domingo, julho 12, 2009

A Prisioneira

“Tears of unprecendented beauty
Reveal the truth of existence
We're all sadists”
Epica – "The Phantom Agony"

A silhueta negra do Abade se destacava contra a luz das tochas dos cruzados. Havia centenas delas. O ar estava denso e insuportavelmente quente, o que deixava os cavalos ainda mais agitados. Ele ergueu os braços em direção à cidade e liberou o ataque:

– Neca eos omnes. Deus suos agnoscet!

E os cavaleiros partiram, abrindo uma trilha de sangue e corpos mutilados até os portões da cidade. As tochas vieram logo atrás, tocando tudo que ainda se mexia. Um cheiro acre e pungente tomou o ar. Pessoas em chamas corriam pelo campos aos berros, não dava mais para distinguir se eram homens, mulheres, idosos ou crianças. Os olhos do Abade brilhavam de satisfação: Béziers caíra, mas ele iria até o fim. O sorriso que se abriu em seu rosto não era humano.

Jean-Baptiste acordou gritando. Estava banhando em suor. Eram quase duas da manhã, mas ele sabia que passaria o restante da noite em claro. O problema era o cheiro. Podia lavar o rosto e as mãos, banhar-se em perfume, mas o cheiro de carne queimada não ia embora. As crises de insônia estavam ficando cada vez mais freqüentes, e Deus havia tempos não atendia mais as suas preces para que trouxesse o sono de volta. Testemunhara coisas demais. Apanhou na gaveta um lenço perfumado, cobriu com ele o nariz e a boca, e deixou-se ficar na cama contemplando o teto, tentando ouvir o que se passava lá fora. Aparentemente, ninguém se alarmara com o seu grito. Conseguiu distinguir ao longe a movimentação da patrulha noturna, quebrando com passos regulares a monótona sinfonia das criaturas da noite. Sentiu uma ilusória, porém reconfortante, sensação de segurança.

Por volta das três da manhã, bateram vigorosamente em sua porta, o que fez seu coração disparar em agonia: não ouvira ninguém se aproximar. Cautelosamente, foi até a porta e espiou pela fechadura: era o miúdo noviço que estava em vigília na masmorra. Destrancou a porta e a abriu o suficiente para passar sua cabeça.

– Pois não?

– Sss.....Senhor, temos uma nova prisioneira – o noviço suava frio e gaguejava, visivelmente alterado – Pep...pediram que eu viesse buscá-lo!

– Aguarde um instante, vou me vestir.

Enquanto vestia rapidamente sua batina negra, Jean-Baptiste ponderou que o noviço talvez estivesse desconfortável em acordar um superior no meio da noite. Melhor assim: seu segredo estava protegido. O Inquisidor é um instrumento da vontade de Deus, e as pessoas poderiam interpretar os seus pesadelos e gritos noturnos como um sinal de que Ele o abandonou. Seria o seu fim.

O padre deixou o seu quarto e, juntamente com o noviço, seguiu em direção à entrada da masmorra. Enquanto atravessavam o pátio, o rapaz lhe fez um breve relatório da situação. Em uma pequena aldeia chamada Berriac, nas imediações de Carcassonne, homens que iam caçar na floresta começaram a sumir sem deixar pistas. Quando o número chegou a vinte e cinco, as mulheres da aldeia se armaram de facões e machados e organizaram uma expedição para tentar descobrir o que estava acontecendo. Em um ponto de difícil acesso, onde um córrego caudaloso cortava a floresta, encontraram uma cabana em péssimas condições. Dentro dela, encontraram uma mulher cozinhando um coelho com ervas. O seu aspecto e as condições do lugar não deixaram dúvidas às mulheres de que tinham encontrado a responsável pelo desaparecimento dos seus homens. Ela foi amarrada e trazida até aqui. Algumas mulheres seguiram o córrego à procura dos corpos, mas nada foi encontrado.

