancou a gravata com um único puxão. Limpou o suor da testa no punho da camisa e, nervoso, tornou a segurar o volante. Tinha que ser agora

Com um movimento brusco, o carro cruzou as três faixas da avenida em direção ao retorno, o que provocou um coro de buzinas em protesto. Jaime sequer percebeu. No estado em que se encontrava, ignorava por completo o caos que dominava a metrópole. Concentrar-se ficava cada vez mais difícil. A cada segundo, aumentava a consciência de que o que desejava estava ali mesmo, em um pequeno pacote oculto sob o banco do passageiro. 

Não posso! – ponderou, os dentes trincando de tensão. – Não com as ruas lotadas de gente e sensores para todo o lado. Quantos Vigilantes estariam misturados à multidão? 

Ele sabia muito bem o que acontecia quando alguém violava a Interdição. Presenciara a cena uma vez. Fora tudo muito rápido, mas ele nunca pôde esquecer os gritos. Não mesmo. Até os que nunca tiveram motivo para temer tinham pesadelos com isso. 

Enrijeceu-se no banco e obrigou-se a pensar em outra coisa, ou não conseguiria chegar até a estrada. Seus pensamentos flutuaram, desconexos, por alguns minutos e, por fim, pousaram nas lembranças da sua vida antes da Interdição. Ele não podia culpar-se por isso, sua geração era a que mais sofria. Tinha cerca de vinte anos quando tudo começou. 

Naquela época a cidade era mais suja e malcheirosa, mas as pessoas ainda tolevaram-se umas às outras. Conseguia-se comprar a droga em qualquer esquina e fazer uso dela na maioria dos lugares, sem qualquer tipo de sanção. Era um ritual pessoal. Mas o costume começou a perder a força e alguns lugares começaram a proibi-lo uso em respeito às pessoas limpas. Foi o bastante para que ele ganhasse novo fôlego. As proibições começaram a ser desrespeitadas, gerando constrangimento e preconceito. Então o governo resolveu interferir. 

Baseado numa antiga lei esquecida, o uso foi proibido em todos os lugares públicos fechados e a fiscalização endureceu. Em pouco tempo, as calçadas e ruas foram tomadas pelos usuários e por seu odor característico, formando uma verdadeira barreira humana para quem quisesse entrar ou sair de qualquer lugar. O preconceito intensificou-se, e suas manifestações ficaram cada vez mais violentas. A resposta do governo foi enérgica, proibindo qualquer uso público da substância. As ruas esvaziaram-se e a vida noturna da cidade quase desapareceu. Os Sujos trancavam-se em casa, sozinhos ou em pequenos grupos, e consumiam quantidades absurdas da droga. À essa altura, o preconceito se transformara em ódio mútuo, e os vizinhos Limpos começaram a reagir. 

Para evitar uma guerra civil, o governo baixou a Interdição, uma medida extrema e radical, proibindo totalmente o comércio da droga e banindo qualquer uso detectável por seus sensores em um raio de cem quilômetros em torno da cidade. A pena era a execução sumária e imediata. Muitos Limpos extremistas alistaram-se nas forças da Vigilância, e o que se sucedeu foi uma carnificina legalizada, que impôs a lei pelo medo. 

Passados quase dez anos, os Sujos que sobreviveram permaneciam escondidos. Poucos conseguiram de fato abandonar o vício, pois a droga era potente demais. Os Vigilantes, novamente misturados aos civis, só se revelavam quando ocorria uma violação. A sociedade vivia em tensão constante, pois não era mais possível saber quem era quem. As pessoas afastaram-se umas das outras, e assumiram um comportamento hostil. Mas a cidade estava limpa, uma utopia em verde e cinza. 

Jaime dirigia em alta velocidade pela estrada, os olhos fixos no horizonte. Até que seus olhos captaram ao longe o marco verde que procurava. Ao aproximar-se da grande placa na qual se lia “Limite da Interdição Municipal – Respire por sua própria conta e risco”, saiu para o acostamento, reduzindo a velocidade. Lançou o carro em uma pequena trilha de terra batida que conduzia a uma grande clareira na vegetação. Havia muitos carros estacionados ali. 

Encontrou um lugar entre eles e parou. Enfiou a mão ávida embaixo do banco do passageiro e apanhou o embrulho pardo em seu esconderijo. Desceu do carro aos tropeços e sentou-se sobre o capô. Dentro do pacote havia um maço de cigarros vagabundos, todo amassado, que comprara, por um preço absurdo, de um contrabandista. Segurou um deles entre os dedos e o cheirou, deliciando-se com o aroma. Bateu a mão livre nos bolsos, e percebeu, com horror, que não trouxera isqueiro ou fósforos. 

