quarta-feira, julho 01, 2009
hai kai da beleza do choro contido
segunda-feira, junho 15, 2009
Aposta
– Vou aumentar a aposta! – disse o homenzinho amarelado que estava no canto escuro, empurrando todas as suas fichas para o centro da mesa.
Gabriel achou graça no modo como o sujeito tentava esconder o nervosismo, girando com seus dedos alongados o grande anel de aço que usava no indicador da mão esquerda. Visto através da garrafa de whisky vazia, aquele rosto quadrado parecia ainda mais inumano.
“Está blefando”, murmurou para si enquanto os outros jogadores, um a um, desistiam da rodada. Via tudo em câmera lenta por causa da bebida. Passar da conta fora uma constante para ele nos últimos meses. Não lembrava direito como foi parar naquela mesa de jogo clandestina nos fundos do bar, nem de onde surgiram seus parceiros de jogo. Olhou para as cartas em sua mão e resolveu partir para o ataque. Perdera muito dinheiro essa noite. Precisava recuperar. Foi quando percebeu que ficara sem fichas. Frustrado, deu um soco na mesa, resmungando entre dentes:
– Eu apostaria a minha alma agora!
Fez-se um silêncio profundo na mesa. Gabriel ergueu os olhos e viu que todos olhavam pra ele com um profundo respeito.
– Aposta aceita! Mostre suas cartas! – disse o homenzinho, solene, erguendo suas grossas sobrancelhas.
– Era só modo de falar.... – Gabriel empalideceu. Seu mundo começou a girar acelerado, o ar escapando rapidamente dos seus pulmões.
Os outros jogadores protestaram. A aposta fora feita às claras e aceita. Eram testemunhas. Voltar atrás não seria uma atitude louvável.
Com o coração aos pulos, Gabriel teve vontade de sair correndo dali e sumir. Mas um pensamento maldoso logo veio à sua cabeça e o fez ficar onde estava. “Ele está blefando, eu não vou perder! Além do mais, fugir agora significaria perder tudo do mesmo jeito”. Acalmando-se, começou até a achar graça na solenidade dos outros jogadores. Então, confiante, abriu o seu jogo na mesa.
Dois ases, três damas: tinha um full house. Uma boa mão.
Sem mover um músculo do rosto, o homenzinho espalhou suas cartas sobre o tecido verde: 4, 5, 6, 7 e 8, todas de espadas. Straight flush.
Gabriel perdera! Sua vista escureceu, e ele teve a impressão de que todos os jogadores tinham rostos tortuosos, com estranhos olhos amarelos que o observavam desmaiar com a cara na mesa. O mundo desfez-se em preto.
...
Gabriel acordou assustado, com um suor gelado cobrindo seu corpo. Estava em seu próprio quarto, sem roupas. A cabeça doía a ponto de explodir.
– Bebe, desgraçado! – disse para si mesmo. – Nossa, que pesadelo, hein?
Levantou, ainda zonzo, e cambaleou em direção ao banheiro para lavar o rosto. Foi quando percebeu que em seu indicador direito havia um grande anel de aço liso. Seu coração disparou. Tentou tirar o anel do dedo. Não conseguiu. Encheu o dedo de sabão. Nada. O anel girou livremente no seu dedo, mas não soltou de jeito nenhum. Depois de passar quase uma hora tentando livrar-se do anel, desistiu. Vestiu-se e decidiu sair. Tentaria voltar ao bar da noite anterior.
Não conseguiu encontrá-lo. Poderia ser qualquer um, já que muitas vezes ia a mais de um por noite. Imerso no torpor semi-consciente da bebida, era muito difícil distinguir um do outro. Refez a parte do percurso que lembrava, mas nenhum bar da região tinha mesa de jogo nos fundos.
Desanimado, voltou pra casa. Ao entrar, tropeçou em pacote que havia sido enfiado por baixo da porta. Rasgou o embrulho. Era um caderno em branco, com capa de couro marrom. Não havia nenhum tipo de pista que pudesse dizer de onde aquilo viera, nem o que significava. Resolveu pensar nisso depois. Jogou o caderno na gaveta da escrivaninha e se atirou na cama. Suas pernas doíam por causa da peregrinação e a cabeça ainda latejava seu final de ressaca. Deixou-se levar pelo sono noite adentro, pois não ia ter forças para uma nova bebedeira.