Na ante-sala da masmorra, a confusão era generalizada. As mulheres enlouquecidas gritavam pela execução da bruxa na fogueira. Os carcereiros e auxiliares, bem como outros dois padres, tentavam contê-las e conduzí-las para fora dali, mas também discutiam entre si sobre as providências a serem tomadas. A cabeça de Jean-Baptiste ainda latejava por causa do pesadelo e do perfume que usara para tentar esquecer aquele cheiro de carne queimada. Com um longo suspiro, começou a cumprir o seu papel.

– Basta! – ordenou com uma voz límpida e potente.

As mulheres se calaram, assustadas. Antes que elas voltassem a protestar, ele continuou.

– Já fui informado da situação e tenho muito trabalho a fazer! Levem as mulheres para o pátio e dêem-lhes água e comida. Saiam todos!

Discretamente, fez um sinal para que dois dos carrascos montassem guarda na porta pelo lado de fora. Não queria de forma alguma que as mulheres tentassem entrar ali de novo, tudo devia ser feito na mais perfeita calma. E então ele desceu as escadas que levavam à masmorra.

...

Oculto nas sombras da masmorra, Padre Jean-Baptiste observava silenciosamente a criatura na cela. Ela estava encolhida sobre a palha amontoada em um dos cantos, cabeça baixa, abraçando os joelhos. Suas roupas haviam sido completamente removidas, como manda o protocolo, e ela batia os dentes e soluçava baixinho por causa do frio desumano, balançando ritmicamente o seu corpo pra frente e para trás. Sua pele muito branca se destacava contra o cinza sujo daquele lugar e seus longos cabelos cor de fogo, caídos sobre os ombros, escondiam completamente o seu rosto. Não haviam marcas aparentes em seu corpo: graças a Deus, ela ainda não havia sido tocada.

O religioso deixou-se ficar um longo tempo ali, de olhos semicerrados, repassando mentalmente as informações que havia recebido. As florestas haviam se tornado lugares muito perigosos depois que os hereges foram expulsos de Carcassonne. A lembrança do massacre de Béziers deixara os fora-da-lei ariscos, com pavor de serem capturados e, conseqüentemente, muito mais violentos. Havia muitos relatos de desaparecimentos nas florestas do Languedoc, a mulher poderia não ter nada a ver com isso. Mas, pelo mesmo motivo, não conseguia entender como ela havia conseguido sobreviver sozinha na floresta. De qualquer modo, iria obter a verdade. Foi para isso que os monges dominicanos o treinaram secretamente há muito tempo atrás, antes mesmo da Inquisição existir oficialmente. Ele tirou do pescoço uma corrente de prata da qual pendia uma única chave prateada, a chave-mestra das celas, destrancou a porta e entrou, fechando-a atrás de si.

Assustada com o barulho repentino, a mulher ergueu a cabeça, e encarou o padre com seus grandes olhos azuis. Eles brilhavam intensamente sob a luz bruxuleante das tochas do corredor. Jean-Baptiste conseguia ver o sofrimento neles, como uma mistura de agonia e impotência causada pelo frio. Colocando sua vigorosa mão sob aquele delicado queixo feminino, forçou-a a ficar de pé. Foi então que compreendeu, de uma vez só, porque o noviço estava tão alterado e porque as mulheres a tomaram por uma bruxa. A linda moça, alta e esguia, era muito jovem e tinha o corpo mais bonito que já vira na vida. Do seu lado esquerdo, a região entre o ventre e o dorso estava coberta de lindos desenhos tatuados em negro, semelhantes à runas, que se estendiam da linha da cintura até chegar na axila. O jeito gracioso com que os desenhos terminavam embaixo do seio e nas costas demonstravam cuidado e planejamento. Não eram símbolos mágicos conhecidos, nem marcações rituais. Nunca vira nada parecido nos seus vinte anos de guerra ao oculto e isso o intrigava profundamente.

