domingo, maio 31, 2009
Imperfeitos

quarta-feira, maio 20, 2009
O Legado
"Now that you are gone casting shadows from the past /You and all the memories will last"
Se alguém visse aquela figura frágil caminhando pelo corredor levando nas mãos uma caixa de papelão, tomaria-a por uma assombração, sofregamente dirigindo-se para a ala norte da construção. As lembranças estavam por toda parte: nos quadros na parede, na poltrona em frente à lareira e até mesmo no doce aroma de tabaco que já se dissipava no ar.
Trêmula, estancou em frente a uma porta trancada, no final do corredor. Hesitou. Sabia que o que viera buscar estava do outro lado, mas também sabia que não suportaria entrar no estúdio outra vez. Pensou por um momento, respirou fundo e, por fim, girou a maçaneta.
Ali estavam elas. Todas as fotos de Sérgio, cobrindo painéis, paredes, móveis. Para ele, paixão, hobby, compulsão. Para ela, seu último legado, tudo o que ele lhe deixou. Não podia deixá-las ali.
Cláudia aproximou-se lentamente do primeiro painel. Retirou o alfinete que prendia a primeira foto e colocou-a na caixa, sentindo seu coração despedaçar-se. Temia não conseguir terminar.
Colocando as fotos, uma por uma, na caixa, ela foi percebendo o porquê da sua beleza inquietante. Elas transpiravam vida, eram naturais. Sérgio nunca pedira para bater uma foto, tampouco que lhe fizessem pose, por isso elas continham sentimentos, expressões, alegrias, tristezas, decepções. “Uma foto é instante de uma vida inteira eternizado em um pedaço de papel.” – era o que ele dizia. E era o que se sentia ao contemplar sua obra.
Ele fotografara tudo: festas de família, passeios, viagens, visitas. Nunca fora muito impulsivo, mas vivera intensamente todos os momentos da sua vida, sempre com a sua câmera a tiracolo, registrando tudo. Quando lhe perguntaram porque ele fazia isso, ele respondeu apenas: “A vida é fugaz”. Mas que diabos! Por que ele tinha de estar certo? Por quê?
As lágrimas de Cláudia caíram sobre a caixa, juntando-se ao seu passado, às suas lembranças. Ela nunca se perdoou por tê-lo deixado ir sozinho para a casa da mãe naquela noite. Ela ainda se lembra do telefonema da polícia, do bombeiro entregando-lhe a câmera de Sérgio com a objetiva quebrada, que ela ainda guarda consigo. As fotos vão se somando na caixa. Tantos rostos, tantos lugares, não apenas uma, mas muitas vidas congeladas ali, em breves instantes. Pequenas partes de um todo muito maior.
“Vidas passam, lembranças se perdem, mas são os ideais que constróem o mundo. Estes não morrem jamais!”
O estúdio vai ficando vazio, irreconhecível, triste. Ela sabe que não voltará mais lá, assim como sabe que sua vida nunca mais será a mesma.
Cláudia colocou a última foto na caixa e ergueu-a nas mãos. Não havia mais nada a fazer ali. Antes, porém, de fechar a porta atrás de si, ela colocou a caixa no chão, tirou da bolsa a câmera de Sérgio e bateu uma foto do estúdio vazio.
“Ideais não morrem”, pensou, trancando a porta.

quarta-feira, maio 13, 2009
Eau de Toilette
A lata de cerveja escapou da sua mão, rolando para junto das outras. Todas vazias. Era assim que seus olhos pareciam estar também. O vento soprava em seu rosto, tentando acordá-lo. Mas ele já não estava mais sentindo. Seu corpo, que há pouco estava solidamente sentado no parapeito da janela, parecia estar precariamente equilibrado no beiral. Na outra mão, um cigarro aceso lançava suas cinzas no vazio. Espalhadas pelo vento, elas alcançavam o chão, doze andares abaixo, aleatoriamente, deixando pequenas marcas no piso que separa o prédio da piscina. Mas ele não as vê. Embora parecesse catatônico, sua mente estava agindo rapidamente, apenas interpretando de uma forma diferente o que acontecia ao seu redor.