...
Despertou quando o relógio bateu marcando meia-noite. Engoliu em seco ao lembrar que não havia relógios na casa. Imóvel na cama, tentou descobrir de onde vinha o som. Podia ouvir ao fundo os barulhos habituais da noite lá fora – o uivo triste dos cachorros da vizinhança, os passos apressados de um ou outro pedestre – mas as badaladas enchiam a casa, como se viessem das próprias paredes. Assim que o relógio parou, ele ouviu um murmúrio solitário ao longe, uma voz rouca de mulher. Tentou compreender o que ela dizia, mas não conseguiu. O murmúrio ficou um pouco mais intenso, e ele pôde distinguir que na verdade eram duas vozes. O mais estranho é que elas não pareciam conversar. Pela entonação, parecia mais que cada uma falava para si.
Uma brisa gelada fez Gabriel estremecer na cama. Sua respiração condensava em vapor ao sair de sua boca. De onde diabos vinha aquele frio, se a casa estava toda fechada?
As vozes se aproximaram mais, e agora pareciam ser três. Gabriel correu até a janela e a abriu, na esperança de encontrar na rua a origem das vozes. As calçadas estavam vazias. Às suas costas, as vozes continuavam. Identificou algumas palavras soltas no meio da confusão, embora sem sentido algum. Eram quatro vozes, ele tinha certeza agora, cada uma com timbre e entonação próprios. Vasculhou a casa: não havia mais ninguém ali, mas as vozes estavam cada vez mais intensas. No início pensou que recitassem algum tipo de oração, mas à medida em que elas ficaram mais nítidas, começou a entender: eram histórias. Lendas soturnas, sombrias, há muito tempo esquecidas. Falavam sobre deuses perdidos, amores proibidos, cidades arrasadas, buscas eternas. Todas contadas ao mesmo tempo. E elas não paravam de chegar, já passavam de uma dezena. Atordoado pelo falatório dissonante, Gabriel tampou os ouvidos. Não adiantou: as vozes vinham de dentro da sua cabeça, brigando entre si por sua atenção. Apavorado, correu pelo quarto batendo a cabeça contra a parede, em uma tentativa desesperada de livrar-se daquele turbilhão crescente de histórias alheias. Podia senti-las à sua volta, pares de olhos amarelos à espreita.
Ele compreendeu, então, que só havia uma coisa a fazer. Correu até a escrivaninha e vasculhou até tocar o couro macio da capa do caderno. Colocou-o aberto sobre a mesa, pegou uma caneta e, tentando focar ao máximo em uma das vozes, começou a escrever. Preenchendo as páginas em um ritmo frenético, foi silenciando uma história por vez. O anel ardia em sua mão, fazendo com que ele fizesse pequenas pausas para girá-lo no dedo, afim de aliviar a sensação. Já era praticamente dia quando a última história se foi.
E foi assim que as histórias passaram a visitá-lo pelo menos três vezes por semana, arrancando-o do seu sono para que ele as transcrevesse. Ao longo dos anos, Gabriel foi ficando cada vez mais cansado. Seu rosto, agora encovado, ostenta um olhar nervoso, inquieto. Cinco décadas depois, ele apenas espera por elas. E nas noites em que elas não aparecem, ele sai à procura de alguém que possa substituí-lo.
domingo, junho 07, 2009
Reencontro
"Blank face in the windowpane
Made clear in seconds of light
Disappears and returns again
Counting hours, Searching the night"
Opeth ‘Windowpane’
O apartamento já está quase vazio. Sobraram apenas o pequeno sofá e algumas fotografias emolduradas na parede. Esse excesso de espaço me deixa ainda mais ansioso, mas tudo que eu posso fazer agora é esperar.
Pela janela observo as crianças da vizinhança brincando no parque próximo, até que, com chegada da noite, elas retornam às suas casas como se estivessem sendo puxadas por linhas invisíveis, deixando a rua deserta.