– Tome, use o meu! – um homem, sentado no capô de um carro próximo, atirou-lhe um isqueiro. O objeto descreveu uma curva perfeita no ar, e Jaime apanhou-o sem dificuldade. Ao fundo, pessoas conversavam animadas, e havia música alta vinda de um dos carros. 

Jaime acendeu o cigarro e jogou o isqueiro de volta, tentando lembrar se já tinha visto aquele homem na cidade. Não importa! – concluiu, soprando a fumaça de sua primeira tragada – Aqui, somos todos amigos!

segunda-feira, setembro 07, 2009

Doce, mas não tão doce

“I know that you belong to me every night
You suddenly appear in my eyes
It happens when I sleep, it isn’t right
What I do in my dreams with you”
Steve Vai – “In my dreams with you”

De onde diabos apareceu essa mulher? Era como se ela soubesse exatamente o que dizer, o que pensar, o que fazer. Havia quilômetros entre nós, mas a sincronia era tanta que até irritava.

Tentei racionalizar o fato, e isso fez minha cabeça latejar de maneira violenta. Gemi, tentando não perder de vista as janelas piscando na tela do computador. Uma nova mensagem apareceu:

Beatrix diz: Não consigo parar de pensar em você... de ter certas idéias...

Era cada vez mais difícil resistir à tensão que surgia entre nós, embutida naquelas frases claras e perfeitas, equilibrada de maneira precária entre a espontaneidade e a premeditação. Meus dedos corriam pelo teclado sem precisar de comando, como se fossem uma extensão do meu subconsciente.

Marcos diz: Que tipo de idéias?

Não demorou nem 1 minuto, e outra resposta chegou:

Beatrix diz: Eu, você, seu perfume... e muitas más intenções...

Marcos diz: Você gosta de vinho?

Beatrix diz: Adoro!

Marcos diz: Então você terá sérios problemas com o meu perfume!

Beatrix: Por quê?

Marcos diz: Ele é inspirado em um vinho argentino. É suave, então você precisa chegar BEM perto pra sentir...

Beatrix diz: Não me provoque assim! Você não sabe do que eu sou capaz...

Minha imaginação começou a trabalhar com uma fúria louca, procurando entre as minhas fantasias latentes um arremedo de razão, algo que trouxesse um pouco de realidade para acalmar meu desejo.

Marcos diz: Você é tão perigosa assim? Qual a sua altura?

Belatrix diz: Um metro e sessenta e dois.

Marcos diz: Eu ia me sentir o próprio Gulliver perto de você: tenho um metro e noventa. Já estou até imaginando eu acordando amarrado numa cadeira com milhares de fiozinhos fininhos...

Belatrix diz: Cadeira, cordas, você... acho que estou tendo uma idéia bem melhor que a sua...

Marcos diz: Cadeira, cordas, você, seu perfume.... Poderia até adivinhar, mas prefiro que você me conte!

Belatrix diz: Você nunca ia adivinhar qual é o meu perfume... pouca gente conhece, menos gente ainda usa...

Senti meu coração dar golpes duros em meu peito quando uma imagem azulada formou-se em minha mente. A princípio apenas um borrão, como qualquer outra imagem subconsciente. Aos poucos, a cena foi ganhando

[foco. Uma sala escura sombras pretas alongando-se pelos cantos dos olhos dançando no ritmo pesado e denso da minha respiração uma cadeira no centro da sala ou será cozinha fria reflexo de luz bruxuleando na parede do meu lado esquerdo mas como eu sei que aqui é alto a luz não é da rua mas deixa um reflexo lindo quando passa pelo teu rosto e olhos que não vêem nada a não ser desejo deus não consigo me mexer e nem quero hipnotizado por teu cheiro doce porém não tão doce que se alastra e fixa em meus poros bailado tenso do teu corpo nu contra o meu pulso ardente por causa das cordas que me fixam imóvel admirando o brilho cinético do objeto metálico que cruza o ar nítido junto ao meu rosto cortante...]

Marcos diz: eu estou SENTINDO seu perfume... mas não sei o nome. Ele é doce, mas não tão doce... pelo menos não na sua pele!

Belatrix: Mas como é que você....? Hum, as pessoas realmente dizem que ele fica mais suave na minha pele....

Marcos diz: As paredes do seu apartamento por acaso são azuis?

Belatrix diz: ? Não! Brancas! Pelo menos de dia...

Marcos diz: Como assim?