Ao perceber que o padre olhava espantado para os desenhos em seu corpo, a mulher começou a se debater. Com uma manobra precisa, Jean-Baptiste girou-a de costas travando-lhe ambos os braços atrás do corpo e, jogando seu peso sobre ela, prensou-a de encontro à parede de pedra fria. Ele podia sentir o corpo inteiro dela bater contra o seu, gelado e nervoso. Seu cheiro tinha algo de doce, ainda que selvagem, e lhe trouxe uma sensação que acreditava ter sido apagada a muito tempo: desejo. Não era difícil imaginar o que aconteceria se os caçadores da aldeia realmente a tivessem encontrado sozinha em sua cabana na floresta. Sussurrou diretamente em seu ouvido:

– Pare, ou terei que acorrentá-la!

Indefesa, ela lentamente foi se acalmando. Sua respiração entrecortada desacelerou enquanto o padre lutava para pensar com clareza.

– Fique quieta. Vou soltá-la. – ele pediu.

Afastando-se um passo, percorreu com os dedos as linhas, de alto a baixo, tentando descobrir como haviam sido feitas. Perguntou-lhe:

– O que significam esses desenhos?

Ela começou a chorar baixinho, com medo de fazer barulho. Foi então que ele viu, no seu tornozelo esquerdo, uma marca arroxeada inconfundível, sinal de que alguém a mantivera presa. Daria um belo brinquedo particular para um sádico, pensou consigo mesmo.

– Quem fez isso com você? – também não obteve resposta.

Podia vê-la tremer em desespero. Virou-a e puxou-a para junto de si. Ela parecia engasgada, como se fosse falar alguma coisa.

– Pode confiar em mim. – ele disse, embora soubesse que essa história dificilmente ia acabar bem pra ela.

Ela soltou um gorgolejar meio sinistro e caiu em prantos, sua cabeça contra o peito do religioso. Não conseguia falar. Ela era muda.

Ao compreender isso, Jean-Baptiste sentiu-se subitamente cansado. Poderia até torturá-la, mas não conseguiria nada. Nem respostas, nem uma confissão. Como também não haviam provas concretas de bruxaria, teria que submetê-la à Ordália da Água: ela seria lançada em um lago profundo com uma pesada pedra presa ao seu tornozelo, para que a água fizesse seu julgamento. Se ela fosse inocente, afundaria e se afogaria, caso contrário, flutuaria e seria resgatada apenas para ser queimada na fogueira. Em ambos os casos, isso significaria que o mistério dos desenhos permaneceria sem respostas para sempre. Uma sombra passou pelo seu rosto ao lembrar que em todas as mais de quarenta Ordálias que presidiu, todos os réus se afogaram. Apenas uma vez vira um acusado se erguer da água, mas aquilo fora um erro: antes de ser lançado na lago, todos já haviam percebido que ele não era mais humano. E o que se sucedeu foi uma tragédia que deu muito trabalhou para ser oculta.

Segurou o rosto da garota com as duas mãos, obrigando-a a enfrentar os seus olhos investigadores. Não encontrou maldade naquele azul cristalino, apenas medo. Sentiu novamente aquele misto de curiosidade e desejo assomando contra seu estômago e então tomou uma decisão sombria.

Abrindo a porta da cela, empurrou a ruiva para fora, em direção aos aparelhos de tortura. Situações extremas exigem medidas extremas, era o que seu antigo mestre lhe dizia. Conduziu-a com braço firme por entre os aparelhos até chegar numa Donzela de Ferro enferrujada, instalada contra a parede do fundo da sala. Na altura do umbigo havia um delicado buraco de fechadura. Jean-Baptiste inseriu ali a chave-mestra e a girou. Puxou então a porta, que se abriu sem esforço. O interior era muito escuro, não havia nem sinal dos temidos pregos ali. Sem dizer sequer uma palavra, enfiou a mulher ali dentro e, sem se importar com o terror estampado nos olhos dela, acionou um pequeno mecanismo interno. A porta fechou-se sobre eles com um estrondo, e a escuridão que os espreitava pareceu rodopiar.