Silêncio.
Subitamente eu tomo consciência do espaço ao meu redor. O apartamento inteiro parece estar vivo, consigo sentir sua respiração sob meus pés. Como um eco da minha percepção, a brisa noturna entra pela janela e arrepia até o último pêlo do meu corpo. Sinto na pele o farfalhar das folhas das árvores no parque, as batidas do coração de uma ave noturna, o orvalho se condensando nas janelas das construções vizinhas. Fecho os olhos e sinto o mundo convergir pra dentro de mim com violência, minha percepção se estende vertiginosamente por quilômetros como se as fronteiras físicas se desfizessem com a brisa gelada. De repente, bem próximo a mim, uma certeza.
Abro os olhos e viro para o interior da sala. Ela está lá, parada, a cabeça encostada no batente da porta. Morena, alta, pele muito branca. Olhando pra mim muito curiosa, com seus olhos negros profundos e serenos. Um olhar que eu conhecia bem.
– Você me encontrou!
– Você foi sutil como um terremoto.
– Ainda assim não tinha certeza que funcionaria.
– Aqui estou!
Ela se aproxima e me abraça, encostando a cabeça no meu peito. Um toque frio que me deixa completamente à vontade, me transportando no tempo e no espaço.
Vinte anos atrás, uma criança completamente assustada num hospital. Tubos, rostos preocupados e dor, muita dor. Os remédios que me deram fizeram meus cabelos cair, a boca tinha sempre um gosto amargo. Vinte semanas de paredes brancas e comida sem gosto, que quase nunca parava no meu estômago. Minha cabeça doía a ponto de explodir, minha vista turvava e, se eu estivesse em um dia de sorte, desmaiava de dor. Sempre que eu acordava dessas crises, uma garotinha da minha idade estava ao meu lado, me olhando com um par de olhos negros ansiosos, a mão sobre o meu rosto. Ela ficava conversando e brincando comigo até alguém entrar no quarto, quando ela dava um jeito de sumir.
Seus dedos percorrem suavemente meu rosto.
– A vida foi generosa com você.
– Eu nunca achei que eu fosse capaz de sobreviver àquilo.
– Nem eu!
O fato é que melhorei. Os médicos resolveram tentar mexer na minha cabeça pra ver se davam um fim naquilo. Ainda lembro de ter acordado assustado depois da cirurgia, ligado em um monte de aparelhos. Ela segurava minha mão firmemente. Olhou fundo nos meus olhos, me acalmou e me acariciou até o sono me levar novamente. Nunca mais a vi.
– Eu nunca consegui te esquecer!
– Eu nunca me afastei completamente...
– Então todos aqueles sonhos.... era você?
– Sim...
O seu abraço fica mais apertado, meu coração dispara, os profundos cortes em meus pulsos doem. Embora o sangue já comece a faltar em minhas veias, eu não poderia me sentir mais vivo. No meu íntimo apenas desejo que esse momento dure para sempre.
Mas a brisa voltou a entrar pela janela, enchendo a sala com a vida lá fora. Sinto um carro negro parar em frente ao prédio. Quatro homens descendo apressados. É ridículo como eles tentam não fazer barulho. Um deles está forçando a porta. Descobriram o que eu havia feito, afinal.
– Eu preciso ir – ela diz, enterrando ainda mais a cabeça no meu peito.
– Então isso é um adeus?
– Não! – ela disse olhando bem dentro dos meus olhos – Dessa vez, você vem comigo.
Então ela me beija, e o toque dos seus lábios pára o tempo, como se todo o sentido da vida estivesse aqui, nesse instante. Deixo minha alma seguir o seu destino enquanto ela saboreia cada sensação vivida, cada lembrança, cada segredo em mim. Eu sou completamente dela agora.
As batidas na porta não encontram resposta.
Dentro do apartamento, não vão encontrar nada. Apenas manchas de sangue no carpete.