A brisa gelada parecia correr sobre o seu rosto, áspero por causa da barba por fazer, como uma mão a brincar com seus cabelos, ora penteando-os, ora desarrumando-os carinhosamente. O calor de sua jaqueta era envolvente como um abraço. Dois braços enlaçando-o pelas costas e apertando-o firmemente contra o peito, soprando um bafo quente e aconchegante em sua nuca. Podia até mesmo sentir o contato da pele, macia como veludo, quente, familiar. O torpor causado pela combinação de bebida e nicotina descia-lhe pela espinha como a dormência do amor, fazendo-o desejar adormecer ali, ouvindo as batidas do coração de sua amada. Aquele perfume no ar... estava em toda a parte e em lugar nenhum. Dois sentimentos coexistindo tempestuosamente, deixando os rastros do seu perpétuo confronto. Do seu lado esquerdo podia sentir o vazio da liberdade, um mundo estranho e assustadoramente hostil, porém irresistivelmente emocionante. Do seu lado direito, o conforto e a segurança claustrofóbica do lar, com o tédio da rotina e a certeza de saber onde está pisando. As duas sensações eram assustadoras: sentir o perfume e saber que ele não está ali. Tudo o que ele queria era que o tempo passasse depressa, para ele não mais sentisse alegrias ilusórias. Não mais acordasse desejando trocar a realidade pelo sonho...
Aos poucos, os fogos começaram. Por todo o lado as pessoas abraçavam-se e beijavam-se, mas seus olhos apenas perceberam o fulgor das estrelas artificiais que acendiam e apagavam freneticamente. Pensou no brilho daqueles olhos que conhecia bem e há muito aprendera a amar. Ultimamente, vinha aprendendo a odiá-los também, mas apenas o suficiente para manter sua sanidade. Lembrou-se, em seguida, dos lábios bem desenhados que outrora sussurravam palavras doces em seu ouvido. De quem seria o seu beijo de Ano Novo? Atormentado pelo pensamento, ele fechou seus olhos e rezou. Rezou muito, mas o perfume só foi embora quando o sono veio.
sábado, maio 02, 2009
Happy New Year!
terça-feira, abril 28, 2009
A Dançarina de Flamenco
"She dances while his father plays guitar
She’s suddenly beautiful"
Counting Crows – "Mr. Jones"
Flamenco. Sensualidade. Força. Desejo. Um dia eu ainda vou fazer uma cagada por uma dançarina de flamenco. A música é inexplicavelmente complexa e bela. O ritmo é febril, pois é o ritmo do próprio corpo. Olhares, alma. Eu ainda vou ter uma dançarina só pra mim! Cabelos e olhos negros, pele morena. Isso, como aquela.
Meu Deus! Vou pegar mais conhaque... Pronto!
Eu fico louco com o espírito fogoso dessa dança. Paixão rude. O salto de sua bota parece estar pisoteando minhas vísceras, ela olha pra mim, e eu não consigo mais tirar os olhos dela. Quem quer princesinhas inocentes??? Essa mulher é um caldeirão fervente! Ela não tem dono, faz o que quer.
Outra dose de conhaque.
Ela não pára mais de me olhar... e se aproxima. Vem dançar na minha frente. Brinca com seu corpo, suas curvas, usa suas armas. O ritmo acelera, o sapateado rasga angustiado minha cabeça. Cada vez mais perto. Posso agora sentir seu perfume selvagem, silvestre. Ela está suada e linda! Em um de seus volteios, ela pára a centímetros de minha boca. Eu perco o controle e a tomo em braços.
Súbito a música estanca.
O violonista larga o violão e puxa uma faca. Brilhante, fria.
Um grito.
Minha boca está amortecida, mas não é o conhaque.
Ainda vejo o cigano pegar a mulher pelo braço e ir embora.
Estranho... a mulher parece ter a pele e o cabelo claros agora.
Há pessoas em volta de mim. Seus rostos estão aflitos, mas o meu sono está vindo tranqüilo. Do meio dos rostos turvos, uma figura nítida me puxa pela mão. É a dançarina morena. Ela sorri para mim e me abraça... ela é fria como a morte.