Belatrix diz: Tenho um tipo de iluminação na sala que deixa tudo meio lilás à noite, por quê?

Marcos diz: ...tem um reflexo estranho na parede, parece reflexo de luz de carro? Mas não pode ser porque seu andar é alto...

Belatrix diz: Céus! ...tenho um cristal pendurado, entre a sala e a cozinha... sabe? É uma cozinha americana, aquela com balcão, integrada na sala. Conforme a luz entra ele...

Marcos diz: Pelo amor de Deus, qual é o nome do seu perfume?

Anotei o nome do perfume em um pedaço de papel, e desliguei de súbito o computador, ainda arfando de desejo e medo. As imagens continuavam a brilhar ácidas em minha mente, o cheiro parecia estar preso em meu rosto. Por que pareciam tão reais?

Corri até uma loja de perfumes e perguntei pelo nome que ela me deu. Claro que era o mesmo. Ele era mais forte no frasco, mais doce, mas era indiscutivelmente aquele. Passei o resto do dia tentando processar o que tinha acontecido, mas não havia lógica nenhuma. Tarde da noite, eu ainda rolava pela cama inquieto, com os neurônios pulsando a mil por hora. Por fim, o sono me alcançou.

...

Acordei com uma dor de cabeça pungente, a musculatura rígida em protesto. O mundo escuro à minha volta parecia lavado em tons de índigo e púrpura. Não consegui me mexer, eu estava amarrado em uma cadeira. E então senti aquele cheiro doce, mas não tão doce...

segunda-feira, junho 15, 2009

Aposta


“Ouvir vozes que ninguém mais consegue escutar
não é um bom sinal, mesmo no mundo da magia.”

J. K. Rowling

– Vou aumentar a aposta! – disse o homenzinho amarelado que estava no canto escuro, empurrando todas as suas fichas para o centro da mesa.

Gabriel achou graça no modo como o sujeito tentava esconder o nervosismo, girando com seus dedos alongados o grande anel de aço que usava no indicador da mão esquerda. Visto através da garrafa de whisky vazia, aquele rosto quadrado parecia ainda mais inumano.

“Está blefando”, murmurou para si enquanto os outros jogadores, um a um, desistiam da rodada. Via tudo em câmera lenta por causa da bebida. Passar da conta fora uma constante para ele nos últimos meses. Não lembrava direito como foi parar naquela mesa de jogo clandestina nos fundos do bar, nem de onde surgiram seus parceiros de jogo. Olhou para as cartas em sua mão e resolveu partir para o ataque. Perdera muito dinheiro essa noite. Precisava recuperar. Foi quando percebeu que ficara sem fichas. Frustrado, deu um soco na mesa, resmungando entre dentes:

– Eu apostaria a minha alma agora!

Fez-se um silêncio profundo na mesa. Gabriel ergueu os olhos e viu que todos olhavam pra ele com um profundo respeito.

– Aposta aceita! Mostre suas cartas! – disse o homenzinho, solene, erguendo suas grossas sobrancelhas.

– Era só modo de falar.... – Gabriel empalideceu. Seu mundo começou a girar acelerado, o ar escapando rapidamente dos seus pulmões.

Os outros jogadores protestaram. A aposta fora feita às claras e aceita. Eram testemunhas. Voltar atrás não seria uma atitude louvável.

Com o coração aos pulos, Gabriel teve vontade de sair correndo dali e sumir. Mas um pensamento maldoso logo veio à sua cabeça e o fez ficar onde estava. “Ele está blefando, eu não vou perder! Além do mais, fugir agora significaria perder tudo do mesmo jeito”. Acalmando-se, começou até a achar graça na solenidade dos outros jogadores. Então, confiante, abriu o seu jogo na mesa.

Dois ases, três damas: tinha um full house. Uma boa mão.

Sem mover um músculo do rosto, o homenzinho espalhou suas cartas sobre o tecido verde: 4, 5, 6, 7 e 8, todas de espadas. Straight flush.

Gabriel perdera! Sua vista escureceu, e ele teve a impressão de que todos os jogadores tinham rostos tortuosos, com estranhos olhos amarelos que o observavam desmaiar com a cara na mesa. O mundo desfez-se em preto.

...

Gabriel acordou assustado, com um suor gelado cobrindo seu corpo. Estava em seu próprio quarto, sem roupas. A cabeça doía a ponto de explodir.

– Bebe, desgraçado! – disse para si mesmo. – Nossa, que pesadelo, hein?