terça-feira, junho 02, 2009
Sala de Embarque
domingo, maio 31, 2009
Imperfeitos

quarta-feira, maio 20, 2009
O Legado
"Now that you are gone casting shadows from the past /You and all the memories will last"
Se alguém visse aquela figura frágil caminhando pelo corredor levando nas mãos uma caixa de papelão, tomaria-a por uma assombração, sofregamente dirigindo-se para a ala norte da construção. As lembranças estavam por toda parte: nos quadros na parede, na poltrona em frente à lareira e até mesmo no doce aroma de tabaco que já se dissipava no ar.
Trêmula, estancou em frente a uma porta trancada, no final do corredor. Hesitou. Sabia que o que viera buscar estava do outro lado, mas também sabia que não suportaria entrar no estúdio outra vez. Pensou por um momento, respirou fundo e, por fim, girou a maçaneta.
Ali estavam elas. Todas as fotos de Sérgio, cobrindo painéis, paredes, móveis. Para ele, paixão, hobby, compulsão. Para ela, seu último legado, tudo o que ele lhe deixou. Não podia deixá-las ali.
Cláudia aproximou-se lentamente do primeiro painel. Retirou o alfinete que prendia a primeira foto e colocou-a na caixa, sentindo seu coração despedaçar-se. Temia não conseguir terminar.
Colocando as fotos, uma por uma, na caixa, ela foi percebendo o porquê da sua beleza inquietante. Elas transpiravam vida, eram naturais. Sérgio nunca pedira para bater uma foto, tampouco que lhe fizessem pose, por isso elas continham sentimentos, expressões, alegrias, tristezas, decepções. “Uma foto é instante de uma vida inteira eternizado em um pedaço de papel.” – era o que ele dizia. E era o que se sentia ao contemplar sua obra.
Ele fotografara tudo: festas de família, passeios, viagens, visitas. Nunca fora muito impulsivo, mas vivera intensamente todos os momentos da sua vida, sempre com a sua câmera a tiracolo, registrando tudo. Quando lhe perguntaram porque ele fazia isso, ele respondeu apenas: “A vida é fugaz”. Mas que diabos! Por que ele tinha de estar certo? Por quê?
As lágrimas de Cláudia caíram sobre a caixa, juntando-se ao seu passado, às suas lembranças. Ela nunca se perdoou por tê-lo deixado ir sozinho para a casa da mãe naquela noite. Ela ainda se lembra do telefonema da polícia, do bombeiro entregando-lhe a câmera de Sérgio com a objetiva quebrada, que ela ainda guarda consigo. As fotos vão se somando na caixa. Tantos rostos, tantos lugares, não apenas uma, mas muitas vidas congeladas ali, em breves instantes. Pequenas partes de um todo muito maior.
“Vidas passam, lembranças se perdem, mas são os ideais que constróem o mundo. Estes não morrem jamais!”
O estúdio vai ficando vazio, irreconhecível, triste. Ela sabe que não voltará mais lá, assim como sabe que sua vida nunca mais será a mesma.
Cláudia colocou a última foto na caixa e ergueu-a nas mãos. Não havia mais nada a fazer ali. Antes, porém, de fechar a porta atrás de si, ela colocou a caixa no chão, tirou da bolsa a câmera de Sérgio e bateu uma foto do estúdio vazio.
“Ideais não morrem”, pensou, trancando a porta.

quarta-feira, maio 13, 2009
Eau de Toilette
A lata de cerveja escapou da sua mão, rolando para junto das outras. Todas vazias. Era assim que seus olhos pareciam estar também. O vento soprava em seu rosto, tentando acordá-lo. Mas ele já não estava mais sentindo. Seu corpo, que há pouco estava solidamente sentado no parapeito da janela, parecia estar precariamente equilibrado no beiral. Na outra mão, um cigarro aceso lançava suas cinzas no vazio. Espalhadas pelo vento, elas alcançavam o chão, doze andares abaixo, aleatoriamente, deixando pequenas marcas no piso que separa o prédio da piscina. Mas ele não as vê. Embora parecesse catatônico, sua mente estava agindo rapidamente, apenas interpretando de uma forma diferente o que acontecia ao seu redor.