...

O religioso empurrou a porta do aparelho novamente, e ele se abriu para a escuridão. Apoiando o braço esquerdo contra a parede para se guiar, puxou a mulher para junto de si. Assim que saíram, a porta bateu com um estrondo atrás deles, trancando-se novamente. Não estavam mais na masmorra. Estavam em um longo corredor escuro que conduzia para fora da fortaleza, um pequeno artifício que possibilitava introduzir secretamente na masmorra determinados prisioneiros.

Jean-Baptiste arrastou-a às cegas ao longo do túnel, que terminava em uma caverna na entrada da floresta. Logo mais dariam pela falta deles, e as buscas começariam. Continuaram avançando floresta adentro, e só pararam pouco antes do amanhecer, quando já estavam bem longe.

Ele havia lhe dado a sua batina para que ela pudesse se proteger minimamente do frio, e tremia recostado a um tronco de árvore. Ela aninhou-se ao lado dele, abraçando-o, e dormiu. Reconfortado pela sensação quente do corpo dela sobre o seu, ele logo adormeceu também.

...

Acordou sobressaltado, com o sol da manhã em seu rosto. Ao abrir os olhos, encontrou um par de olhos azuis que o admiravam. Os cabelos dela ardiam sob a luz da manhã, e ele descobriu que ela era ainda mais bonita longe da escuridão da masmorra. Antes que pudesse compreender o que estava acontecendo, ela beijou-lhe os lábios com doçura e ele foi tomado pelo desejo. Dessa vez, sem chance alguma de controle. Ela se ergueu sobre ele, tirou a batina e o abraçou. E eles rolaram pela relva, entregues um ou outro.

Jean-Baptiste acariciava a pele tatuada dela em veneração, como se tomasse conta de um grande tesouro. Sentiu seu corpo todo entorpecer em êxtase, e ele desejou que esse momento durasse para sempre. Não conseguia mais se mexer, mais isso não importava, estava totalmente enfeitiçado. Ela segurou o seu rosto com as duas mãos e o encarou, sua própria expressão distorcida de prazer, e ele sentiu como se ela o envolvesse completamente. De alguma forma, ele estava dentro dela até a metade, desaparecendo pouco a pouco, mas não havia outro lugar em que quisesse estar.

...

Ela estava deitada na relva nua e sozinha. Seu corpo ainda estremecia de prazer. Ficou um longo tempo ali, contemplando o céu enquanto sentia a energia roubada do padre espalhar-se pelo seu corpo, renovando suas forças. Estava livre novamente. Então ela partiu, desaparecendo no interior da floresta. Encontrar novas vítimas seria apenas questão de tempo.

4 comentários:

Camila disse...

Que conto lindo, envolvente e sensual. Me transportei completamente para as cenas, tão bem descritas. É como ler um livro ou assistir um filme, dá pra visualizar o cenário, as feições dos personagens, a intensidade dos atos, dá até para imaginar as runas tatuadas na própria pele. Bravíssimo!

Ju Galak disse...

Sed non satiata.

Ana Marques disse...

rs

Nos dias de hoje: não há corpo, não há crime. :)

e se ela absorve o corpo aprisionado e o transporta para dentro de si, dando a ele o último e maravilhoso orgasmo da morte... que morte mais doce, não é?

Muito sensual o conto.
Adorei.

Blog da Bruna disse...

Final-surpresa-inesperado.
O Knock-out dos contos bem escritos....
Todas as mulheres tem o poder de enganar?
Questionamento: coelho com hervas é coisa de bruxa? eu faço um prá lá de gourmand!
Você vai escreve outro conto contando a estória da tragedia que deu muito trabalho para esconder? beijos Bruna

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