Levantou, ainda zonzo, e cambaleou em direção ao banheiro para lavar o rosto. Foi quando percebeu que em seu indicador direito havia um grande anel de aço liso. Seu coração disparou. Tentou tirar o anel do dedo. Não conseguiu. Encheu o dedo de sabão. Nada. O anel girou livremente no seu dedo, mas não soltou de jeito nenhum. Depois de passar quase uma hora tentando livrar-se do anel, desistiu. Vestiu-se e decidiu sair. Tentaria voltar ao bar da noite anterior.

Não conseguiu encontrá-lo. Poderia ser qualquer um, já que muitas vezes ia a mais de um por noite. Imerso no torpor semi-consciente da bebida, era muito difícil distinguir um do outro. Refez a parte do percurso que lembrava, mas nenhum bar da região tinha mesa de jogo nos fundos.

Desanimado, voltou pra casa. Ao entrar, tropeçou em pacote que havia sido enfiado por baixo da porta. Rasgou o embrulho. Era um caderno em branco, com capa de couro marrom. Não havia nenhum tipo de pista que pudesse dizer de onde aquilo viera, nem o que significava. Resolveu pensar nisso depois. Jogou o caderno na gaveta da escrivaninha e se atirou na cama. Suas pernas doíam por causa da peregrinação e a cabeça ainda latejava seu final de ressaca. Deixou-se levar pelo sono noite adentro, pois não ia ter forças para uma nova bebedeira.

...

Despertou quando o relógio bateu marcando meia-noite. Engoliu em seco ao lembrar que não havia relógios na casa. Imóvel na cama, tentou descobrir de onde vinha o som. Podia ouvir ao fundo os barulhos habituais da noite lá fora – o uivo triste dos cachorros da vizinhança, os passos apressados de um ou outro pedestre – mas as badaladas enchiam a casa, como se viessem das próprias paredes. Assim que o relógio parou, ele ouviu um murmúrio solitário ao longe, uma voz rouca de mulher. Tentou compreender o que ela dizia, mas não conseguiu. O murmúrio ficou um pouco mais intenso, e ele pôde distinguir que na verdade eram duas vozes. O mais estranho é que elas não pareciam conversar. Pela entonação, parecia mais que cada uma falava para si.

Uma brisa gelada fez Gabriel estremecer na cama. Sua respiração condensava em vapor ao sair de sua boca. De onde diabos vinha aquele frio, se a casa estava toda fechada?

As vozes se aproximaram mais, e agora pareciam ser três. Gabriel correu até a janela e a abriu, na esperança de encontrar na rua a origem das vozes. As calçadas estavam vazias. Às suas costas, as vozes continuavam. Identificou algumas palavras soltas no meio da confusão, embora sem sentido algum. Eram quatro vozes, ele tinha certeza agora, cada uma com timbre e entonação próprios. Vasculhou a casa: não havia mais ninguém ali, mas as vozes estavam cada vez mais intensas. No início pensou que recitassem algum tipo de oração, mas à medida em que elas ficaram mais nítidas, começou a entender: eram histórias. Lendas soturnas, sombrias, há muito tempo esquecidas. Falavam sobre deuses perdidos, amores proibidos, cidades arrasadas, buscas eternas. Todas contadas ao mesmo tempo. E elas não paravam de chegar, já passavam de uma dezena. Atordoado pelo falatório dissonante, Gabriel tampou os ouvidos. Não adiantou: as vozes vinham de dentro da sua cabeça, brigando entre si por sua atenção. Apavorado, correu pelo quarto batendo a cabeça contra a parede, em uma tentativa desesperada de livrar-se daquele turbilhão crescente de histórias alheias. Podia senti-las à sua volta, pares de olhos amarelos à espreita.

Ele compreendeu, então, que só havia uma coisa a fazer. Correu até a escrivaninha e vasculhou até tocar o couro macio da capa do caderno. Colocou-o aberto sobre a mesa, pegou uma caneta e, tentando focar ao máximo em uma das vozes, começou a escrever. Preenchendo as páginas em um ritmo frenético, foi silenciando uma história por vez. O anel ardia em sua mão, fazendo com que ele fizesse pequenas pausas para girá-lo no dedo, afim de aliviar a sensação. Já era praticamente dia quando a última história se foi.

E foi assim que as histórias passaram a visitá-lo pelo menos três vezes por semana, arrancando-o do seu sono para que ele as transcrevesse. Ao longo dos anos, Gabriel foi ficando cada vez mais cansado. Seu rosto, agora encovado, ostenta um olhar nervoso, inquieto. Cinco décadas depois, ele apenas espera por elas. E nas noites em que elas não aparecem, ele sai à procura de alguém que possa substituí-lo.

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