A brisa gelada parecia correr sobre o seu rosto, áspero por causa da barba por fazer, como uma mão a brincar com seus cabelos, ora penteando-os, ora desarrumando-os carinhosamente. O calor de sua jaqueta era envolvente como um abraço. Dois braços enlaçando-o pelas costas e apertando-o firmemente contra o peito, soprando um bafo quente e aconchegante em sua nuca. Podia até mesmo sentir o contato da pele, macia como veludo, quente, familiar. O torpor causado pela combinação de bebida e nicotina descia-lhe pela espinha como a dormência do amor, fazendo-o desejar adormecer ali, ouvindo as batidas do coração de sua amada. Aquele perfume no ar... estava em toda a parte e em lugar nenhum. Dois sentimentos coexistindo tempestuosamente, deixando os rastros do seu perpétuo confronto. Do seu lado esquerdo podia sentir o vazio da liberdade, um mundo estranho e assustadoramente hostil, porém irresistivelmente emocionante. Do seu lado direito, o conforto e a segurança claustrofóbica do lar, com o tédio da rotina e a certeza de saber onde está pisando. As duas sensações eram assustadoras: sentir o perfume e saber que ele não está ali. Tudo o que ele queria era que o tempo passasse depressa, para ele não mais sentisse alegrias ilusórias. Não mais acordasse desejando trocar a realidade pelo sonho...
Aos poucos, os fogos começaram. Por todo o lado as pessoas abraçavam-se e beijavam-se, mas seus olhos apenas perceberam o fulgor das estrelas artificiais que acendiam e apagavam freneticamente. Pensou no brilho daqueles olhos que conhecia bem e há muito aprendera a amar. Ultimamente, vinha aprendendo a odiá-los também, mas apenas o suficiente para manter sua sanidade. Lembrou-se, em seguida, dos lábios bem desenhados que outrora sussurravam palavras doces em seu ouvido. De quem seria o seu beijo de Ano Novo? Atormentado pelo pensamento, ele fechou seus olhos e rezou. Rezou muito, mas o perfume só foi embora quando o sono veio.
sábado, maio 02, 2009
Happy New Year!
terça-feira, abril 28, 2009
A Dançarina de Flamenco
"She dances while his father plays guitar
She’s suddenly beautiful"
Counting Crows – "Mr. Jones"
Flamenco. Sensualidade. Força. Desejo. Um dia eu ainda vou fazer uma cagada por uma dançarina de flamenco. A música é inexplicavelmente complexa e bela. O ritmo é febril, pois é o ritmo do próprio corpo. Olhares, alma. Eu ainda vou ter uma dançarina só pra mim! Cabelos e olhos negros, pele morena. Isso, como aquela.
Meu Deus! Vou pegar mais conhaque... Pronto!
Eu fico louco com o espírito fogoso dessa dança. Paixão rude. O salto de sua bota parece estar pisoteando minhas vísceras, ela olha pra mim, e eu não consigo mais tirar os olhos dela. Quem quer princesinhas inocentes??? Essa mulher é um caldeirão fervente! Ela não tem dono, faz o que quer.
Outra dose de conhaque.
Ela não pára mais de me olhar... e se aproxima. Vem dançar na minha frente. Brinca com seu corpo, suas curvas, usa suas armas. O ritmo acelera, o sapateado rasga angustiado minha cabeça. Cada vez mais perto. Posso agora sentir seu perfume selvagem, silvestre. Ela está suada e linda! Em um de seus volteios, ela pára a centímetros de minha boca. Eu perco o controle e a tomo em braços.
Súbito a música estanca.
O violonista larga o violão e puxa uma faca. Brilhante, fria.
Um grito.
Minha boca está amortecida, mas não é o conhaque.
Ainda vejo o cigano pegar a mulher pelo braço e ir embora.
Estranho... a mulher parece ter a pele e o cabelo claros agora.
Há pessoas em volta de mim. Seus rostos estão aflitos, mas o meu sono está vindo tranqüilo. Do meio dos rostos turvos, uma figura nítida me puxa pela mão. É a dançarina morena. Ela sorri para mim e me abraça... ela é fria como a morte.
